Sobrevivente, Demi Lovato canta sua overdose, pansexualidade e distúrbios em bom álbum

Luccas Oliveira
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Demi Lovato é, literalmente, uma sobrevivente. E nem todos na indústria do entretenimento tiveram a chance de começar de novo e contar o que viveram — e o que ainda querem viver. A noite em que foi estuprada pelo traficante e teve uma overdose de heroína e outras substâncias, que quase lhe custou a vida em 2018, já tinha sido dolorosamente narrada na série “Dancing with the devil”, disponível no YouTube, mas agora é cantada — e Demi nunca cantou tão bem como agora — e ilustrada nos versos e imagens do clipe da música epônima. “Eu te disse que estava bem, mas eu mentia/ Eu estava dançando com o demônio/ Quase fui para o inferno/ Foi mais perto do que você sabe”, relata ela nas letras, sobre uma cama instrumental grandiosa, com pianos e cordas se sobrepondo como numa trilha sonora de algum “007”.

Com 57 minutos, “Dancing with the devil ... The art of starting over” é dividido em partes não exatas. Tem um prelúdio de abertura, composto por “Anyone”, a balada de voz e piano que serviu como um grito de desespero e emocionou celebridades durante a performance no Grammy de 2020, que marcou seu retorno aos palcos após a recuperação. Depois, vem a emotiva “Dancing with the devil” e “I.C.U. (Madison’s lullabye)”, que retrata o momento em que Demi acordou completamente cega na UTI, após lutar entre a vida e a morte, e foi incapaz de reconhecer a voz de Madison, sua irmã que cuidava dela no hospital.

Então, um corte, e a cantora anuncia: “Eu estava cega/ Mas agora eu vejo/ Deixe-me te levar numa jornada/ Uma que tira a pele do meu passado/ E personifica a pessoa que sou hoje/ Esta é a arte de recomeçar”.

As histórias que Demi conta a partir de então podem não ser novidade para quem assistiu aos quatro episódios da série documental. Sua pansexualidade e a descrença na monogamia são divertidamente detalhadas no dream pop colorido de “The kind of lover I am”; os distúrbios alimentares, narrados no pop de guitarra “The way you don’t look at me” e na dançante “Melon cake”; sua quase sobriedade, que rendeu um puxão de orelha de Elton John na série, é batizada de “California sober”, na qual garante que a história não vai se repetir, mas que “não é preto ou branco, são todas as cores”.

Tudo isso estava contado em primeira pessoa em “Dancing with the devil”, mas não deixa de ser notável a forma criativa e convincente com que ela transformou essas histórias em grandes canções pop, desembruteceu dramas pesados através de versos nada metafóricos, fazendo do ouvinte seu confidente e entregando o que os fãs buscam saber da artista que admiram. Demi Lovato é a estrela pop que sobreviveu, e quer convencer os demais de que está pronta para novos capítulos.

Para tal, como num bom disco pop dos nossos tempos que atira para diferentes sonoridades, Demi contou com a ajuda de um sem número de produtores e compositores que poliram um álbum excessivamente extenso. Notavelmente, além de Demi, sempre há uma outra compositora mulher nos créditos. No campo dos feats., ela também priorizou as colegas, Ariana Grande (com quem faz diálogo esperto em “Met him last night”), Noah Cyrus (“Easy”) e a rapper Saweetie (“My girlfriends are my boyfriend”). A única voz masculina é a do emergente cantor indie australiano Sam Fischer, em “What other people say”.

Ao menos neste disco, Demi deixa claro que entende a segunda chance que a vida lhe deu, e inicia o novo capítulo com um disco à altura de sua figura, girando de vez a chave da ex-estrela-Disney-que-passou-por-poucas-e-boas e abraçando seu talento de cantar histórias.

Cotação: bom.