'Sommeliers' usam sites 'paralelos' para encontrar vacinas em SP: "Janssen é prioridade"

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BRAZIL - 2021/05/06: In this photo illustration a hand holding a medical syringe is seen with main coronavirus (COVID-19) vaccine logos displayed on a screen in the background. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Pedro, que preferiu não se identificar e, por isso, teve o nome alterado, é um “sommelier de vacinas" (Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
  • 'Sommeliers' usam sites 'paralelos' para encontrar vacinas em SP: "A Janssen é prioridade"

  • Autoridades de Saúde recomendam que a população receba o imunizante disponível, pois a prática pode atrapalhar o cronograma de vacinação

  • Dono do site diz que "não permitir a pessoa saber onde tem Janssen, por exemplo, seria uma censura" e que "acesso à informação é um pilar da democracia"

Na manhã da última quinta-feira (22), o engenheiro Pedro, 31 anos, chegou ao posto de imunização do Memorial da América Latina, na Zona Oeste de São Paulo, para verificar, na fila de espera da vacinação contra a Covid-19, “se tinha CoronaVac”, como ele mesmo diz.

Pedro, que preferiu não se identificar e, por isso, teve o nome alterado, é um “sommelier de vacinas”. O nome é popularmente dado àqueles que perguntam qual é o fabricante da vacina e acabam escolhendo o favorito antes de se imunizar.

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Antes de ir ao Memorial da América Latina, o engenheiro foi até o estádio do Palmeiras, um dos pontos de imunização mais próximos de sua casa no bairro nobre de Perdizes, também na Zona Oeste. Porém, no local, “só tinha AstraZeneca”.

“No [estádio do] Palmeiras era AstraZeneca. Fui de bicicleta até o memorial, vi que tinha CoronaVac, peguei o carro em casa e fui lá”, conta Pedro, após ser imunizado contra a Covid-19 com a vacina do Instituto Butantan.

Mas não era a CoronaVac a preferida da lista do engenheiro. Desde que soube que a vacinação contra o coronavírus na cidade de São Paulo contemplaria sua idade no último dia 22, Pedro queria ser imunizado com a Janssen, a vacina de dose única.

"A Janssen era prioridade. Qualquer pessoa desse mundo está querendo essa por ser uma dose só e eu não sei se vai ter vacina para a segunda dose daqui alguns meses", diz ele ao Yahoo! Notícias.

SAO PAULO, BRAZIL - MARCH 15: Cars queue at a drive-thru vaccination post in the Memorial da America Latina on March 15, 2021 in Sao Paulo, Brazil. The state of Sao Paulo started to immunize citizens aged between 75 and 76 years old. Health authorities announced they expect to vaccinate 420,000 people within this phase and should reach the milestone of 4 million vaccinated people today. Brazil has over 11.400,000 confirmed positive cases of coronavirus and has over 278,000 deaths. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
Desde que soube que a vacinação contra o coronavírus na cidade de São Paulo contemplaria sua idade no último dia 22, Pedro queria ser imunizado com a Janssen, a vacina de dose única (Foto: Alexandre Schneider/Getty Images)

Embora ele só tenha "encontrado" a CoronaVac, Pedro conta que ficou feliz com a imunização com uma vacina que irá imunizá-lo mais rápido.

"Daqui a pouco mais de duas semanas já vou garantir minha imunização completa de forma mais ligeira. Ou seja, vou ser imunizado mais rápido, que com outra não seria assim", conta ele, que irá tomar a segunda dose em agosto.

Autoridades de Saúde recomendam que a população receba o imunizante disponível, pois a prática pode atrapalhar o cronograma de vacinação.

Site não oficial mostra vacinas disponíveis

A capital paulista recebeu 114 mil doses da Janssen no fim de junho, quantidade muito menor do que a AstraZeneca e CoronaVac, por exemplo, principais imunizantes do Plano Nacional das Imunizações (PNI). Mesmo assim, Pedro ainda tinha esperanças de ser imunizado com a vacina de um só dose.

Na semana passada, pelo WhatsApp, o engenheiro recebeu o link de do site não oficial Onde Tem Vacina, que promete mostrar quais imunizantes estão sendo aplicados nos postos de vacinação por todo o Brasil.

A ferramenta funciona de maneira colaborativa e assim como o aplicativo voltado para trânsito Waze, por exemplo, os usuários podem dizer com qual imunizante foi vacinado e o sistema dos programas disponibiliza a informação no site. Os dados fornecidos não passam por qualquer filtro.

Na quarta-feira (21), de acordo com o site, seis pessoas informaram que foram imunizadas no posto do Memorial da América Latina. Segundo o site, quatro foram CoronaVac, duas AstraZeneca e uma Pfizer.

Sistema aceita informações falsas

Acontece que os dados da ferramenta, que foi criada inicialmente para gerar informações sobre a vacinação no país, são imprecisos e podem levar à desinformação. Isso porque qualquer pessoa com acesso ao sistema pode fornecer informações, inclusive falsas.

Para testar o programa, a reportagem do Yahoo informou dados fictícios, se passando por uma pessoa que tomou uma vacina Janssen no posto do Memorial da América Latina. Sem qualquer cadastro, ainda fez um comentário: “Tomei a Janssen!”.

O sistema contabilizou as informações e, em instantes, passou a registrar que o estabelecimento também aplicava a vacina Janssen naquele dia.

Na manhã da última quinta, no entanto, Pedro consultou o site antes de sair de casa. Segundo ele, havia informações conflitantes e por isso preferiu conferir com os próprios olhos.

“Do Memorial da América Latina estava certo no site [estava informando que a maioria era CoronaVac], mas no do [estádio do] Palmeiras estava com informações conflitantes”, conta.

Na manhã da última quinta, no entanto, Pedro consultou o site antes de sair de casa. Segundo ele, havia informações conflitantes e por isso preferiu conferir com os próprios olhos (Foto: Reprodução)
Na manhã da última quinta, no entanto, Pedro consultou o site antes de sair de casa. Segundo ele, havia informações conflitantes e por isso preferiu conferir com os próprios olhos (Foto: Reprodução)

Informação sobre aplicação e debates acalorados

A reportagem também acompanhou as pessoas que lá passam o dia tratando de vacinas e também discutindo sobre a qualidade das informações.

No fórum de comentários, espaço destinado para quem informa qual vacina está sendo aplicada e onde a tomou, há mensagens convocando as pessoas para determinado local pois “chegou a Janssen”.

No entanto, as publicações com mais engajamento são aquelas que os usuários desconfiam do sistema com medo de serem enganados: “Sejam sinceros, é um assunto muito sério”, disse um “sommelier”.

Procurada, a prefeitura de São Paulo informou que o aplicativo "não pertence à gestão da Prefeitura de São Paulo" e que "não há necessidade nem possibilidade de escolher um imunizante específico".

"O e-saúdeSP é a plataforma oficial, e está disponível nas lojas de aplicativos.Cabe ressaltar que todas as vacinas disponíveis foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Elas são eficazes e seguras contra a Covid-19".

A atitude de alguns "sommeliers de vacina" é rechaçada por prefeituras de cidades brasileiras, que tentam combater a prática e inibir os praticantes. No estado de São Paulo, por exemplo, 437 pessoas assinaram o termo de recusa da vacina contra o coronavírus nas oito cidades que adotaram a medida.

Com o novo protocolo, pessoas que chegam aos pontos de vacinação nesses municípios e não querem receber a vacina disponível por conta da marca, devem assinar o documento e vão para o fim da fila da imunização.

FILE - In this July 22, 2021, file photo, a health care worker fills a syringe with the Pfizer COVID-19 vaccine at the American Museum of Natural History in New York. About 100 of the more than 600 U.S. athletes descending on Tokyo for the Olympics are unvaccinated, the U.S. Olympic and Paralympic Committee's medical chief said hours before Opening Ceremony on Friday, July 23. (AP Photo/Mary Altaffer, File)
Sobre a fragilidade do sistema em filtrar, Bonfim diz que a equipe — ele e mais dois amigos — monitora os comentários com mais "denúncias" para, posteriormente, remover a publicação caso julguem necessário (Foto: AP Photo/Mary Altaffer, File)

Acesso à informação é pilar da democracia, diz dono do site

O empresário e engenheiro de computação Marcos Bonfim, 52 anos, morador da cidade do Rio de Janeiro, é o criador do programa Onde Tem Vacina. Em entrevista ao Yahoo, ele diz que o site foi criado em março deste ano e já registrou cerca de 650 mil acessos, sendo que 400 mil deles apenas nas últimas três semanas, quando a vacinação chegou na faixa etária dos 30 e poucos anos.

"Acesso à informação é um pilar da democracia. Não permitir a pessoa saber onde tem Janssen, por exemplo, seria uma censura. A razão pela qual ela está buscando a vacina eu não sei, mas eu tenho que dizer qual é o imunizante que o posto recebeu", avalia.

Sobre a fragilidade do sistema em filtrar as informações, Bonfim diz que a equipe — ele e mais dois amigos — criaram um sistema que remove automaticamente comentários após um determinado número de denúncias. “Nos últimos 10 dias, tivemos 25 mil comentários, com like e dislike”, afirma.

Base de dados do SUS

Sem ligações com partidos políticos ou financiamento, de acordo com ele, a ideia surgiu quando Bonfim assistiu a uma reportagem que mostrou uma senhora indo a um posto de saúde para saber qual vacina estavam aplicando.

"Lembro que não tinha vacina nesse caso e ela ia procurar em outros lugares. Será que não tem formas de resolver isso com tecnologia, eu pensei. Fui pesquisar e tem dados do governo que são abertos, idealizei o negócio, registrei o domínio e coloquei no ar", explica ele, que garante que a base da dados é pública e extraída do Sistema Único de Saúde (SUS) com informações do Ministério da Saúde.

Para consultar a vacina, basta acessar a página na internet e inserir a região desejada ou o CEP de onde a pessoa está. A pessoa receberá informações de quais são os postos próximos e se estão vacinando.

"Não são fontes verificadas"

Depois de ter contato com o site Onde Tem Vacina, Pedro ainda foi convidado para participar de um grupo de aplicativo de mensagens com outros "sommeliers de vacinas". De acordo com reportagem o UOL, desta sexta-feira (23), participantes de um grupo público no Telegram com cerca de 3.000 moradores de São Paulo buscam diariamente sua "vacina preferida" contra a Covid-19.

"Esses grupos de Telegram aí, minha tia bolsonarista queria me colocar para eu tomar outra que não fosse CoronaVac", afirma Pedro. "[Só escolhi tomar a vacina] porque eu viajo muito a trabalho e é importante que eu esteja completamente imunizado pra ter sossego". 

Em um áudio enviada por ela, que a reportagem teve acesso, ela lista pelo menos três pessoas que tomaram a vacina "dessa forma", referindo-se às coordenadas dos imunizantes informadas no grupo. 

"Não são fontes verificadas e se quiserem inventar e colocar cinco entradas de Janssen na UBS do lado de casa e criando uma fila enorme pode acontecer. Não tenho confiança enorme nisso, porque a gente sabe que não é bem assim".

Vacinas aprovadas no Brasil

No Brasil, quatro vacinas foram liberadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para serem aplicadas.

  • AstraZeneca/Fiocruz

  • Pfizer/BioNTech

  • Coronavac/Butantan

  • Janssen/Johnson & Johnson

Destas, apenas a Janssen é dose única. A Coronavac necessita de um intervalo de 14 a 28 dias entre a primeira e a segunda dose. A AstraZeneca e Pfizer/BioNTech têm intervalo de 12 semanas entre a primeira e a segunda dose, ou seja, três meses.

O governo até estudou a proposta de reduzir o intervalo entre as doses da Pfizer para 21 dias, mas decidiu nesta semana manter os três meses.

Procurado para comentar sobre o programa e os "sommeliers de vacinas", o Ministério da Saúde diz que o aplicativo citado não é um canal oficial da pasta e que a responsabilidade pelo envio de doses aos municípios é da gestão estadual.

"É importante esclarecer que as informações oficiais do Ministério da Saúde são publicadas nos canais oficiais e no portal da pasta. Cabe ressaltar também que a responsabilidade pelo envio de doses aos municípios é da gestão estadual".

*Erramos: Anteriormente, a matéria dizia que a equipe monitora os comentários com mais denúncias para, posteriormente, remover a publicação. Mas o próprio sistema remove os comentários com um número determinado de denúncias automaticamente.

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