Sobre salsichas, governos e castração

Alex Antunes

Procurando o jornal de anteontem, sábado, soube que ele havia esgotado cedo em umas dez bancas em que procurei. Eu tinha saído meio que correndo para uma palestra sobre o partido dos Panteras Negras no Sesc Pinheiros dada pela minha amiga, a pesquisadora Raquel Barreto (parte da programação da exposição, imperdível, sobre o trabalho de Emory Douglas como editor de arte e ilustrador do jornal, e demais materiais gráficos da organização, nos anos 1960 e 70).

Emendei com o ótimo show das Mercenárias na finalização do WME – Women’s Musical Event no CCSP, onde fiquei de conversa com as amigas participantes. E aí me dei conta que não dava mais para achar o jornal de sábado; nem ontem deu, procurando na av. Paulista. Evidentemente o assunto que esgotou rapidamente o jornal daquele dia foi o escândalo das carnes, exposto pela operação Carne Fraca da Polícia Federal, deflagrada na sexta-feira. A investigação trata de contaminação, uso ilegal de carnes vencidas, adição ilegal de químicas às carnes, com a conivência de fiscais corruptos do Ministério da Agricultura.

Nas redes a inquietação (diria o choque) das pessoas continua grande. Parte estarrecida com o descaso criminoso com os alimentos, parte ridicularizando os ingênuos pela surpresa, parte aproveitando para militar pelo vegetarianismo. A todos esses, em alguma medida, dou razão. E parte – a esses não dou razão – reclamando de um complô para: a) destruir ou entregar para os gringos mais esse setor com expressão internacional da nossa economia, e/ou b) desviar o assunto da reforma da previdência. Não que eu não goste de teorias da conspiração.

Só implico com aquelas que buscam motivações tão lineares para um assunto que, afinal, toca em tantas simbologias importantes (ou não causaria tanto efeito). Não acho nada espantoso que duas das campanhas publicitárias que mais chamaram a atenção (inclusive por sua insistência e desacerto de tom) nestes últimos anos tenham sido a de Tony Ramos para a carne da Friboi, e a de Fátima Bernardes para os produtos da Seara (sem esquecer de Angélica e Luciano Huck para a Perdigão, e até Robert De Niro para a mesma Seara). Friboi e Seara são marcas do grupo JBS, Perdigão do BRF; ambas estão sob investigação na operação.

A tentativa de trazer aquele que seria um dos maiores garotos-propaganda do Brasil, Roberto Carlos, para a campanha da Friboi, causou tanta estranheza e mal-estar que foi cancelada, gerando um desentendimento da empresa com o cantor em relação ao pagamento de multa pela rescisão do contrato. Certamente essa pressão publicitária toda agora causa um efeito inverso; incluindo um Tony Ramos tateando em explicações sobre seu contratante, e Fátima Bernardes fazendo vazar que já não ia renovar o contrato publicitário mesmo.

O problema é que a carne, ao mesmo tempo em que é um alimento cuja produção maciça é controversa em si mesma (pela destruição do meio ambiente, grilagem de terras, maus tratos aos animais, contaminação química e outros tantos problemas), tem seu consumo ainda tido como símbolo de prosperidade, e de bom gosto. Uma narrativa datada e pateta, totalmente dessintonizada com as urgências da humanidade em salvar a si mesma, ao invés de se entregar a delírios de consumo.

Como se estivéssemos em um comercial norte-americano dos anos 1950, Lula já chegou a declarar que um de seus objetivos era colocar um carro e uma churrasqueira na casa de cada trabalhador. E aí intervém um componente típico do machismo do século passado, o do churrasco enquanto uma refeição especial, aquela que é pilotada pelos homens (às mulheres resta providenciar os acompanhamentos para esse “ritual masculino”). A criação dos primeiros rebanhos da humanidade, diga-se, tem a ver com o avanço patriarcal sobre antigas regiões de culto matriarcal, como lembrou meu amigo Airton S.

Eu acho interessante que os governos do PT tenham deixado para trás essa bomba de efeito retardado, de expor as limitações das “nossas” pretensões capitalistas, ao impulsionar com dinheiro do BNDES grupos econômicos aventureiros e sem tradição (até pela pouca inserção do partido nos circuitos tradicionais da elite). E que agora começam a deixar bem visível seu rastro de incompetência.

O Eike, a carne podre, a cerveja ruim, as empreiteiras metidas em todo e qualquer negócio (notem que a ausência delas neste leilão de aeroportos atraiu gringos sim, mas gringos especializados no ramo), isso tudo criou um ambiente hoje favorável a, digamos, um processo de castração. Não é à toa que as visões desenvolvimentistas (fálicas, yang) ficam tão chocadas com o efeito que isso pode ter sobre nossa economia; em nossa capacidade de fazer disputas comerciais internacionais.

Mas, como disse o professor e ativista Pablo Ortellado no facebook, com uma dose de ironia: “A ideia é que deixemos de lado o escândalo da venda de comida podre para as nossas famílias, que deixemos de lado o saque bilionário da Petrobrás, que deixemos de lado o financiamento de campanha com o sobrepreço de obras superfaturadas, que deixemos de lado a construção de hidrelétricas que atropelam as comunidades do Xingu, que deixemos de lado a construção de mega-estádios que nunca mais serão utilizados – a ideia é jogar tudo para debaixo do tapete em defesa dos nossos grandes empresários que desenvolvem o país, gerando emprego, pagando impostos e levando o glorioso nome do Brasil?”

Uma qualidade que eu vejo no juiz Sergio Moro tem a ver com isso. Ao contrário do que propalam os detratores, a voz, a atitude dele, não é a de uma disputa de tamanho de falo contra falo (e esse é um erro pelo qual PT e simpatizantes vão pagar caro, o de atribuir a ele o único papel que conseguiriam compreender, o papel de “falo do PSDB”). Quando bate boca com a com a defesa do Lula, por exemplo, ele faz isso quase com enfado, com pouca paixão. Assim como a Polícia Federal, e o procurador geral da República, Rodrigo Janot, que se disse em carta recente envolvido com a “depuração do processo político”, Moro está é se colocando no papel de um castrador.

A PF, no caso das carnes, está sendo acusada de conduzir a operação com sensacionalismo, e com pouca precisão. Esta matéria da BBC faz um esforço em detalhar aspectos da produção de carne que foram meio jogados ao vento, por exemplo o dos ácidos (cancerígenos ou não? e em que quantidade?) que maquiam o início do processo de deterioração da carne.

A matéria é boa, exceto pelo fato de não ressaltar que, mesmo que a referência ao papelão tenha sido um erro da PF, um truque usual no fabrico de salsichas e mortadela, para aumentar volume e dar consistência, é mesmo o de acrescentar papel usado. Não à toa, andou sendo citada nestes dias uma frase do chanceler alemão Otto von Bismarck, no século 19 (ou ao poeta americano John Godfrey Saxe, segundo outras fontes): “Se soubéssemos como são feitas as leis, assim como as salsichas, não as respeitaríamos”. Sendo ou não sensacionalista, a operação tocou em um nervo exposto.

É verdade que tanto essas falcatruas eventuais como a própria prática da corrupção não são novidade no país, muito pelo contrário. Mas os governos do PT se esmeraram em turbinar parceiros (ainda mais) toscos, em colocá-los à força no centro do sistema, com o viagra dos dinheiros do BNDES e das partilhas com os partidecos fisiológicos. Exatamente o contrário do que tinham sido eleitos para fazer. E é claro que o governo do vice Temer, do überfisiológico PMDB, não age de modo muito diferente.

Esse ímpeto de castração gera turbulência política e econômica, sim. Mas esse é também um ritual necessário, contra uma ilusão fálica – que o PT tão desastradamente também encarnou. Porque se o Brasil tem um poder, é o de laboratório psicossocial multirracial. Esse sim um poder que tem tudo a ver com o século 21. Temos que recuperar esse talento rapidamente, e deixar de eikices e churrascadas tardo-capitalistas e industriais. Ao contrário do que garantia Tony Ramos no comercial, a Friboi não vem a ser garantia de p* nenhuma.

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