Talibãs dizem estar preparados para contra-atacar militares afegãos

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Recém-nascido é resgatado pelas forças de segurança afegãs de um hospital de Cabul atacado por homens armados em 12 de maio de 2020

Os talibãs garantiram nesta quarta-feira (13) que estão dispostos a lutar contra as forças de segurança afegãs, depois de o presidente instruí-las a retomar as ofensivas após dois atentados cometidos na véspera, o que fragiliza ainda mais o processo de paz no país.

O número de mortos em dois ataques separados cometidos no Afeganistão na terça-feira - contra um hospital-maternidade em Cabul e contra um funeral no leste do país -, aumentou para 56, informaram funcionários de saúde nesta quarta.

Ontem, três homens invadiram a maternidade de um hospital em Cabul, enquanto aconteciam consultas com bebês e crianças.

Hoje conheceram-se novos detalhes sobre o ataque à maternidade, que deixou 24 mortos entre recém-nascidos, mães e enfermeiras. Foi cometido horas antes de um atentado suicida que matou 32 pessoas em um funeral no leste do país.

Segundo a ONG Médicos sem Fronteiras (MSF), que dirige a unidade de maternidade do Hospital Barchi no oeste de Cabul, uma mulher deu à luz durante o ataque, que durou horas.

"Aproveitando a vulnerabilidade total de mulheres grávidas, mães jovens e recém-nascidos que recebem cuidados (...), os atacantes invadiram a maternidade com explosivos e tiroteios que duraram horas", destacou a MSF em um comunicado.

"Parece quase certo que pelo menos um dos nossos trabalhadores sanitários está entre as vítimas, que ainda estão sendo identificadas", acrescentou.

A maternidade atacada, com 55 leitos, foi aberta em 2014 e nela nasceram mais de 5.000 bebês desde o começo do ano.

As imagens de mães mortas e bebês enrolados em mantas ensanguentadas chocaram o mundo.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, acusou tanto os talibãs quanto o grupo Estado Islâmico de estarem por trás dos ataques. Este último assumiu o atentado em Nangarhar.

As forças de segurança afegãs estão há semanas em uma posição defensiva, na tentativa de facilitar as negociações de paz com os talibãs.

Mas os insurgentes, que negaram qualquer participação nos atentados de terça-feira, advertiram que estão "totalmente preparados" para responder a qualquer ataque das forças de segurança afegãs.

"A partir de agora, a responsabilidade por uma maior escalada de violência e suas ramificações recairão diretamente nos ombros do governo de Cabul", afirmaram os talibãs, em um comunicado divulgado nesta quarta.

A posição agressiva dos dois lados gera interrogações sobre o futuro do aguardado processo de paz, que claudica, enquanto o Afeganistão enfrenta uma crise sanitária pelo novo coronavírus, que já infectou mais de 5.000 pessoas no país, segundo cifras desta quarta-feira.

O Conselho de Segurança da ONU condenou fortemente os atentados, classificando-os como "odiosos e covardes".

"Atentar deliberadamente contra bebês, crianças, mães e funcionários da saúde é abominável", ressalta um comunicado do Conselho de Segurança, que enfatiza que "qualquer ato de terrorismo é criminoso e injustificável".

Os talibãs não reivindicam nenhum atentado em Cabul ou outras cidades afegãs desde a assinatura de um acordo com os Estados Unidos em fevereiro que prevê que as forças militares estrangeiras abandonem o país em um ano. No entanto, intensificaram sua ofensiva contra as forças de segurança afegãs.

A agência de Inteligência do Afeganistão assegura que os insurgentes cometeram 3.712 atentados no país desde a assinatura do acordo de paz, matando cerca de 500 civis.

- EUA promove a paz -

Os talibãs culparam o grupo Estado Islâmico e unidades do serviço de Inteligência afegão pelos últimos atentados.

O EI reivindicou a autoria do ataque no funeral, mas não o do hospital.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou os atentados.

"Os ataques contra civis são inaceitáveis e os hospitais, as instalações médicas e o pessoal têm proteção especial da lei humanitária internacional", afirmou seu porta-voz.

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou estar "consternado e horrorizado" com o ataque. Durante coletiva de imprensa virtual da OMS em Genebra, ele fez um minuto de silêncio e memória das vítimas.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, urgiu o governo afegão e os insurgentes a cooperarem para garantir o êxito do processo de paz.

"O fracasso deixa os afegãos vulneráveis ao terrorismo, à instabilidade permanente e ao sofrimento econômico", afirmou no Twitter Zalmay Khalilzad, enviado especial dos Estados Unidos para as negociações com os talibãs.

Por outro lado, estes últimos consideram um sinal de fraqueza a disputa entre Ghani e seu adversário, Abdullah Abdullah.

Abdullah, ex-chefe do Executivo que ficou em segundo nas eleições presidenciais de 2019, se autoproclamou presidente, celebrando uma cerimônia de posse própria no mesmo dia da de Ghani.