SP-Arte presencial começa com pelados no vestiário e galerias queimando estoque

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cristina Tolovi era só sorrisos no final do primeiro dia da SP-Arte, nesta quarta (20), quando a feira paulistana abriu só para convidados e colecionadores. A sócia-diretora da galeria Jaqueline Martins calculou ter vendido 120% de seu estande, partindo do princípio de que a casa comercializou mais obras do que as que estavam expostas, já que algumas delas são edições em série.

Por R$ 67 mil, um colecionador levou um neon branco de Regina Vater onde se lê "your eye is my mirror", ou o seu olho é meu espelho, e por R$ 45 mil outro ficou com um trabalho de Daniel de Paula --nome quente da 34ª Bienal de São Paulo, agora em cartaz-- no qual o artista reuniu rochas extraídas de locais que receberam obras públicas superfaturadas e as colocou num recipiente.

A poucos metros dali, Vilma Eid, da galeria Estação, comemorava a venda de uma pintura de André Ricardo por cerca de R$ 30 mil, e Marcela Setton, da carioca Quadra, estreante na SP-Arte, a de uma tela do jovem Thomaz Rosa por cerca de R$ 20 mil.

Fernanda Restom, da Central, tinha um caderninho recheado com nomes de possíveis novos clientes, e Thiago Gomide, da Bergamin & Gomide, contabilizava R$ 6 milhões vendidos até o fim do dia.

O clima de feira de fato se impôs no começo da primeira SP-Arte presencial durante a pandemia, a 17ª edição do evento. Havia uma euforia entre galeristas e colecionadores, ávidos por retomar o contato físico com as obras de arte e fazer o dinheiro circular nos corredores da Arca, galpão de ar industrial berlinesco que recebe pela primeira vez o evento, em São Paulo.

Entre taças de espumante e bocadas de pipoca gourmet, a excitação do público com a retomada da vida social das feiras depois de quase dois anos de paralisação se estendia também à aprovação dos galeristas com a configuração dos estandes no novo espaço.

Todas as galerias agora estão no mesmo andar, diferentemente da versão da SP-Arte no pavilhão da Bienal de São Paulo, e não há mais divisão por setor --casas mais jovens estão ao lado de outras com décadas de existência, e no meio delas há as galerias ou escritórios de mercado secundário, com obras de maior valor vindas de coleções passadas.

Para o público, ficou mais fácil e rápido de circular, já que a Arca é bem menor e menos grandiosa em comparação com o pavilhão de Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera. O número reduzido de galerias, menos de 80, torna possível ver bastante do que está exposto sem correria.

A visitação, na verdade, é uma experiência nova para todos. Sai a imponência das curvas do pavilhão desenhado pelo arquiteto modernista e entra o ambiente "cool" de um armazém reformado numa região muito pobre da cidade, como a lembrar os endinheirados e importantes que a poucos metros da festa da arte há gente passando fome.

Quem perdeu com a nova configuração foram as editoras, agora relegadas a um espaço meio escondido atrás da lanchonete do galpão anexo, chamado State, enquanto antes ficavam próximas à rampa que leva do térreo para o primeiro andar do prédio da Bienal.

Se não com o espaço, o link com a Bienal fica a cargo das obras. Uma parte do que está exposto são trabalhos de artistas presentes agora na 34ª edição do evento, em cartaz até dezembro. O estande da galeria C, por exemplo, é inteiro dedicado a fotografias de Uýra Sodoma, entidade amazônica criada por Emerson Pontes, a Almeida e Dale levou só obras de Lasar Segall e as pinturas negras de Antonio Dias são ofertadas em diversos estandes, uma delas à venda por R$ 5 milhões na Zipper.

Nos corredores, a busca pela atenção dos colecionadores não acontece só com obras dos nomes da vez do mercado, mas também pela customização dos espaços. A Verve transformou seu estande numa simulação de vestiário masculino, nas paredes do qual pendurou só telas melancólicas de teor homoerótico de Francisco Hurtz. Já a Portas Vilaseca mostra uma solo de Gustavo Nazareno, só com pinturas e desenhos de pessoas negras,.

Numa feira que pode indicar a recuperação do mercado depois da crise causada pela pandemia, os galeristas parecem estar fazendo "o possível no impossível", como o diz o neon de Regina Parra na entrada do evento.

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