Sopão perde carne, cenoura some da marmita e doações de cesta básica diminuem

SÃO PAULO, SP, 10.05.2022 - Sopa é preparada e distribuída pela ONG Sopão com carinho. Inflação dos alimentos prejudica doação de marmitas e cestas básicas. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 10.05.2022 - Sopa é preparada e distribuída pela ONG Sopão com carinho. Inflação dos alimentos prejudica doação de marmitas e cestas básicas. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em situação de rua desde 2020, o mecânico Ricardo C., 22, pede doações para comprar uma caixa de chicletes em uma avenida no centro de São Paulo. "Antes, vendia chocolates com a minha mulher na porta de um terminal de ônibus. Agora, a gente tenta vender alguma coisinha mais barata, para as pessoas conseguirem comprar", diz.

Se a inflação tem se feito sentir na mesa de famílias de diferentes faixa de renda nos últimos meses, ela ganha contornos ainda mais cruéis para quem já tem pouco.

Na quarta-feira (11), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou que a inflação de abril pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) atingiu 12,13% em 12 meses --é o maior patamar desde 2003.

Em um mês, os principais impactos vieram de alimentação e bebidas (2,06%), com destaque para itens que sempre fizeram parte do cotidiano das famílias, como o leite longa vida (alta de 10,31%), a batata-inglesa (18,28%), o tomate (10,18%), o óleo de soja (8,24%), o pão francês (4,52%) e as carnes (1,02%)

Com a alta de preços dos alimentos, as entidades e projetos que trabalham com doações de cestas básicas, sopas e quentinhas têm sido emparedadas: por um lado, a alta de preços faz com que mais famílias busquem doação de comidas; por outro, a inflação tem reduzido o número de doações.

"Antes, a gente conseguia passar a noite e, se pedisse com jeitinho, eles davam três sopas. Agora, é tanta gente pedindo, que não dá para pegar mais de uma", conta a pernambucana A.G., de 27 anos e morando em uma barraca improvisada na região central da cidade.

O mais recente Censo da População em Situação de Rua, divulgado pela prefeitura paulistana em janeiro, apontou um aumento de 230% de moradias improvisadas em vias públicas.

Segundo associações ouvidas pelo jornal Folha de S.Paulo, a procura por doações chegou a dobrar nos últimos meses, na comparação com o fim do ano passado. Ao mesmo tempo, a alta dos preços dos legumes tem levado a um racionamento em itens, como cenoura e tomate.

A carne virou artigo de luxo e agora só aparece no cardápio uma vez por semana. Frango, só de vez em quando.

"Primeiro, as pessoas já não conseguiam mais comprar carne. Depois, não dava mais para comprar ovos. Tudo subiu de preço e quem mais sofre é o mais pobre", diz o rabino Berel Weitman, da Instituição Beneficente Israelita Ten Yad,

Servindo mais de 2 mil refeições por dia, a instituição também sofre com o aumento de custos. "Como ajudamos muitos idosos, a alimentação tem de ser balanceada. No começo da pandemia, as pessoas estavam mais atentas para a importância de doar, mas agora está todo mundo sem dinheiro", conta Weitman.

Em busca de mais segurança para garantir a produção dos alimentos, as instituições têm buscado parcerias com empresas.

"A nossa matéria-prima principal são legumes e verduras, complementamos com feijão e macarrão. Como os preços aumentaram muito, temos conseguido comprar cada vez menos com o mesmo dinheiro", diz Alanna Lima dos Santos, assistente de coordenação do projeto Sopão com Carinho, criado pela Ten Yad durante a pandemia e que serve entre 200 e 250 refeições por dia, no Bom Retiro.

Os custos mensais, que eram de R$ 19 mil, subiram para mais R$ 25 mil, conta ela. Eles também tiveram uma baixa no número de doações, enquanto a procura aumentou, não apenas por pessoas em situação de rua, mas também por empregados de confecções da região.

"Para não reduzir a qualidade da comida, tivemos de reduzir as 200 porções diárias para 180 em alguns dias", diz a assistente. "A gente sempre usava carne e deixamos de comprar. Conseguimos colocar frango na sopa de vez em quando, mas não dá mais para colocar sempre."

"Com R$ 100, a gente conseguia montar uma cesta básica com arroz, feijão, macarrão, biscoito e leite. Agora, a gente ainda consegue fazer uma cesta para doações, mas menor", conta Maria do Carmo, do Muca (Movimento Unido dos Camelôs), do Rio de Janeiro.

Foi preciso tirar um quilo de feijão das cestas para manter o arroz; o biscoito saiu para manter a metade da quantidade de macarrão. "A carestia está muito grande e as cestas prontas, mesmo nos lugares mais baratos, aumentaram e tivemos de diminuir as nossas doações", diz ela.

O principal aumento notado nos últimos meses foi nos insumos, que subiram muito, como as embalagens de sopa e copos para café, conta Guilherme Assumpção, do projeto Pãozinho Solidário, que distribui, em média 600 refeições nas noites de quarta-feira no centro de São Paulo.

Como conseguiu firmar parcerias para a produção dos alimentos, o grupo pôde amortecer parte dos efeitos da inflação da comida.

"Temos três pontos de entrega no centro, em grupos simultâneos. Fizemos uma corrente de parcerias, para a produção dos pães. A sopa e o macarrão vêm de doações de um restaurante no centro", conta. Ele diz também ter notado um aumento na procura pelas doações, com o empobrecimento das famílias.

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COMO CONTRIBUIR COM OS PROJETOS: Sopão com Carinho:

Por meio de PIX ou transferência bancária para:

Banco Bradesco, AG. 1322

Conta: 259499-4

CNPJ: 69.127.793/0001-00

Muca (Movimento dos Camelôs):

Doações podem ser feitas na cozinha solidária (av. Mem de Sá, 25, Lapa, Rio). Mais informações pelo telefone: (21) 9-9388-9014

Ten Yad:

Informações para doações por PIX ou boleto estão no site do projeto:

https://tenyad.org.br/doe/

Pãozinho Solidário:

Informações para doações e vendas de produtos estão no site do projeto: https://linktr.ee/paozinhosolidario

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