'Somos invisíveis aos olhos da sociedade brasileira', diz líder indígena Sonia Guajajara

Primeira liderança indígena a figurar na lista da revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, Sonia Guajajara chega hoje aos Estados Unidos para receber a premiação disposta a denunciar em seu discurso e nos compromissos com autoridades americanas o que chama de “genocídio dos povos originários” no governo do presidente Jair Bolsonaro. Selecionada na categoria “pioneiros” em 2022, ao lado do pesquisador Tulio Oliveira, outro brasileiro a receber o prêmio, Sonia tem agenda na Casa Branca e no Senado, em Washington, e na quarta-feira segue para Nova York para a cerimônia de gala.

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Antes de embarcar, Sonia falou ao GLOBO sobre a surpresa e a importância da premiação, da necessidade de se “reflorestar mentes” para a grave crise climática que vive o planeta e chamou a atenção para o aumento do racismo estrutural vivido por negros, indígenas e moradores de ruas em todo o país. “Nós, povos indígenas, ainda somos invisíveis aos olhos da sociedade, era para ser natural a nossa presença”.

---- O brasileiro precisa entender que o indígena, seu irmão, não é inferior, não é subalterno, não é de uma cultura atrasada, na verdade são somente culturas diferentes, dentro do mesmo caldo imenso que é o nosso país --- afirma.

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A coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) ainda relaciona os assassinatos de lideranças guajajaras, como a de Paulo Paulino, em 2019, no Maranhão, à sua maneira combativa de enfrentar os invasores e de combater a violência contra os indígenas na luta pelo território de seu povo. E diz se preocupar com a sua segurança.

Em seu discurso na cerimônia do prêmio, ela vai chamar a atenção ainda sobre a importância da demarcação da terra indígena, do processo do marco temporal, suspenso no Supremo Tribunal Federal (STF), e de sua relação com a crise climática.

--- Sem a demarcação dos territórios não há solução para crise climática – defende.

Confira os trechos da entrevista:

Qual a importância de uma liderança indígena receber essa premiação?

Vivemos um momento muito atormentado para os povos indígenas, delicado, onde tudo o que a gente construiu foi desmontado sob uma articulação institucional para retirar toda essa diversidade de povos no Brasil, de cultura, de território. A declaração de Bolsonaro ainda em campanha de que não iria demarcar nenhum território indígena, isso já sinalizou para os seus aliados e seguidores que seria permitido a invasão, que seria permitido ataque, essa exploração desenfreada, porque foi isso que isso se sucedeu. Logo depois que ele assumiu isso tudo o que era ameaça se transformou em política pública, e essa incitação ao ódio e à violência se concretizou em ações em todas as partes do Brasil, aumento dos ataques, dos conflitos, da violência e do racismo.

A gente fica por um lado assustado pelas atitudes ameaçadoras do governo, mas também com muita força porque a gente nunca deixou de lutar pela nossa vida. Veja aí tudo o que passamos: colonialismo, ditadura, e agora enfrentando o fascismo, mas estamos de pé. Então, uma premiação dessas como da Time para uma liderança indígena nos encoraja muito mais, encoraja, impulsiona a nossa luta porque só mostra que nós estamos fazendo a coisa certa. E nesses quatro anos a gente lutou contra Bolsonaro, o retrocesso, o genocídio indígena, que agora está totalmente escancarado, autorizado. Então isso mostra que devemos seguir em nossa luta constante. Porque o que a gente faz é isso, uma luta constante pela vida.

Qual vai ser o tom de seu discurso na premiação?

Olha, eu pretendo falar de genocídio porque isso não é uma mentira. Quando a gente teve mais de 1.100 indígenas mortos pela Covid e certamente o dobro que morreu por outras doenças que também igualmente não foram assistidas, essa negação ao território, desmonte da política ambiental, tudo isso é parte desse genocídio planejado. Então não tem como não falar, eu ainda acrescento o ecocídio, porque tudo o que esse governo vem fazendo com a destruição do meio ambiente, com a destruição de toda a biodiversidade é com certeza ecocídio.

Eu preciso falar do marco temporal, a retirada agora mais uma vez do tema da pauta do Supremo, terceira vez em menos de um ano, e falar um pouco o que representa isso para nós, todo mundo ansioso por esse resultado, porque é muita insegurança jurídica, então precisamos dar um basta nisso, a começar por essa decisão do Supremo, que é o que vai orientar o futuro da demarcação da terra indígena no Brasil.

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Vou falar dessa urgência de reconhecer os territórios indígenas como bens da humanidade, como bens para o futuro do planeta, vou falar da crise climática, mas sem a demarcação do território não há solução para crise climática. E vou convocar as pessoas para “reflorestar mentes”, essa conexão com a mãe Terra, com a ancestralidade, a proteção das florestas, da biodiversidade, que é responsabilidade de todo mundo. Acho que o mundo inteiro tem que olhar para emergência climática, mas entendendo também que é importante proteger os direitos culturais e outros modos de vida das pessoas.

A senhora vai se reunir com líderes globais para tratar de incentivos e soluções a favor de um mundo melhor. O que é um mundo melhor para os povos indígenas?

Um mundo melhor para nós é o território demarcado, protegido, as condições para se ter uma gestão autônoma desse território, política adequada para atender à população, não só indígenas, mas todos aqueles que não têm atenção, pobres da periferia, população LGBTQIA+. Depois de vir morar em São Paulo, e de ver aquelas pessoas, famílias morando na rua, aquilo é inaceitável, porque ali são pessoas que estão totalmente invisíveis aos olhos do Estado, aos olhos da sociedade, que olha aquelas pessoas somente como feias, inconsequentes, problemas da cidade, e não se pensa políticas públicas para poder cuidar, dar dignidade, moradia para aquelas pessoas, sem nenhum tipo de expectativa na vida, e daí é possível a gente olhar o todo, o quanto esse mundo está desumano, e o quanto precisa ainda de solidariedade. Reflorestar a mente das pessoas é muito urgente. Um mundo melhor é a igualdade entre as pessoas, direito à vida digna e para nós, indígenas, se for possível nosso território demarcado e protegido.

Como os indígenas se sentem a um olhar de indiferença?

Nós povos indígenas ainda somos invisíveis aos olhos da sociedade. E quando vistos a nossa presença ainda causa muita estranheza em determinados lugares. São dois olhares: aquele que acha que você está ali na cidade, então você não é mais indígena, deixou de ser; e aqueles que acham que tem que sair mesmo da aldeia, que não precisa estar em território, tem que estar na cidade, é natural, como uma evolução. A nossa presença tinha que ser natural, concordo, mas sendo entendida como povos indígenas, como pessoas que vivem modos diferentes, mas que não é inferior, que não é subalterno, que não é de uma cultura atrasada. Porque as pessoas ainda acham que ficando lá na aldeia é cultura atrasada, e na verdade são somente culturas diferentes, e já se passaram tantos anos e ainda não nos aceitaram como indígenas dentro do nosso país, local este que somos originários, veja você....não respeitam.

Estranheza ou preconceito?

As pessoas estranham. Agora com a ideia de aldear a política, a gente fala com as pessoas e vemos que elas não acreditam de verdade que somos capazes de mudar a política. É exatamente o racismo estrutural, que nesse governo ele está institucionalizado. E para gente poder quebrar isso eu vejo duas soluções: a escola, que tem que mudar gerações, adotar práticas que sejam cumpridas em prol das minorias; e a outra é a participação mesmo na política dos indígenas como próprios representantes e não apenas como representados. A presença dos indígenas dentro da institucionalidade, na estrutura do Estado, consegue incidir numa mudança do pensamento da sociedade como um todo e também na própria construção dessas políticas.

O que é mais urgente hoje para os povos indígenas do Brasil?

Bolsonaro nunca mais. A gente já declarou o último ano do governo Bolsonaro. Não é possível que isso se repita. Importante retomar a demarcação dos territórios indígenas. É importante retomar os espaços de controle e participação social na construção de políticas públicas para reconstruir tudo o que foi perdido nesse governo. É importante ter indígena participando diretamente do governo, não só queremos um Ministério, não podemos mais viver segregado num mesmo país. Importante a criação de um ministério indígena, queremos discutir todas as questões possíveis dentro de nossas necessidades da política indigenista.

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Saúde, educação , segurança, meio ambiente, cultura, para aglutinar todas as nossas propostas. Nós queremos também participar da gestão do governo, indígenas para levarem a nossa voz e discutirem outras questões, de toda a sociedade. E queremos estar ativamente dentro do Ministério do Meio Ambiente, da Funai, que nos atenda de forma satisfatória, pois depois de Bolsonaro, a Funai precisa ser conduzida pelos próprios indígenas e na Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) também...não só indígenas, tem que estar ali pela causa, para propostas coletivas.

Lideranças do seu povo guajajara foram assassinadas no Maranhão. Há alguma relação com a sua militância, temor pela sua segurança?

A morte do Paulo Paulino foi o maior símbolo dessa violência que se instalou nesse governo. Eu me lembro bem que estávamos já nessa jornada de nem uma gota de sangue a mais de indígenas, na Europa, justamente para denunciar o aumento da violência aqui no Brasil, e aí chega a notícia do assassinato do Paulo Paulino dentro do território indígena. Isso teve uma repercussão muito grande entre todos os povos e no mundo todo. A partir dali se sucedeu uma série de assassinatos, mais três na Arariboia (terra indígena no Maranhão), uma perseguição sistemática aos guajajara, por conta da minha liderança e do meu enfrentamento ao governo, tenho certeza. Depois foram mais dois na Arariboia, e mais dois na terra indígena Cana Brava, e logo na sequência a morte do Ari Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia. Ou seja, ao invés de diminuir, aumento ainda mais.

Então, eu nunca fui muito de me preocupar comigo, sabe? Sempre pensei assim, ah não, isso é bobagem, isso jamais vai acontecer, mas eu confesso que nos últimos anos eu tenho me preocupado, pois essa turma que apoia os discursos do governo começou a me perseguir em posts nas redes sociais, inclusive um dos filhos do presidente.

Como recebeu a notícia da premiação?

Confesso que foi uma das notícias que mais me surpreendeu em toda a minha vida. Eu não sou de ficar surpresa com muita coisa, não, mas essa notícia me pegou de jeito. Porque a gente faz a nossa luta de uma forma muito do dia a dia, né? Coisas que a gente faz naturalmente, sem nem esperar prêmios, capas ou qualquer que seja o reconhecimento. Mas um reconhecimento como esse com certeza é resultado de todas as ações coletivas que a gente vem realizando.

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Eu, sozinha, nunca alcançaria um mérito como esse. Então, eu atribuo à forma como a gente organiza a luta pelos direitos indígenas, essa relação com os nossos territórios, com as nossas bases e também toda essa articulação que a gente faz com outros setores da sociedade, outros movimentos sociais, outras classes da sociedade, que acabaram também se aproximando e aderindo à causa indígena.

Eu estava na casa do Suplicy (ex-senador Eduardo Suplicy), em São Paulo, num café da manhã com ele, e a caminho de uma entrevista na PUC, e daí um assessor chegou e falou assim, minha irmã chegou um convite para você no email...está dizendo que você está entre as 100 personalidades da revista Time...Eita, eu disse. Isso é brincadeira... não pode ser, mandaram errado.

E daí entramos em contato com a organização e ali na hora eu dei um pulo, um salto, mas eu ainda não tinha acreditado. Pensei assim, só vou acreditar quando isso for publicado, mandou só pra mim, deve ser pegadinha...daí disseram que era para esperar para ver a publicação e daí saiu no dia 23 de maio, falamos com a editora da revista que nos colocou em contato com os organizadores e já falamos sobre a cerimônia de gala . No dia que saiu eu já estava no Maranhão, com Covid. Eu ia para para os festejos de 30 anos de demarcação do território Yanomami, mas quando cheguei em Belém, eu testei lá e deu positivo, daí fui para o Maranhão ficar em casa de mãe.

Mas fiquei deitada, não consegui ter muito bem o resguardo da Covid, porque tive que atender muitas pessoas, imprensa, não tive nem dez minutos de folga. Mas ainda bem que foram sintomas leves, garganta inflamada, não tive febre, nada. Quando negativou voltei para São Paulo.

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