Sofrência máxima

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GOIÂNIA — Marília Mendonça foi, indiscutivelmente, a cantora mais popular de sua geração, lotava estádios, batia recorde de lives. Mas para muitos de seus fãs, que nunca foram a um show seu, o velório da cantora morta aos 26 anos foi a única oportunidade de estar diante da artista mais importante do país.

No ginásio, o público não tinha padrão específico: era o Brasil, com suas desigualdades e diferenças explícitas, de crianças a idosos, de grupos de amigos e admiradores solitários, de pessoas da vizinhança a outros que viajaram horas para a despedida. O coração partido dessa vez não por um pé na bunda ou um chifre, situações tão retratadas nas canções de Marília, mas pela partida precoce da mulher forte que abalou as estruturas da Música Popular Brasileira.

Durante as duas horas de peregrinação em uma fila com uma multidão com faixas e bonés na cabeça, copos decorados com a logo de Marília Mendonça ou de seu projeto Patroas, o trajeto até a entrada do ginásio foi coroado pelos sucessos da sertaneja. Só as lágrimas e a força acima do normal com que os fãs cantavam a estrofe "ninguém vai sofrer sozinho, todo mundo vai sofrer" de um dos maiores sucessos da cantora denunciavam que, diferentemente de tantas outras ocasiões, Marília reuniu seu público para chorar por ela e não com ela.

A algazarra do lado de fora fica, de repente, muda dentro da arena. Em fila, os fãs acostumados a acompanhar suas lives por horas a fio tiveram poucos segundos para se despedir, em uma passagem rápida para materializar a tragédia em que poucos acreditavam até ver Marília diante de si. Muitos admiradores com dificuldade em completar o caminho até a saída eram amparados pela produção da cantora. A brutalidade de sua morte, no auge da carreira, pesava o ambiente.

Ao redor da família, amigos de longa data de Marília e outros ícones da música tentavam conter o pasmo de ver partir uma das mais brilhantes de seu tempo.

A tônica da dor era expressa por cada um à sua maneira, também na fila dos fãs. Nos olhos tristes de Sophia, que aos 6 anos de idade descobriu a face mais dolorosa da vida, ou no desconsolo desesperado de Talita, que aos 18 lamentava não ter tido dinheiro para ir a um show da cantora, Marília mais uma vez levou os brasileiros à flor da pele.

Ariane, de 48, decidiu ir atrás do sonho de cantar. Brenda, Maria Rita e Sabrina brindaram com uma cerveja gelada, porque "por ela não poderia ser diferente". Liz se enrolou na bandeira LGBTQIA+ e colocou um boné com o nome da cantora na cabeça. Paula, sem palavras, só quis cantar bem alto. Enedelson pegou carona e chegou à capital goiana para entregar pessoalmente uma rosa. Matheus chorou, muito.

Sob um sol de muitos graus, no coração do país, o povo que a levou ao topo mostrou mais uma vez a potência da voz grave que se não uniu o Brasil chegou muito perto disso.

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