Sob desgaste, Brasil mira vaga no Conselho de Segurança

RICARDO DELLA COLETTA
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BRASÍLIA‚ DF (FOLHAPRESS) - O Brasil está em campanha para ser eleito pela 11ª vez membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), numa ação para consolidar o país como um dos mais frequentes participantes da entidade responsável por zelar pela paz na arena global. Apesar de diplomatas preverem que o Brasil caminha para alcançar os dois terços de votos necessários entre os estados-membros das Nações Unidas, o país atravessa o pleito sob a sombra da imagem internacional desgastada do presidente Jair Bolsonaro. Desde o início de seu governo, Bolsonaro acumulou confrontos com países europeus, mundo árabe, China e, mais recentemente, os Estados Unidos liderados pelo presidente Joe Biden. A eleição está agendada para junho. O Conselho de Segurança é composto por cinco integrantes permanentes com direito a veto —Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França— e dez membros rotativos, que cumprem mandatos de dois anos cada. A renovação de metade dos participantes não permanentes ocorre anualmente. O principal trunfo do governo brasileiro é um robusto histórico de participações na entidade —ao lado do Japão, o país que mais mandatos temporários cumpriu—, além do fato de ser até o momento candidato único no grupo da América Latina e Caribe. As vagas no conselho são definidas segundo as áreas geográficas. Os países latino-americanos tradicionalmente cumprem um acordo de rodízio para que não seja lançado mais do que um candidato. Diplomatas que trabalham com o tema no Itamaraty têm monitorado se há disposição de algum outro governo latino-americano para lançar uma postulação concorrente à brasileira, mas relatam que até o momento não há indicativo de que isso vá ocorrer. Além do mais, na mais recente ocasião em que ocorreu uma disputa interna no grupo da América Latina, o país que tinha a vaga prometida não encontrou grandes problemas para se eleger. Em 2019, El Salvador tentou de última hora disputar o posto com São Vicente e Granadinas, mas obteve o apoio de apenas seis países. O pequeno Estado insular, por outro lado, recebeu 185 votos. De acordo com diplomatas consultados pela reportagem, o tamanho e a importância do Brasil para a América Latina desencorajam a apresentação de candidaturas alternativas, embora a possibilidade não possa ser descartada até o final do processo. Muitos países vizinhos endossam ainda a demanda histórica do Brasil de, em uma reforma da ONU, conseguir um assento permanente —sem direito a veto— no conselho, por considerarem que a América Latina está sub-representada da entidade. Embora o Brasil seja considerado um candidato sólido na disputa para o mandato temporário, diplomatas avaliam que a guinada conservadora na política externa brasileira pode gerar alguma resistência à postulação do país. O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, está à frente da agenda bolsonarista. O país já tem enfrentado problemas diplomáticos em decorrência dos posicionamentos da ala ideológica do governo. Antes considerado um interlocutor com boas condições de transitar entre países adversários, o Brasil de Bolsonaro tem rompido posicionamentos históricos e entrou em rota de colisão com vários parceiros tradicionais. Interlocutores que acompanham o tema destacam principalmente o alinhamento do Brasil com Israel em temas relacionados ao conflito com os palestinos, o que provoca animosidade entre países árabes e o mundo islâmico. A falta de engajamento do governo Bolsonaro com a África e a decisão de apoiar os Estados Unidos na votação na ONU sobre o embargo em Cuba também são apontadas como ações que causam desconfiança de outras nações. O ex-chanceler Celso Amorim —que presidiu os trabalhos do Conselho de Segurança em 1999— opina que dificilmente o Brasil não será eleito. Mas destaca que as posições adotadas por Bolsonaro podem levar o país a ter uma votação abaixo de performances anteriores. "Sem outro candidato [do grupo latino-americano] é difícil não ser eleito. Agora, o Brasil pode ter uma votação baixa que seja desmoralizante. O Brasil era eleito praticamente com a unanimidade dos votos. Às vezes um ou dois [países] não votavam no Brasil, mas era para mostrar mais insatisfação com o sistema de escolha do que com o Brasil", diz Amorim. "Vejo uma perda de prestígio do Brasil, que no fundo afeta a capacidade de atuação no Conselho", afirma o ex-chanceler. Procurado, o Itamaraty disse que tem "buscado angariar o mais amplo apoio possível ao pleito" brasileiro. O ministério afirmou ainda que a candidatura do Brasil está ancorada em compromissos históricos do país com a "paz e a segurança internacionais e com a defesa e proteção dos direitos humanos, das liberdades fundamentais e da dignidade humana". "O governo brasileiro continuará a defender o papel do Conselho de Segurança na prevenção e resolução de ameaças à paz e à segurança internacionais, sempre de acordo com os propósitos e princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas e em respeito à soberania de todas as nações", afirmou a pasta. "Ademais, [o governo] compromete-se a manter, na medida de suas capacidades, contribuição efetiva para missões de paz das Nações Unidas", declarou a chancelaria.