Sonhar é crime? Luciano, do "BBB 22", foi "condenado" por se espelhar em Beyoncé

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Luciano participa do
Luciano participa do "BBB 22" (Foto: Reprodução/Globo)

Luciano Estevan foi o primeiro eliminado do "BBB 22" com 49,31% dos votos nesta terça-feira (25). A rápida participação no reality show foi marcada pelo desejo de ser famoso. O brother repetiu em alto e bom som, inúmeras vezes, que gostaria de ter fama "nível Beyoncé". A declaração virou piada e incomodou dentro e fora da casa. Após a eliminação, Luciano só tem falado disso nas entrevistas. A sensação é que ele cometeu um crime ao ser sincero e revelar seu desejo. Na primeira oportunidade, o público o condenou.

Para a antropóloga Lucilda Cavalcante Lourenço, pesquisadora de raça, gênero, violência e movimentos políticos culturais, o resultado do paredão reflete bem o que é o Brasil. Um jovem preto e pobre não pode sonhar. Ao disputar uma vaga com uma mulher branca, que teve falas problemáticas e preconceituosas, o sonho de ser famoso ainda pesou mais. Naiara Azevedo recebeu apenas 15,8% dos votos.

"Em um país racista, ele está louco. Como é que um cara que 'não é ninguém' aos olhos do país tem um sonho totalmente discrepante com o que ele é? A gente não sabia como era a recepção das pessoas quando Beyoncé não era Beyoncé. Com certeza teve muitas portas fechadas porque ela também é negra. Não conheço a história dela, mas é provável que tenha sido motivo de piada se um dia falou que seria milionária", reflete a pesquisadora.

O doutor em psicologia Jacob Pinheiro Goldberg acredita que o sonho de Luciano tem a ver com a vontade de finalmente ser visto. De origem humilde, o jovem lavava as roupas dos colegas para conseguir o dinheiro da passagem para frequentar as aulas de balé. "É como se ele nem fosse anônimo, ele não existisse. Quando ele diz que quer ser famoso, ele faz uma revolução: 'eu existo, prestem atenção em mim'. Esse 'quero ser famoso' pode ser sintetizado como 'quero ser eu'", defende o especialista.

Todo mundo quer ser notado

A revolta do público, além do racismo, traz à tona a hipocrisia. "Um dos desesperos da modernidade é o medo de viver de forma anônima e morrer esquecido. As pessoas usam muito a expressão 'gostaria de fazer a diferença' e isso é ser singular. Ninguém quer ser plural. A pessoa quer acontecer. Esse participante tocou em um ponto traumático da sociedade. As pessoas reagem de maneira agressiva porque no fundo esse desejo é praticamente universal. Ele só teve o atrevimento e a coragem de dizer", reflete Goldberg.

O discurso de Luciano, no entanto, poderia ser aceito caso tivesse dentro das expectativas do público. A antropóloga Lucilda acredita que os telespectadores, mesmo sem perceber, já têm um "roteiro pronto" para participantes pretos em reality show. "Ele fugiu do enquadramento que esperam de um jovem negro. Como estamos em um país meritocrático, ele poderia ser bem recebido se falasse de reconhecimento e retorno, até mesmo usando o discurso de 'sou o primeiro a fazer isso na família'. Mas ao falar de fama, é como se ele quisesse dar um passo maior que a perna", justifica.

As dificuldades são muitas

Viver de cultura no Brasil é uma guerra contra as probabilidades: com o início do governo de Jair Messias Bolsonaro (PL), o MinC (Ministério da Cultura) foi extinto em 2019 e seus órgãos foram distribuídos para outros ministérios. Os gastos com a cultura diminuíram consideravelmente, com lentidão em mecanismos essenciais de fomento, como a Lei Rouanet e editais da Ancine, por exemplo. Nesse cenário, é totalmente compreensível que Luciano, artista, esteja desesperado em busca de melhores condições de trabalho.

O sonho de Luciano de conseguir sucesso financeiro para si e sua família reflete a profunda desigualdade racial que perpassa todas as questões estruturais no Brasil, especialmente quando o assunto é emprego e mercado de trabalho. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas pretas são a maioria entre os desempregados no país no quarto trimestre de 2020, período que compreende os meses de outubro a dezembro. Com o avanço da pandemia e da crise econômica no Brasil, o abismo racial no país só aumentou.

Segurança incomodou?

Apesar dos ataques racistas e julgamentos, Luciano incomodava os participantes com seus papos repetitivos. É importante ressaltar que parte do público defendeu sua eliminação por esse motivo. No "Mais Você" desta quarta-feira (26), inclusive, o ex-BBB afirmou que a rejeição dentro da casa aconteceu por causa do seu excesso de segurança.

"Acho que incomodou não pela questão da fama, e sim pelo fato de eu ter certeza do que eu quero. Quando eu disse isso, eu falava olhando no fundo do olho das pessoas. Eu vou ser muito, muito famoso, e daí eu dizia isso e assustava. Eu sou uma pessoa muito bem resolvida com isso, e daí assusta. Eu afastei gente com isso, mas também aproximei. Nas minhas redes sociais eu já inspirei muita gente", disse.

Reviravolta é possível

Mesmo enfrentando piadas e preconceito, Luciano já recebeu o contato de algumas marcas e tem grande chance de dar a volta por cima com seus seguidores que não param de aumentar. O doutor Jacob acredita em um efeito paradoxal nos próximos meses.

"Tá todo mundo fazendo chacota, mas nada nos diz que daqui a um mês ou dois ele pode ser muito famoso só por ter dito que queria ser famoso. Basta lembrar quantos candidatos políticos no Brasil foram eleitos por serem absolutamente risíveis", diz o especialista, ao lembrar que fama, hoje, é monetização.

"Ser famoso virou profissão. A equação está mudando. Quanto menos você se empenha, menos talento, mais chance tem de acontecer. A ideia de celebridade mudou. É célebre por qual feito? Não importa mais. A pessoa é célebre por ser conhecida e sendo famosa ela é festejada", afirma Jacob.

Lucilda também acredita que Luciano pode crescer após o episódio. "Se ele tiver uma equipe boa dá para se reerguer com essa brincadeira. Comecei a ver algumas marcas dispostas a acolher. Acho que ele pode investir nisso", opina.

Luciano já publicou seu primeiro vídeo:

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