Sob pressão, Europa ataca Reino Unido por falta de vacinas

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - Atolada numa vacinação vagarosa e "vendo a crista da terceira onda de Covid se levantar", a União Europeia subiu o tem nesta quarta (17) contra o Reino Unido, a quem acusa de não agir com "reciprocidade e proporcionalidade" no fornecimento de imunizantes. "Estamos na crise do século, e vidas humanas, liberdades civis e nossa economia dependem da velocidade da vacinação para avançar. Usaremos todas as ferramentas possíveis para vacinar com rapidez", afirmou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (Poder Executivo da UE). Entre "todas as ferramentas possíveis" estão restringir ainda mais as exportações para países fabricantes ou que já estejam com sua imunização avançada. E, entre esses fabricantes com imunização avançada, o alvo citado foi o país vizinho (e recém-divorciado da UE no brexit). Von der Leyen disse que a União Europeia já exportou para o Reino Unido cerca de 10 milhões de doses de vacinas, mas as fábricas britânicas não embarcaram imunizantes para o bloco. Como reação, a UE disse não descartar nem mesmo suspender direitos de propriedade intelectual (medida à qual tem sido contrária em reuniões da OMC). "Todas as opções estão sobre a mesa", disse Von der Leyen, após lembrar que a quebra de patentes já foi usada pelo bloco nos anos 1970. No centro da disputa estão sucessivas quebras de remessa de vacinas produzidas pela AstraZeneca --de controle sueco e britânico-- para a União Europeia. A empresa havia se comprometido com 90 milhões de doses no primeiro trimestre deste ano, mas informou depois que só 40 milhões estariam disponíveis e acabou entregando apenas 30 milhões, um terço do contratado. Para o segundo trimestre, o contrato prevê 180 milhões de doses, mas a fabricante deve entregar 70 milhões. A falta de fornecimento é um dos motivos para o desempenho tímido da imunização no bloco europeu, principalmente se comparado com o relativo sucesso do Reino Unido. Mas está longe de ser o único ou o principal, até porque vários países ainda têm estoques de vacinas em suas geladeiras. Segundo o centro de controle de doenças europeu, até esta quarta o bloco havia usado em média apenas 46% dos cerca de 14 milhões de doses da AstraZeneca que o países já receberam. Entre outras causas para a maior eficiência da campanha britânica até agora está o fato de que o governo do premiê Boris Johnson contratou e aprovou vacinas cerca de um mês antes que a União Europeia. No final de dezembro, quando o regulador europeu deu sua primeira aprovação, o Reino Unido já estava injetando em seus cidadãos centenas de milhares de doses por dia, tanto da AstraZeneca quanto da Pfizer/BioNTech, desenvolvida e produzida pela UE. Além de largar na frente, o programa de vacinação nos países do Reino Unido deslanchou rapidamente porque adotou um sistema simplificado e único de agendamento e uma campanha intensiva de comunicação. Já na Europa, cada governo implantou regras de acesso e estruturas de logística diferentes, chegando até a barrar o uso da vacina da AstraZeneca em idosos, embora a agência regulatória do bloco --que é responsável por avaliar segurança e eficácia dos produtos farmacêuticos-- tivesse recomendado seu uso para todos os adultos, sem restrição. Como resultado, o Reino Unido já aplicou 40 doses de vacina para cada 100 habitantes, quase o quádruplo da União Europeia, que na média a Europa injetou 11/100. Os desencontros sobre o produto da AstraZeneca aumentaram a insegurança da população, num momento em que a intenção de se vacinar estava crescente até mesmo nos países com maior presença de militantes antivacinação, como a França. A nova decisão de suspender o uso do imunizante da AstraZeneca "por precaução" foi uma pá de cal: só 20% dos franceses afirmaram confiar no imunizante em pesquisa da BMFTV feita logo após o anúncio. A Comissão não quis comentar a paralisação anunciada por quase 20 de seus membros, num movimento que tem sido atribuído a motivações políticas até mesmo dentro da UE. Na Bélgica, onde nenhum dos imunizantes foi suspenso, o porta-voz Yves Van Laethem disse que há tão poucos relatos de problemas que "a interrupção da campanha seria mais prejudicial do que qualquer outra coisa". "Na maioria dos países ao nosso redor, a decisão foi tomada por políticos, não pelas próprias agências de segurança médica", afirmou. No meio da polêmica, Boris Johnson se apresentou como um exemplo da segurança da vacina de Oxford/AstraZeneca. Questionado por um parlamentar conservador nesta quarta sobre a causa da "desinformação e aparente abandono de evidências científicas em certos estados membros da UE", "Acho que talvez a melhor coisa que posso dizer é que finalmente recebi a notícia de que terei minha própria injeção muito em breve. Certamente será Oxford/AstraZeneca", respondeu ele. O Reino Unido abriu recentemente a vacinação para maiores de 50 anos --o premiê já completou 56.