Sob pressão de indígenas, presidente do Equador apela ao diálogo

Horas depois de postar um vídeo em que acusa o movimento indígena de querer derrubá-lo, o presidente do Equador, o conservador Guillermo Lasso, baixou o tom e, em um discurso em cadeia nacional, afirmou que seu governo "sempre esteve aberto ao diálogo, escutando as necessidades dos equatorianos, especialmente os mais vulneráveis".

Há uma semana, a poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) vem organizando marchas em várias cidades do país e o bloqueio de estradas para exigir que o Executivo reduza o preço dos combustíveis. No fim de semana, Lasso declarou estado de exceção nas três províncias mais afetadas, e nesta segunda-feira incluiu outras três regiões: Chimborazo, Tungurahua e Pastaza.

“Com a decisão, protegemos de maneira preventiva o bem-estar dos cidadãos frente à violência. Também vamos defender os direitos daqueles que se manifestam de forma pacífica”, declarou a Presidência, através de sua Secretaria de Comunicação.

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Para concordar em conversar, os indígenas pedem que Lasso atenda a uma lista de dez pontos, que inclui a proibição de concessões de mineração em seus territórios. No discurso em rede nacional, com duração de três minutos, Lasso destacou que seu governo está atendendo a "demandas legítimas dos cidadãos", e apresentou uma carta, de 16 páginas onde, segundo ele, responde ponto a ponto as reivindicações dos indígenas:

— Nessa linha de compromisso, no último sábado atendi às solicitações da Conaie por meio de uma carta. O Equador escolhe a democracia, nunca o caos — afirmou o chefe de Estado. — Não podemos permitir que algumas pessoas violentas impeçam milhões de equatorianos de trabalhar. Estou aqui para defender Quito, todas as famílias da capital e do país. Temos que sentar à mesa e juntos encontrar soluções para cada uma das necessidades legítimas dos equatorianos.

Horas antes do discurso, no entanto, Lasso divulgou um vídeo no Twitter, acusando os manifestantes de quererem implantar o caos no país. Nas imagens, que mostram distúrbios provocados por algumas pessoas, Lasso enfatizou:

— Democracia ou caos, essa é a grande batalha, a batalha pela democracia. Não permitirei que o caos prevaleça.

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Os protestos, que duram uma semana, acarretaram perdas de pelo menos US$ 60 milhões nos primeiros cinco dias no setor produtivo nacional, afirmou à AFP a Câmara do Comércio de Quito. Também afetaram a produção de petróleo, principal produto de exportação, e o cultivo e exportação de flores.

Os manifestantes, no entanto, não parecem retroceder. Nesta segunda, milhares de indígenas atravessaram a ponte Jambeli, em direção à principal rodovia que corta o país, a Panamericana, em direção à Quito.

Na semana passada, o presidente da Conaie, o líder indígena Leonidas Iza, chegou a ser preso acusado de supostamente paralisar o serviço de transporte do país durante os protestos. Ele acabou libertado dias depois, mas a detenção deu mais fôlego às manifestações. Até agora, 83 pessoas ficaram feridas e 40 foram detidas em meio a choques com policiais e o fechamento intermitente de acessos à capital, e seu aeroporto, segundo autoridades e organizações indígenas.

Em pouco mais de um ano, o governo subiu o galão de diesel em 90% e a gasolina em 46%. Desde outubro, os preços estão congelados por pressão dos indígenas. Os protestos exigem que esse preços baixem. O movimento, liderado por Leonidas Iza desde 2021, também exige uma moratória para o pagamento de dívidas de agricultores, o controle de preços agrícolas, mais emprego, suspensão de concessões à mineração em territórios indígenas e novos investimentos em saúde, educação e segurança.

Para conter a crise, Lasso mandou aumentar de US$ 50 a US$ 55 um auxílio entregue a 30% da população mais vulnerável, subsídios a pequenos e médios produtores e perdão a créditos vencidos de até três mil dólares concedidos pelo banco estatal para o fomento produtivo. Também declarou emergência no sistema de saúde pública para destinar recursos extras e duplicou o orçamento para a educação intercultural.

Três presidentes derrubados

Cerca de 25% dos 17,3 milhões de habitantes do país, se identificam como indígenas. Fundada ainda na década de 1980, a Conaie é a maior organização indígena do país, e uma das mais antigas e importantes do continente. Sua força ficou ainda mais evidente ao longo da década e no início dos anos 2000, quando o país sofreu o retrocesso econômico mais severo da América Latina e a Conaie teve um protagonismo social importante, ajudando a derrubar diversos presidentes, como Abdalá Bucaram, em 1997; Jamil Mahuad, em 2000; e Lucio Gutierrez, em 2005.

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— A Conaie é a principal organização social do país — disse à AFP Franklin Ramírez, cientista político da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais de Quito, que acredita que não há condições para que as manifestações durem mais tempo. — O país está em crise econômica, começávamos a nos estabilizar após a pandemia. Não se até que ponto as classes médias e populares devem apoiar os protestos se afetam os negócios.

Em outubro de 2019, a Conaie também foi responsável por liderar protestos contra o governo que duraram quase duas semanas e tiveram saldo de 11 mortos e mais de mil feridos. À época, a sede do Parlamento, na capital, foi ocupada, o prédio da Controladoria foi incendiado e bens públicos e privados foram danificados. O então presidente, Lenín Moreno, denunciou uma tentativa de golpe.

Atualmente, seu braço político, Pachakutik, é a segunda força no Legislativo, onde a oposição está dispersa, mas tem maioria.

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