Sobre a estética da greve – OU a épica que ficou lá em 2013

Alex Antunes

Não me parece que a paralisação de ontem, sexta-feira, resolva (ou comece a resolver) o impasse que se instalou na política brasileira. Amigos meus, que reputam as mobilizações de 2013 como o ponto alto (e ao mesmo tempo o ponto de ruptura) das mobilizações políticas das décadas recentes, demonstraram algum otimismo. No sentido de que esta paralisação – pomposamente chamada de greve geral – recompusesse um pouco o estrago causado pelos erros petistas.

Comecemos daí: das nomenclaturas, como sintoma de insistência nos erros. A explosão de 2013 foi épica, literalmente. Iniciou-se numa mobilização contra um aumento nas passagens de ônibus em São Paulo mas, como numa brecha aberta numa represa, agigantou-se rapidamente, e ganhou expressão nacional, numa onda de inconformismo.

Note-se que, em meio ao primeiro governo Dilma, depois de dois governos Lula, não era necessariamente uma manifestação “antipetista”, mas mais uma exigência de correção de rumos. É aí que se aprofundam os erros. Ao invés de entender como uma oportunidade de reciclagem, depois de ter as vísceras de seu acordo com os fisiológicos expostas pelo julgamento do mensalão – e notem que desde 2005, do escândalo em si, correntes internas já falavam na necessidade de “refundação” –, o partido e o governo Dilma tentaram varrer a treta para debaixo do tapete do otimismo com Copa e Olimpíada.

Esse erro de avaliação se prolongou com os protestos contra a Copa que se estenderam pelo ano seguinte, e o nome de “baderneiros” pregado nos manifestantes (não só o nome, mas seus desdobramentos, com uma escalada de leis contra manifestações entre 2012 e 2016, todas sob o governo Dilma). A escolha contra as ruas estava feita.

Essa resistência psicológica à autocrítica está na base da polarização. Mesmo que ficasse óbvio o curso de degeneração das práticas do partido (aqui o ícone petista Paul Singer estabelece um roteiro que, ainda que com passagens bastante ingênuas, como a da crença numa refundação tardia, deixa clara a natureza do processo de perversão), o psiquismo petista sempre recusou despir o manto da “santidade”.

O que me leva a crer que os “defeitos de fabricação” do cristianismo e do comunismo, que parecem conduzir sempre e inevitavelmente à hipocrisia, são bastante semelhantes. Já em abril de 2014 eu brincava com o tema no texto Joaquim Barbosa, benfeitor do PT (mas o PT não notou). Mal sabia o PT que vinha um “Joaquim de primeira instância” ainda pior.

O que a manifestação de ontem tem a ver com isso? É que ela, ainda que proteste com pertinência e urgência contra os avanços a toque de caixa de reformas trabalhista e da previdência, por um executivo e um legislativo que carecem de legitimidade para fazer reformas estruturais (mesmo sem entrar aqui em questões técnicas), continua contaminada pela incompletude do “arco da autocrítica”. Por isso é que teimo no tema sintomático das nomenclaturas e conceitos enganosos. Não são detalhes.

Ontem, no facebook, uma quantidade notável de pessoas parecia acreditar que as postagens sobre a greve não podiam ser compartilhadas. Na verdade era apenas um mecanismo recente que faz com que nas postagens restritas a amigos não apareça o botão de compartilhamento. Como notou meu amigo, o escritor Rogério Godinho, não é um mecanismo de ocultamento mas, ao contrário, um que amplia a visualização das postagens, forçando a pessoa a copiar o texto, ou o autor abrir o post.

Qual é o grande problema por trás desse boato besta? É a manutenção desse psiquismo errado. Sua crença paranoica (como se Zuck tivesse algum lado que não fosse o dele mesmo, que se alimenta das polêmicas e assuntos que bombam) vai buscar um “nobre enfrentamento” com um inimigo notável. Acontece que nem Temer é esse inimigo notável. É antes um canalizador de mediocridades.

A pressa de Temer em fazer essas reformas combina dois fatos. Um é o de que elas têm que ser feitas, sim, para ajustar legislações antigas. Só que esse não seria o contexto, o momento e nem o andamento recomendável, ainda mais sem diálogo. E diálogo provavelmente levaria a outra reforma; que eliminasse privilégios de modo justo e não afetasse pessoas muito pobres, como as que recebem BPC (o chamado benefício da prestação continuada) e aposentadoria rural.

Só que o outro fato é de que o presidente, sem a menor responsabilidade junto junto a algum eleitorado (já que foi eleito como vice de Dilma, a que ele ajudou a empessegar), busca sua legitimidade junto ao capital. Ou seja, a relativa eficiência de Temer vem não de alguma fortaleza política, mas de um exercício de equilibrismo (que FHC chamou de “pinguela”, ao que Temer retrucou que em sua infância no interior não costumava cair delas). Em que todas as partes estão fragilizadas.

Há um conceito na metafísica de Carlos Castañeda, o do “adversário de valor”, que é necessário no treinamento de um feiticeiro. O Temer dos petistas é meio que o inverso disso, o “adversário sem valor” (e o próprio parece se dar conta de seu papel modesto, ao se declarar candidamente “caceado” com as acusações e embates), mas que é descrito como inimigo malévolo e potente, para a conveniência da própria narrativa autocondescendente petista, e não para qualquer avanço político. Eu quase entro em desespero quando leio postagens tratando o equilibrista da mediocridade como, por exemplo, verme vil e imundo (sim, há quem escreva solenemente assim), atribuindo ao inimigo algo muito distante de seus reais tamanho e atributos.

O mesmo erro se aplica a outro inimigo-clichê, a TV Globo. Cobrou-se que a Globo falasse antes da greve (claro que não falaria, seria fazer o jogo dos sindicatos), e que fizesse uma cobertura mais isenta (claro que não faria, a narrativa que interessa à Globo é a que interessa ao capital, a do andamento relâmpago das reformas). É ingênuo esperar o contrário. No meu senso de conspiração, me preocupa mais que a emissora tenha uma série que melodramatize a luta contra a ditadura (Os Dias Eram Assim) do que que faça uma cobertura parcial, ou mais calcada no aspecto dos “problemas de transporte” (risos).

Para piorar, a convocação da [paralisação] pelos aparelhos sindicais ainda está contaminada pelo ponto do fim da contribuição sindical obrigatória incluído na reforma. E, sim, o povo sabe que, no Brasil, a atividade sindical, assim como a parlamentar, se transformou numa das mais corruptas e oportunistas carreiras. Eu tendo a achar (mas não tenho ainda como comprovar) que aquela épica está perdida para sempre. 2013 talvez tenha sido o último dos grandes embates sociais, como os conhecíamos no século passado.

Ainda que encoberto por jargões idiotas, como “empreendedorismo” e “resiliência”, vivemos um ethos em que há um deslocamento de valores da esfera da responsabilidade coletiva para a individual. Sempre lembrando a perplexidade e controvérsia que causou a pesquisa da petista Fundação Perseu Abramo, que chamou (ainda que com imprecisão) de “neoliberais” os valores da população de periferia de São Paulo, agora eleitora de João Dória (mas que não vê haver grande diferença entre ele, Silvio Santos e o próprio Lula, como self made men).

Como diz minha amiga, a jornalista cultural (e pensadora espiritual) Ana Maria Bahiana, “talvez o Brasil precise mesmo de um pouco mais de direita da mesma forma que os EUA precisam de um pouco mais de esquerda. Não direita no sentido fascista/ patriarcal, ou esquerda no de comunismo/ estatização. Mas no sentido baphometiano, ou seja, o ciclo do solve et coagula. Caminho da mão direita (coagula: ordem, individualidade, responsabilidade pessoal, accountability, ownership de ideias e atos, competição, concretização, trabalho, iniciativa) e caminho da mão esquerda (solve: criatividade, coletivismo, responsabilidade social, senso de comunidade, cooperação, compartilhamento, prazer e lazer)”.

Pelas mesmas razões, costumo insistir que devemos começar a pensar esquerda num sentido exuzístico, não como uma inversão paródica dos conceitos “de direita”, mas como seu complemento, necessariamente mais flexível, sagaz, inclusivo. Seja como for, parece que estamos num momento em que o risco entre o que é de esquerda e de direita simplesmente vai ter quer mudar um tanto de lugar. Os clichês já não dão conta da realidade.

Eu não teria grandes problemas com isso de chamar estrategicamente uma paralisação de um dia de greve geral – e de convocá-la para uma sexta-feira antes de um feriado na segunda – se isso contribuísse para resolver o impasse, e não para tentar mascará-lo e contorná-lo com uma narrativa solene, grandiloquente. E de quebra passar o pano para as traições e vacilos de Lula, posicionando-o como candidato, ou ao menos supremo eleitor, em 2018.

Não creio que quem se sentiu desconfortável para aderir – ainda que se sinta ameaçado de alguma maneira pelas reformas – vá se sentir mais motivado ao ver quebra-quebra, barricadas em chamas e repressão violenta – incluindo até gangsters da CUT espancando trabalhadores que não queriam aderir. Creio que isso influiu na meia-adesão preponderante: não ir trabalhar, mas não ir às manifestações também (fora a parcela que emendou o feriado mesmo).

Não porque barricadas em chamas não sejam épicas e que, para alguns ativistas, essa tenha realmente sido uma experiência catártica – mas porque este momento é sim de enorme crise, mas uma crise bundona por sua própria natureza. E isso é uma estética incontornável. Para mim, tudo indica que o impasse continua.

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