Spike Lee chama Bolsonaro e Trump de gângsteres ao abrir Festival de Cannes

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***FOTO DE ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, 26.11.2013 - O cineasta Spike Lee. (Foto: Zô Guimarães/Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO*** RIO DE JANEIRO, RJ, 26.11.2013 - O cineasta Spike Lee. (Foto: Zô Guimarães/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - O cineasta americano Spike Lee, que preside o júri da 74ª edição do Festival de Cannes, chamou o presidente brasileiro de "gângster" durante a abertura da cerimônia, ocorrida nesta terça (6).

“O mundo está sendo comandado por gângsteres. Há o Agente Laranja [o ex-presidente americano, Donald Trump], o Cara do Brasil [Jair Bolsonaro] e [o presidente russo Vladimir] Putin. São bandidos e vão fazer o que desejarem. Não têm moral ou escrúpulos, precisamos falar alto sobre gente assim.”

Depois de um ano de hiato por conta da pandemia, o Festival de Cannes voltou ao calendário cinematográfico a todo vapor, antes mesmo da primeira sessão de cinema. Na entrevista coletiva dos jurados aos jornalistas, o presidente do júri, o cineasta americano Spike Lee, já disparou sua famosa metralhadora verbal em tom politizado, vociferando contra os líderes mundiais conservadores citados.

O júri neste ano veio bastante diverso, com cinco mulheres e quatro homens, incluindo membros de origem africana, asiática e latino-americana. O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, vencedor do Prêmio do Júri em 2019, por “Bacurau” (codirigido por Juliano Dornelles), é um dos participantes -- no ano passado, ele também havia sido um dos jurados no Festival de Berlim, outro dos maiores eventos do cinema mundial.

Lee, que é o primeiro negro a presidir o corpo de jurados, já esteve na Croisette por três vezes na disputa pela Palma de Ouro. Saiu com o Grande Prêmio do Júri em 2018, por “Infiltrado na Klan”, mas o cineasta ainda hoje é lembrado por muitos como injustiçado pelo festival, quando seu explosivo “Faça a Coisa Certa” foi esnobado pelo júri presidido por Wim Wenders, em 1989.

“Muita gente disse que o filme daria início a uma série de motins raciais pelos EUA”, disse Lee, em referência ao conteúdo de seu longa, sobre uma rebelião em um bairro negro em Nova York. “Escrevi o filme em 1988. Mas aí você vê o irmão Eric Garner e o rei George Floyd mortos [ambos homens negros assassinados por policiais brancos, em 2014 e 2020], lembro do [personagem de ‘Faça a Coisa Certa’ também assassinado] Radio Raheem. Você espera que 30 malditos anos depois a população negra não seja mais caçada como animais.”

O presidente do júri também comentou uma das grandes polêmicas envolvendo o Festival de Cannes: a resistência do evento em apresentar na mostra competitiva obras produzidas apenas para o streaming —o regulamento exige que só longas que também terão exibição em salas de cinema francesas possam disputar a Palma de Ouro. A Netflix, em protesto, boicota o evento desde 2019.

“Não é novidade, é sempre um ciclo”, disse Lee, sobre a discussão se o esquema de VOD ("video on demand") levaria as salas de exibição ao fim. “O cinema e o streaming podem, sim, coexistir.”

Além de Lee e Mendonça Filho, integram o júri a cineasta franco-senegalesa Mati Diop, a atriz americana Maggie Gyllenhaal, a diretora austríaca Jessica Hausner, a atriz francesa Mélanie Laurent, o ator francês Tahar Rahim e o ator sul-coreano Song Kang-ho.

O Festival de Cannes começa oficialmente nesta terça, a partir das 19h25 (14h25, no horário de Brasília), com uma cerimônia de abertura, seguida da estreia mundial de “Annette”, aguardado longa do francês Leos Carax, estrelado por Marion Cotillard e Adam Driver.

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