SOS home office com filhos: mães trocam dicas e fazem terapia contra estresse reunidas pelo WhatsApp

Karina Maia
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Mães do grupo de WhatsApp "Confra de Primeira": da esquerda para direita: Caroline Scaliso, Rachel Tettamanti, Amanda Igarashi, Mirna Andrade, Fabiana Gouveia Neves e Tatiana Avilez

RIO — O corpo se transforma para dar passagem a uma nova vida. Enquanto a barriga cresce e a pele estica, os hormônios passeiam de montanha-russa. Mas este é apenas o primeiro capítulo de uma coletânea de aventuras chamada maternidade. Este ano, a história ganhou mais um episódio, inusitado: a quarentena. Para as mulheres que estão isoladas em casa com seus filhos, grupos de WhatsApp têm se tornado uma válvula de escape, por meio da qual elas compartilham o estresse do confinamento e do acúmulo de funções impostos pela pandemia de Covid-19.

Inicialmente criados para compartilhar assuntos escolares e agendar encontros das crianças, os canais on-line ganharam outro significado para muitas mães. É assim que elas têm inclusive criado juntas momentos especiais, como sessões semanais só para elas e celebrações de aniversários dos filhos.

— Estou trabalhando em casa, sendo professora da minha filha, faxineira e cozinheira. É uma rotina à qual não estava acostumada, mas é o que temos agora — desabafa a jornalista Amanda Igarashi, mãe da Julia, de 5 anos.

Em meio à vida doméstica, Amanda enfrenta suas próprias necessidades de lazer e saúde. Para dar conta de tudo, criou uma rotina com horários para cada atividade. Seu apartamento, na Barra, também sofreu adaptações. A varanda ora serve como escritório e sala de aula, ora como academia. É lá também que, uma vez por semana, ela se isola para encontrar, através de videoconferências, as amigas do grupo Confra de Primeira.

— Nós bebemos e desabafamos. Antes da quarentena, tínhamos o dia do “Tchau, mamãe”, quando saíamos juntas. Agora, ele foi adaptado: vou para a varanda e nos encontramos on-line no “Tchau, mamãe — Em casa”. Afinal, todos precisam de um espaço para não pirar!

Amanda diz que uma das funções que mais exigem dela é a de professora, opinião compartilhada por várias de suas amigas. As aulas on-line integram um subcapítulo na vida das mães em quarentena. Por mais que muitas já acompanhassem os deveres de casa dos filhos, nem todas têm didática ou conhecimento para esclarecer as dúvidas das crianças.

— Tive que reaprender várias questões de matemática para ensinar ao meu filho. Até que isso tem me ajudado, porque sempre odiei a matéria — diverte-se a veterinária Debora Gregg, referindo-se ao suporte às aulas do primogênito, Eduardo, de 8 anos.

Já com Camila, a caçula, de 5 anos, explica, é preciso ter mais jogo de cintura.

— Tenho que usar a criatividade para ajudar a minha pequenininha de uma forma mais lúdica. Um dia, fomos pendurar roupa no varal. Aí falei para ela ir contando os pregadores, os degraus da escada... porque é preciso entreter a criança. Se ela ficar entediada, já era — ensina Debora, que, devido à quarentena, trocou o condomínio onde mora, também na Barra, pela fazenda da família, em Itaipava. — Antes, tínhamos a ajuda da babá. Agora, eu e meu marido estamos sozinhos, mas continuamos a trabalhar. Há dias mais difíceis: tenho TPM, nada agrada a ninguém, brigo com meu marido, a minha mãe manda mensagem, pedindo atenção... parece um complô — brinca a veterinária.

Ela compartilha as tristezas e alegrias do confinamento no grupo Inimigas do Fim. Segundo Debora, como as participantes têm personalidades e realidades bem diferentes, o grupo também funciona como um canal de socorro, onde as mães somam seus talentos para se apoiarem nas dificuldades.

Para Daniela Mazzola, executiva de marketing e membro de quatro grupos femininos no WhatsApp, as trocas entre as participantes trazem infinitas possibilidades. Num deles, o Mães do Riviera, que leva o nome do condomínio onde mora, cerca de cem mulheres dividem desde dicas de como lidar com os desafios da quarentena a tutoriais de massinha caseira para distrair as crianças.

— Não sabia fazer nem arroz, por isso as receitas que as meninas postam ajudaram muito. Na primeira vez que fiz estrogonofe, pedi dicas a elas. Quando meu filho deu a primeira garfada e disse que estava muito bom, fiquei orgulhosa — conta a mãe de Thomas, de 10 anos, e Lara, de 2.

Para Renata Louro, mãe de Noah, de 5 anos, o grupo Inimigos do Fim é um refúgio.

— Assistimos a lives juntas, falamos sobre as crianças, conversamos sobre política e coisas de mulher... Tem de tudo um pouco. O grupo vem sendo a nossa terapia coletiva — conta ela, que está isolada em sua casa, no Blue Horses, com o filho. — Sou mãe praticamente solo, faço faculdade de Design de Interiores, trabalho e tenho que encarar os afazeres domésticos. Antes, meu filho tinha uma rotina super-regrada, que nem sempre consigo manter nesta loucura. Mas estabeleci uma norma para nós dois: é proibido usar eletrônicos até o almoço.

Mesmo as mulheres que dividem as demandas diárias com seus parceiros se sentem sobrecarregadas. A biotecnologista Talytta Feitosa Gonzalez conta que ela e o marido se revezam para dar conta de seus trabalhos e cuidar das filhas Alice, de 5 anos, e Thaís, que fez 1 ano em abril.

— Precisamos dar atenção à Alice para evitar que ela fique o dia todo no tablet. E a Thaís ainda mama — conta.

O casal usou a criatividade para celebrar o aniversário da caçula, que teve bolo, docinhos e convidados em videochamadas:

— Uma das coisas mais frustrantes é não poder comemorar direito o aniversários das crianças. Fizemos o melhor que pudemos. Percebi que não dá para ser perfeita em tudo!

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