Som até de madrugada e aglomeração: moradores da Barra e dos arredores denunciam festas irregulares

O Globo
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RIO — O Rio vive uma nova alta de casos de coronavírus, mas muita gente parece não se preocupar. Moradores de diferentes bairros denunciam casas e boates que andam promovendo aglomerações. Outro problema é a perturbação do sossego, com som alto a qualquer hora. Por medo, a maior parte prefere não se identificar, devido à suspeita de participação de criminosos na organização de alguns eventos.

No Recreio, as queixas recaem sobre a Boate Zero 1, na Rua Guilherme Almeida, onde as festas começam às quartas-feiras e vão até domingo, com música alta muitas vezes por toda a madrugada. Alguns contam já ter denunciado a situação ligando para a central 1746 da prefeitura, e para o 190, da polícia, além de fazer registro na 42ª DP (Recreio).

— Sábado é o pior dia, porque dou plantão domingo, saio às 6h de casa, e a bagunça ainda está acontecendo, com todo mundo sem máscara — conta um médico. — Faço meu isolamento acústico, mas é sempre uma noite maldormida. Tive até de transferir o quarto do meu filho, bebê, para os fundos.

Presidente da Associação de Moradores do Recreio, Simone Kopezynski explica que os moradores podem fazer denúncias pelo e-mail amor.amrecreio@yahoo.com.br ou pela página da entidade no Facebook, para que ela as encaminhe aos órgãos responsáveis:

— Nós, moradores, passamos por velhos chatos que perturbam os empreendedores que querem gerar emprego, mas não é isso. Todo mundo gosta de se divertir e ouvir música, mas as pessoas têm direito de tranquilidade em casa. Muitos desses estabelecimentos têm alvarás permitindo som, mas essas licenças vedam o incômodo à vizinhança. E como eles podem não incomodar? Fazendo tratamento acústico.

No Joá, moradores dizem que um imóvel que deveria ter apenas uso residencial, na Rua Professor Pantoja Leite, é alugado pelo menos três vezes por semana, quando os vizinhos sofrem com o som alto e o vozerio.

— Tento dormir, mas a sensação é de que estou dentro das festas, que não têm hora para começar nem terminar. Muitas vezes, às 10h já tem som de pagode, funk ou rave atrapalhando quem está estudando e trabalhando de casa. Já abri mais de 500 chamados na prefeitura e na PM. A cada dois dias, registro uma ocorrência na 16ª DP (Barra) — diz um vizinho.

A queixa se repete na Ilha da Gigoia, onde raves atormentam os moradores com mais de 12 horas seguidas de música alta. O próximo evento vem sendo anunciado para o dia 19, mas o flyer não revela o local, que, segundo relatos, seria de um lugar conhecido como Mansão do Japonês. Um repórter do GLOBO-Barra ligou para o número anunciado e foi instruído a apenas avisar ao barqueiro que iria para o evento.

— As festas ficam lotadas, com mais de 300 pessoas sem máscara. Escuta-se a batida eletrônica até a metade da ilha. É enlouquecedor, a casa chega a estremecer — diz uma moradora.

Na Ilha de Guaratiba, os alvos das denúncias são os espaços Verde Vila e Hode Luã. Segundo moradores, os eventos chegam a reunir mais de mil pessoas e podem durar todo o fim de semana.

— Em geral, as raves acontecem uma ou duas vezes no mês. Em plena pandemia, somos obrigados a sair de casa, porque ficamos irritados— conta uma moradora.

Questionada sobre como atua para coibir o desrespeito, a Polícia Militar se limitou a dizer que tem desenvolvido um trabalho de conscientização desde o início da pandemia e que apoia os órgãos fiscalizadores.

A Subsecretaria de Licenciamento, Fiscalização e Controle Urbano informa que a Boate Zero 1 tem alvará, assim como o espaço Hode Luã e a casa da Rua Professor Pantoja Leite, no Joá, mas estes dois últimos não podem abrigar baladas. Afirma que os locais vêm sendo mantidos sob fiscalização em resposta a denúncias. O órgão não informou sobre o sítio Verde Vila e a Mansão do Japonês.

O Instituto municipal de Vigilância Sanitária (Ivisa) explica que recebeu ofício do Ministério Público solicitando providências quanto à questão das aglomerações no Hode Luã. E que o Sítio Verde Vila já foi alvo de fiscalização e multado por falta de asseio. Quanto aos demais estabelecimentos citados, diz que vai incluí-los na rota de vistoria.

O Hode Luã, por meio de sua assessoria, garante que as reclamações de barulho e aglomeração não procedem. Afirma que a casa estava fechada desde março e abriu no último fim de semana, com 70 pessoas, para day use, encerrado às 17h.

A Guarda Municipal, por sua vez, informa que realiza ações de patrulhamento e fiscalização sanitária diariamente. A Polícia Civil nega que tenha havido registro na 42ª DP relatando perturbação de sossego na Boate Zero 1 e e não respondeu sobre os outros casos citados.

O GLOBO-Barra não conseguiu contato com a Mansão do Japonês e com a administração da casa no Joá. Já a Boate Zero 1 e o Sítio Verde Vila não responderam até o fechamento desta matéria.