Sob pressão da Rússia, Ucrânia colhe derrotas entre aliados no Ocidente

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob intensa pressão militar e temendo a eventual perda de mais territórios para a Rússia, a Ucrânia começou a semana colhendo derrotas políticas entre seus aliados no Ocidente. E passou recibo da situação.

"A Europa deve mostrar força. Todas as brigas na Europa devem acabar, são disputas internas que apenas incentivam a Rússia a colocar mais pressão sobre vocês", afirmou o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, em vídeo gravado para uma sessão do Conselho Europeu nesta segunda (30).

Ele não falou diretamente, mas se referia à indecisão da UE (União Europeia) acerca de um embargo à compra do petróleo russo —a Comissão Europeia calculou em abril que Vladimir Putin recebia cerca de € 1 bilhão por dia vendendo hidrocarbonetos para o continente.

Líderes europeus querem chegar a um acordo sobre o tema até a cúpula do bloco de 27 países, em 23 e 24 de junho, buscando acomodar a posição daqueles contrários a um veto, como a Hungria de Viktor Orbán. Um encontro de dois dias que começou nesta segunda em Bruxelas tentará dirimir divergências.

Segundo um rascunho de acordo que circulou entre agências internacionais de notícias, a saída para agradar os húngaros, tchecos e eslovacos é vetar apenas as compras por meio de petroleiros, deixando os oleodutos que trazem a maior parte do produto isentos. Orbán, ao chegar a Bruxelas, disse que o acordo seria aceitável, mas voltou a dizer que vetar petróleo russo é "uma bomba atômica para nossa economia".

Mesmo o arranjo não está certo, segundo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Esse corte tiraria cerca de 2/3 do petróleo cru russo do continente, mas há dúvidas sobre a capacidade de reposição por outras fontes —Moscou responde por 27% das importações do produto.

Os alemães, alvo principal em Kiev de acusação de leniência com a guerra de Vladimir Putin devido à sua dependência do gás comprado da Rússia, estão inclinados à solução salomônica. "Haverá um acordo", disse o premiê Olaf Scholz.

São autoridades da maior economia europeia as principais realistas do processo. A chanceler Annalena Baerbock já apontou o "momento de fadiga" no Ocidente com a guerra, apesar de todos manterem o apoio a Kiev, sob ataque há três meses.

Além dos germânicos, franceses também são vistos como apoiadores indiretos de Putin: o presidente Emmanuel Macron afirmou na semana passada que a entrada da Ucrânia na UE seria um processo de décadas, se tanto.

Em Kiev, o chanceler Dmitro Kuleba, reclamou disso após receber a colega francesa Catherine Colonna. "Precisamos de uma afirmação legal de que a Ucrânia é parte do projeto de integração europeia", disse, cobrando algum programa especial de adesão.

Uma das razões russas para a guerra era manter a Ucrânia militarmente neutra, como um tampão entre a Otan (aliança militar ocidental) e o território de Moscou. Só que, ao longo do conflito, a eventual adesão à UE também foi colocada pelo Kremlin como inaceitável.

Há o componente político e militar, claro, mas também o temor de que a Ucrânia fosse transformada numa vitrine eslava da UE, ao estilo da Berlim Ocidental na Guerra Fria, sugerindo uma prosperidade e democracia que poderiam inspirar opositores do regime de Putin.

A segunda trouxe más notícias para Zelenski também vindas de Washington, capital onde os tambores da guerra ressoam mais fortes em favor dos ucranianos. Após relatos emergirem de que os EUA poderiam aprovar o envio de sistemas de lançadores múltiplos de foguetes de longo alcance para os ucranianos, o presidente Joe Biden afirmou que isso não ocorrerá.

"Nós não vamos mandar para a Ucrânia sistemas de foguetes que possam atingir a Rússia", afirmou Biden a repórteres na Casa Branca, ecoando seu discurso de querer evitar um choque entre Otan e russos, que poderia acabar numa Terceira Guerra Mundial. Lançadores múltiplos de mísseis estão na mesa, mas apenas com alcance inferior —há modelos americanos que chegam a atingir alvos a 300 km.

Nesta segunda, a região russa de Kursk, vizinha da Ucrânia anunciou que iria receber reforça militar para lidar com a eventualidade de o conflito começar a transbordar, na forma de ataques pontuais. A fala de Biden foi elogiada pelo ex-presidente russo Dmitri Medevedev, hoje um linha-dura no Conselho de Segurança do país.

Seu chefe, Putin, que teve novamente problemas de saúde especulados na imprensa ocidental negados pelo chanceler Serguei Lavrov, por sua vez tocou uma diplomacia direta com o membro mais arisco da Otan, a Turquia.

Numa conversa com presidente Recep Tayyip Erdogan, que apoia Kiev mas se mantém próximo de Moscou, Putin delineou um plano para retirar minas marítimas do mar Negro e permitir um corredor de escoamento de grãos ucranianos para o mundo. Hoje, há temor de fome em pontos da África porque há mais de 20 milhões de toneladas de trigo e milho represadas pela guerra.

A proposta russa já havia sido recusada na semana passada por Kiev, porque na prática submeteria sua exportação aos desígnos do Kremlin e também pelo fato de que Putin queria a suspensão de algumas das sanções a que seu país está submetido em troca do arranjo.

A conversa com Erdogan mostra que o assunto não está encerrado, e Putin já havia falado no sábado sobre o tema com Scholz e Macron, numa renovação de canais diplomáticos. De quebra, o turco é quem está prometendo vetar a entrada da Finlândia e da Suécia na Otan, um subproduto importante da guerra.

Tudo isso ocorre enquanto as forças russas acentuam seus ataques no Donbass, o leste do país. A cercada e destruída cidade de Severodonestk, cuja queda completaria a conquista da província de Lugansk por Moscou, registrou combates nas ruas.

Lavrov afirmou a uma rede francesa que manter independente todo o Donbass, composto pela província e pela vizinha Donetsk, é a "prioridade absoluta" do Kremlin —ele não comentou, contudo, sobre o fracasso da ofensiva inicial da guerra em tomar Kiev.

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