Sobrevivientes de Hiroshima descrevem suas "cenas do inferno" para o Papa

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Papa Francisco se reune com sobreviventes do ataque atômico de 1945, em Hiroshima, em 24 de novembro 2019

Os sobreviventes do primeiro ataque nuclear da história, em 6 de agosto de 1945, em Hiroshima, descreveram neste domingo as "cenas do inferno" que haviam testemunhado diante do papa Francisco, que veio ao Japão para pregar o desarmamento nuclear.

Yoshiko Kajimoto era um estudante de 14 anos, a 2,3 km do hipocentro (o ponto zero da explosão), trabalhando ao amanhecer em uma fábrica de motores de aeronaves, quando a bomba caiu sobre Hiroshima, às 08H15. Ele viu uma luz azul através da janela, depois a escuridão na fábrica destruída e depois desmaiou.

Em meio a um cenário de desolação que recupera a consciência, numa noite em plena luz do dia e "um cheiro de peixe podre".

"Comecei a andar e vi pessoas andando ao meu lado como fantasmas, pessoas cujo corpo todo estava tão queimado que eu não conseguia distinguir entre homens e mulheres. Com cabelos desarrumados, rosto inchado que parecia ter o dobro do tamanho normal e lábios pendurados, levavam nas pedaços de pele queimada. Ninguém neste mundo pode imaginar uma cena tão infernal ", disse ao papa.

"Nos dias seguintes a fumaça branca reinava em todas partes. Hiroshima havia se transformado num crematório". Cerca de 140 mil pessoas morreram no ato e nos meses seguintes.

Felizmente, a adolescente encontrará seu pai que a procurou incansavelmente por três dias, mas um ano e meio depois vomita sangue e morre, uma consequência dos efeitos da radiação. Sua mãe terá que suportar a "doença da bomba atômica" por 20 anos e até sua morte prematura.

Sem a maioria de seus amigos, que morreram devido aos efeitos das armas nucleares, Yoshiko Kajimoto sofre de leucemia e câncer, que lhe custou a remoção de dois terços do estômago.

"Estou trabalhando duro para testemunhar que não devemos usar essas bombas atômicas aterrorizantes ou permitir que alguém sofra tais sofrimentos", explicou ao pontífice.

Já Koji Hosokawa, que tinha 17 anos em 1945 e estava a 1,3 km do hipocentro, não teve como comparecer à cerimônia. Em sua mensagem lida diante do Papa, ele se referia aos sofrimentos físicos de pessoas que como ele sobreviveram e também aos "preconceitos" que os isolam.

"Acho que todos deveriam estar cientes de que bombas atômicas foram lançadas não em Hiroshima e Nagasaki, mas em toda a humanidade", escreveu este sobrevivente.

No início deste domingo, Francisco viajou para Nagasaki, atingida por uma segunda bomba nuclear americana três dias após Hiroshima. Lá, ele também conheceu os "Hibakusha", os sobreviventes da esplosão, e mencionou o "horror indescritível" vivenciado pelas vítimas.