Starbucks Brasil lança primeira nota comercial privada ‘verde’

Depois da popularização de títulos de dívida corporativa ‘verdes’, agora o mercado financeiro começa a testar outros instrumentos que se propõe a trazer algum impacto social e/ou ambiental. A rede de cafeterias Starbucks Brasil, por meio de sua operadora no país, a SouthRock, acaba de emitir a primeira Nota Comercial Privada Verde do país e, segundo a empresa, do mundo.

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A operação, no valor total de R$ 20 milhões, foi feita utilizando Unidades de Crédito de Sustentabilidade (UCS), uma espécie de commodity ambiental ESG que financia a conservação de florestas, para viabilizar a transação.

Os recursos, segundo a Starbucks, serão direcionados para ações sustentáveis no Brasil, como compensação da pegada de carbono. A operação foi articulada pela greentech Brasil Mata Viva (BMV).

- Em 2020, a Starbucks assumiu globalmente o compromisso de se tornar uma empresa ‘resource-positive’, formalizando metas ambientais para reduzir suas pegadas de carbono, água e resíduos até 2030 - disse Claudia Malaguerra, Managing Director da Starbucks Brasil.

A parceria com o BV vai ao encontro desta meta.

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As notas comerciais são um novo instrumento financeiro de financiamento, que é regido pela Lei nº 14.195, de 26 de agosto de 2021.

- A Nota Comercial Privada Verde é uma forma de engajarmos nossos clientes na identificação e redução do seu impacto ambiental. Nos orgulhamos de termos estruturado esta operação inédita no mercado - afirma Rogério Monori, diretor executivo de Corporate & Investment Banking e Tesouraria do Banco BV.

Criada pelo grupo BMV em 2010, a UCS é uma “commodity ambiental” com representação digital, em blockchain, dos benefícios que a conservação da floresta em pé oferece para a biodiversidade de 27 diferentes ecossistemas. As UCS contabilizam itens como a retenção de carbono e os impactos para sobre fauna, flora, nascentes e recursos hidrológicos da região.

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O registro em blockchain dessa “moeda” permite a comercialização digital do ativo. O BMV já faz a análise dos benefícios da preservação ambiental em mais de 1 milhão de hectares, que pertencem a 219 produtores rurais, principalmente na Amazônia. Atua nas regiões do Xingu, Teles Pires, Madeira, Arinos, Amapá, Roosevelt e Guariba, nos estados do Norte e Centro-Oeste do Brasil.

- Com a operação inédita queremos mostrar que investir no meio ambiente é um bom negócio, tanto reputacional como financeiro- declara Maria Tereza Umbelino, CEO do BMV.

Segundo a executiva, a vantagem da Nota Comercial Privada, atrelada às UCS, e não por compra de créditos de carbono para compensação de emissões, como é mais comum no setor privado, se deu porque esse novo instrumento permite ir além da conservação da mata nativa, agregando, por exemplo, construção de escolas, postos de saúde, pontes e outros benefícios sociais para as localidades.

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-Justamente por ir além do crédito de carbono, UCS são aceitas como garantias em operações financeiras, a exemplo do que ocorreu entre Starbucks e Banco Votorantim. Com o apoio do Grupo BMV, a Starbucks utilizou UCS tanto para a equivalência ambiental das suas operações, como também para a garantia do empréstimo com o BV - comenta a executiva.

O uso de tecnologia blockchain para registro, diz, ajuda também na transparência e rastreabilidade dos títulos emitidos.

O que é o UCS?

As Unidades de Crédito de Sustentabilidade (UCS) usadas na composição da nota comercial privada ‘verde’ são, na prática, tokens registrados na blockchain e lastreadas em Cédula de Produto Rural Verdes (CPR Verdes), em que o proprietário da terra se compromete com os serviços e, em contrapartida, recebe o financiamento antecipado para isso. Após um ano do contrato, ele precisa atestar que manteve os estoques de carbono, fauna e flora nativas. Esse serviço vale dinheiro.

O grupo BMV foi também o primeiro a estruturar uma emissão da primeira Cédula de Produto Rural (CPR) Verde, emitida sob as diretrizes do decreto nº 10.828/21; hoje já contabiliza 17 emissões do tipo.

De acordo com a BMV, os produtores rurais se comprometem a preservar suas áreas de floresta por 25 anos e são remunerados anualmente, como se estivessem trabalhando com safras.

- Neste caso, safras de créditos de sustentabilidade baseadas nos 27 serviços ecossistêmicos- comenta Maria Tereza Umbelino.

Já as certificações emitidas para compradores e investidores de UCS têm validade de um ano.

- A renovação das UCS passa por diversas ferramentas de monitoramento e inspeção via satélite e in loco, todas registradas em blockchain. Em caso de não cumprimento, o produtor rural é excluído do programa do BMV- explica.

A receita de venda de UCS para a Starbucks será destinada a regiões que conservem a biodiversidade local e usem o solo de maneira sustentável. A metodologia usada pela BMV tem, segundo o executivo, respaldo científico da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e foi chancelada pela certificadora suíça SGS.

Também reitera que as florestas que integram os projetos contam com monitoramento via satélite e inspeções periódicas a campo.