Somos todos órfãos de Dona Hermínia

·2 minuto de leitura

A morte do ator Paulo Gustavo, por complicações decorrentes da Covid-19, provocou uma comoção uníssona no país, que nos remete às perdas de outros heróis nacionais — lugar usualmente ocupado por artistas e esportistas, mais raramente por políticos. Para além das diferenças de idade, classe social, gênero, cor da pele, esquerda ou direita, seu desaparecimento parece ter feito de todos nós órfãos de Dona Hermínia, a mãe mais amada do Brasil.

Aprendemos com Freud que, na vida cultural, a arte tem a função de nos religar com o sentido mais amplo da existência, permitindo-nos transcender as couraças narcísicas responsáveis pela excessiva atenção que damos aos nossos interesses individuais, sempre egoístas. E dentre as artes, a comédia, e o humor em particular, porta o dom de ser um lubrificante social, uma vez que escancara nossa humanidade zoando de nossas imperfeições. Da troça bem elaborada ninguém escapa.

Com a criação da sua personagem mais célebre, Paulo Gustavo acalentou nossos corações. Podia-se rir dessa mãe desbocada, debochada e superprotetora, que obviamente fracassava em seu projeto de controlar o destino dos filhos. Porém, por meio de Dona Hermínia pudemos reviver a origem de tudo, a relação primária à qual devemos nosso amor próprio e nossa humanidade. Os irmãos sempre rivalizam e repudiam suas diferenças, mas no domingo recordam sua fratria deleitando-se com o almoço preparado pela mesma mãe mítica. Ainda que os tempos tenham mudado e que parte das mulheres tenham se libertado do destino de Dona Hermínia, todos experimentamos uma saudável nostalgia da ternura vivida junto ao colo da mãe.

O Brasil, que já foi identificado com os vícios da pseudocordialidade e do jeitinho que transgredia as fronteiras do público e do privado, hoje é o retrato da fratura provocada pelas segregações e pelos ódios. A morte de Paulo Gustavo nos recorda um tempo em que os mitos contribuíam para o incremento do sentido da fraternidade, e não para a sua dissolução.

*Psicanalista, professor da Universidade de São Paulo e autor de “Ousar rir: humor, criação e psicanálise” (Artes & Ecos)

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos