Sob pressão do centrão, Bolsonaro dá posse a Queiroga em cerimônia discreta fora da agenda

RICARDO DELLA COLETTA E GUSTAVO URIBE
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu posse, no final da manhã desta terça-feira (23), ao novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga. Por causa de pressão do bloco do centrão, a cerimônia ocorreu no gabinete da Presidência da República, sem a presença de convidados e da imprensa e sem constar na agenda oficial. A decisão se deveu ao movimento iniciado desde o final de semana por integrantes do centrão de convencer o presidente a indicar outro nome para o posto. No meio da tarde, foi publicada uma edição extra do "Diário Oficial da União" com a exoneração do general Eduardo Pazuello e a nomeação de Queiroga. O remanejamento de Pazuello para o comando do PPI (Programa de Parcerias e Investimentos), porém, ainda não havia sido publicado até a última atualização desta reportagem. Com a demora de Queiroga em se desvincular de uma clínica da qual era sócio, o bloco partidário chegou a sugerir a ministros palacianos que reconsiderassem as indicações dos deputados federais Luiz Antonio Teixeira Jr. (PP-RJ), o Doutor Luizinho, e Ricardo Barros (PP-PR). Além disso, segundo assessores palacianos, a posse às pressas também teve como objetivo evitar cobranças das cúpulas do Legislativo e do Judiciário em reunião marcada para quarta-feira (24). A falta de uma definição em meio à escalada de mortes é uma das reclamações que seria levada ao encontro pelas cúpulas do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal). A decisão de fazer uma posse discreta não foi bem avaliada por integrantes do próprio governo, sobretudo da cúpula militar. A avaliação deles é de que Bolsonaro deveria ter aproveitado a cerimônia para sinalizar uma mudança de postura do governo federal em relação à crise de saúde. Queiroga foi anunciado como substituto de Pazuello em 15 de março, mas sua participação societária numa clínica e a necessidade de encontrar uma saíra honrosa para Pazuello vinham atrasando a transferência do cargo. A indefinição gerou críticas de governadores —que apontaram falta de liderança na pasta— e de parlamentares do centrão. A avaliação é que a Saúde não poderia enfrentar uma transição lenta no momento mais grave da pandemia no Brasil, com subsequentes recordes no número de mortos e estados operando no limite das suas capacidades. Em entrevista à coluna Painel, publicada nesta terça-feira, o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), afirmou que a demora na efetivação da troca é "um erro do governo". "Deveria ter tomado posse na semana passada, espero que isso se resolva amanhã (23)", declarou. O PPI hoje está sob o guarda-chuva do ministro Paulo Guedes (Economia). A ida de Pazuello deve coincidir com a transferência do programa de privatizações para a Secretaria-Geral, do ministro Onyx Lorenzoni (DEM), ​numa nova derrota para Guedes. Onyx já teve o programa sob sua supervisão quando ele esteve vinculado à Casa Civil.