Sob influência de Kassab, Tarcísio começa transição com racha iminente do bolsonarismo

O governador eleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, pode enfrentar uma debandada de bolsonaristas em meio à escolha de sua equipe de transição.

No centro da tensão está a influência do presidente do PSD, Gilberto Kassab, na formação do novo governo, e seu flerte com o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.

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Kassab confirmou na semana passada que seu partido deve integrar a base do novo governo Lula. Quadros do PSD como Otto Alencar (BA), Omar Aziz (AM) e Alexandre Silveira (MG) compõem a equipe de transição.

A proximidade do dirigente com Lula vem irritando o presidente Jair Bolsonaro, segundo relatos de seus aliados em São Paulo. A insatisfação piorou após as declarações de Kassab de apoio à ampliação da base petista no Congresso.

Aliados do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) esperavam por seu encontro nesta quinta-feira com Tarcísio, data do início simbólico da transição de governo, como prova de prestígio do clã, o que não deve ocorrer.

Tarcísio tem agenda com o atual governador Rodrigo Garcia (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes nesta tarde. Os coordenadores da transição de ambos os lados, o ex-ministro Guilherme Afif Domingos e Marcos Penido, secretário tucano, estarão presentes.

Trata-se da primeira transição de governo no estado de São Paulo em 28 anos. Isso porque desde 1995, quando Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB) passou o bastão a Mário Covas (PSDB), os tucanos venciam todas as eleições.

Bolsonaristas que ajudaram a eleger o novo governador dizem nos bastidores não mais acreditar que ocuparão postos-chave no secretariado.

Há queixas em grupos bolsonaristas de São Paulo sobre a composição ideológica de auxiliares de Tarcísio e o não alinhamento a pautas que o presidente da República defende.

Uma publicação de Tarcísio no Instagram depois das eleições, na qual ele atribui a vitória a Afif Domingos, causou incômodo entre bolsonaristas, já que não foi dada a mesma importância a Bolsonaro, segundo eles.

Segundo uma pessoa da campanha vencedora, "Tarcísio é viciado em diploma, se o cara não for técnico, não tiver formação, duvido que entre (no governo)". A afirmação é corroborada por sinais dados pelo governador eleito, que até agora não acenou ao bolsonarismo.

— A gente tem aquelas pessoas que trabalharam na elaboração do plano de governo, que poderão fazer parte da equipe. Elas têm o perfil técnico que a gente quer — afirmou Tarcísio, em entrevista na semana passada.

Ainda que estejam cotados para compor o gabinete de Tarcísio alguns nomes próximos a Bolsonaro, como Hélio Ferraz, sucessor de Mário Frias à frente da Secretaria de Cultura, e Roberto de Lucena, pastor evangélico filiado ao Republicanos, eles não são vistos como representantes do presidente.

Uma ala do bolsonarismo defende o ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro e hoje deputado federal eleito, Ricardo Salles, para a pasta análoga em São Paulo, e o coronel Mello Araújo, presidente do Ceagesp e homem de confiança do presidente, na Segurança Pública, mas já vê as nomeações como improváveis.

O poder de Afif Domingos

Homem de confiança de Kassab, Afif Domingos é considerado uma força própria capaz de barrar indicações de outros grupos políticos que disputam espaço no novo secretariado, como PSDB, Republicanos e o próprio bolsonarismo.

Espera-se que Afif consiga emplacar na Secretaria de Educação a ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e uma das idealizadoras do Enem, a educadora Maria Inês Fini, e o ex-deputado federal Eleuses Paiva (PSD) na Saúde.

O vice Felicio Ramuth (PSD) deve ocupar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, a pedido do próprio Tarcísio. Ele é usado como outro exemplo de desgaste da base bolsonarista com Tarcísio, pois não é considerado alguém identificado com o bolsonarismo.

— Se for a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, ótimo, se não for, outro caminho também estou à disposição — declarou Ramuth em entrevista dias atrás.

A pasta da Habitação, com seu orçamento de R$ 2,5 bilhões para projetos de moradias populares em 2022, também pode ficar com o grupo de Afif, mas tem concorrência de Marcos Pereira (presidente do Republicanos) e aliados de Garcia.

Tarcísio deve anunciar os nomes do secretariado e do gabinete de transição a partir dos próximos dias. A ideia é manter as 23 secretarias da atual administração.