Sputnik V: Decisão da Anvisa divide opiniões nas redes sociais enquanto perfil oficial da vacina pressiona o órgão regulador

Amanda Scatolini
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Com o pedido de importação negado, por unanimidade, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na noite de segunda-feira, o debate sobre a vacina russa Sputnik V reacendeu nas redes sociais, dividindo opiniões e colocando, inclusive, governistas e parte dos opositores do presidente do mesmo lado.

O perfil oficial do imunizante russo contra a Covid-19 postou tuítes em português, após a negativa do governo brasileiro, convidando, inclusive, a Anvisa para um debate público, como forma de pressionar o órgão regulador.

“Para salvar vidas no Brasil e seguindo as afirmações incorretas e enganosas da Anvisa, estamos convidando a Anvisa para um debate público perante a comissão competente do Congresso do Brasil”, informou o perfil na tarde desta terça-feira, compartilhando um documento que rebate os pontos levantados pela comissão técnica da agência.

Os fabricantes russos também consideraram que a decisão do órgão foi de natureza política. “Os atrasos da Anvisa na aprovação da Sputnik V são, infelizmente, de natureza política e não têm nada a ver com acesso à informação ou ciência”, diz um post no perfil da Sputnik V no Twitter.

Segundo um levantamento da consultoria Arquimedes realizado após a decisão do órgão, das 48 mil menções ao caso no Twitter, 55% foram favoráveis à não liberação do imunizante contra a Covid-19. Um fato curioso é que, entre os que se posicionaram em defesa da decisão, foram contabilizados 33% de perfis bolsonaristas e 22% de perfis da oposição ao governo.

Embora estivessem do mesmo lado, as justificativas, no entanto, diferiram, conforme apontado pelo estudo. Enquanto os opositores reafirmavam o caráter técnico da decisão, ressaltando a necessidade de se precaver perante os riscos, sobretudo diante de um cenário pandêmico, a rede de apoiadores do governo furtou a narrativa para também tecer ataques ao ministro do STF Ricardo Lewandowski. O ministro negou o pedido de suspensão do prazo de análise requerido pela Anvisa, estipulando-o para o fim do mês de abril. A agência havia requerido a suspensão do prazo sob a justificativa de que necessitava de mais dados para condução dos estudos sobre a eficácia do fármaco.

Do lado dos 45% que se manifestaram a favor da autorização do imunizante, destacam-se principalmente perfis de esquerda. A análise aponta que uma parte considerável dos que se mostraram contrários à decisão da Anvisa acredita que o órgão tem sofrido com interferências políticas e ideológicas.

A discussão quanto à autorização da importação excepcional da Sputnik V, que foi requisitada por dez estados brasileiros (Bahia, Acre, Rio Grande do Norte, Maranhão, Mato Grosso, Piauí, Ceará, Sergipe, Pernambuco e Rondônia), levou mais de cinco horas para ser definida. De acordo com a avaliação da Anvisa, a permissão poderia colocar em risco a vida de milhões de brasileiros, uma vez que os estudos não analisaram os eventos adversos por faixa etária ou pessoas com comorbidades, prejudicando o fornecimento de dados sobre a segurança do imunizante.

A vacina Sputnik V está sendo aplicada em vários países além da Rússia, como Argentina, México e Venezuela. De acordo com o instituto Gamaleya, que desenvolveu a vacina, o fármaco já foi autorizado em mais de 60 países, embora não tenha sido permitido por órgãos de vigilância sanitária internacionais, como a Food and Drug Administration (FDA), nos EUA, e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA).