Start-ups brasileiras bilionárias inspiram quem busca sucesso como empreendedor; livro traz histórias de bastidores

Gabriela Germano
·6 minuto de leitura

Empreendedores brasileiros desanimados ou já feridos pelas dificuldades e quedas no árduo caminho em direção ao sucesso podem receber uma injeção de ânimo ao ler o livro “Da ideia ao bilhão’’ (Portfolio Penguin, R$ 59,90). Entre inúmeras curiosidades e dados, a publicação mostra que vários percalços fizeram parte da rotina das 10 primeiras start-ups unicórnio do Brasil (empresas que alcançaram o valor de ao menos US$ 1 bilhão no mercado). De dramas pessoais como a luta para vencer um câncer, passando por desentendimentos entre sócios, dificuldades para conseguir dinheiro e até processos de transição de gênero, as histórias reveladas nas páginas chamam a atenção para o fato de que no comando de projetos bem-sucedidos há, antes de tudo, seres humanos comuns e empenhados.

— São trajetórias vencedoras, mas que não foram escritas em linha reta. Por trás de empresas de destaque, há pessoas de carne e osso. E o que elas fazem e falam pode ser útil para todos, não só para os patrões — destaca o autor Daniel Bergamasco.

Pedir comida ou táxi pelo aplicativo, pagar compras usando a maquininha de cartão, alugar um imóvel sem precisar de fiador... Essas facilidades que hoje fazem parte da vida da maioria dos brasileiros nasceram na mente de um empreendedor. Mas quem imaginaria que, no momento em que a 99 desbancava a concorrente Easy Táxi e se preparava para realizar sua maior campanha publicitária até então, um de seus proprietários, Paulo Veras, descobriu estar com leucemia? O “escritório de trabalho’’ foi montado dentro do hospital, já que importantes decisões que precisavam ser tomadas não podiam esperar. Mas “alguns investidores não eram tão legais com ele e não disfarçavam as preocupações em ter tanto dinheiro numa empresa em que o principal líder tinha câncer’’, conta um ex-profissional da 99 em um dos capítulos.

Quem já viveu aquela situação de ver sua ideia ser totalmente desencorajada por pessoas de seu círculo mais próximo também comprova, com o livro, não ser um solitário. Fundadores do QuintoAndar, fenômeno no mercado imobiliário por possibilitar o aluguel de imóveis com menos burocracia, André Penha e Gabriel Braga ouviram da família que se a ideia deles fosse tão boa, alguma imobiliária já teria implementado antes.

— Um ponto em comum entre os idealizadores dessas start-ups unicórnio é o desapego pela ideia deles em si. Essas empresas nascem da intenção de se resolver algum problema, acabar com alguma burocracia. O apego deles é pela solução de alguma questão que os afetou e que afeta muita gente — enfatiza Daniel.

Com sangue de repórter correndo nas veias e a experiência de quem já passou pela redação de grandes veículos como Folha de S. Paulo e Veja, o jornalista apresenta no livro entrevistas com empresários avessos aos holofotes depois de conquistarem lugar de destaque no mundo dos negócios. Felipe Fioravante, primeiro CEO do Ifood que vendeu sua parte na empresa com apenas 32 anos e hoje leva a vida de modo discreto realizando uma volta ao mundo, é um deles. Outro destaque nesse meio que costuma não aparecer, mas dá seu depoimento ao escritor, é Andre Street, um dos sócios da carioca Stone, mais conhecida como empresa das maquininhas de cartão. Em meio à pandemia de coronavírus, os lucros da start-up só cresceram e chama atenção nas páginas o processo seletivo disputadíssimo para se tornar um membro da equipe. Daniel acompanhou um deles na cidade de Itu, no interior de São Paulo, no fim de 2019, que incluiu até provas físicas coordenadas pelo técnico de vôlei megacampeão Bernardinho. Foram 70 mil inscritos e apenas dois jovens selecionados.

Todas as companhias retratadas nasceram de sociedades. Mas quem pensa que as parcerias bem-sucedidas necessariamente se deram entre amigos ou parentes se surpreende. Há quem tenha firmado compromisso com um estrangeiro numa videoconferência e até episódios cômicos, como um churrasco promovido pela Movile, unicórnio focada em tecnologia para mobile e originária de uma fusão entre várias empresas, incluindo uma de Campinas e outra do Rio. Quando os cariocas chegaram vestindo bermuda e regados a álcool na cidade do interior de São Paulo, gritaram “Ninguém bebe a água de Campinas’’, fazendo piada com a lenda de “cidade dos gays’’. Os colegas paulistas que os aguardavam estavam todos arrumadinhos, no melhor estilo camisa para dentro da calça, e o contato não foi lá muito amigável. Desde o início, os líderes perceberam que precisariam administrar até as diferenças culturais para o negócio dar certo. E deu. Essa é uma outra lição deixada por “Da ideia ao bilhão’’: montar uma equipe diversa, valorizando diferentes competências, só agrega.

O braço carioca da Movile também rende outra história inspiradora ao livro. Monique Oliveira, uma das fundadoras da empresa, era Leonardo Constantino no início da empreitada. Paralelamente ao crescimento da start-up, ela passou por um processo de transição de gênero, iniciou um tratamento hormonal em 2017, mas precisou desmarcar as primeiras cirurgias de feminilização marcadas para este ano devido à pandemia. De lá para cá, já deu palestras para os funcionários para falar sobre diversidade. Ao lado de Cristina Junqueira, sócia da Nubank, outra unicórnio retratada no livro, é a única mulher no grupo de empreendedores bilionários do Brasil.

As 10 start-ups brasileiras que valem ao menos 1 bilhão de dólares

99 - aplicativo de táxis

Arco Educação - sistema de ensino

Ebanx - soluções para consumidores latino-americanos comprarem em sites estrangeiros

Gympass - passe para malhar em diferentes academias

iFood - delivery de comidas

Loggi - serviços de logística

Movile - tecnologia com foco em mobile

Nubank - cartão de crédito sem anuidade

QuintoAndar - aluguel sem burocracia

Stone - pagamentos com maquininha de cartão

Lições para empreendedores:

— Quem não está disposto a abrir mão de férias e folgas não deve nem tentar empreender. Não existe conto de fadas. O sucesso no empreendimento exige sacrifícios.

— Uma boa ideia em si não vale nada. A validação da ideia é que importa.

— Não há como alcançar o sucesso sem passar por crises.

— Ser cabeça dura e não abrir mão da própria ideia ignorando o retorno dos clientes é o pior erro que um empreendedor pode cometer.

— Antes de vender a ideia para um possível investidor, é preciso conhecer tudo sobre ela. Isso significa pesquisar muito sobre o mercado. E realmente saber para que se está buscando dinheiro. Muito empreendedor busca investidores pra se pagar, para prosperar. Mas o investimento normalmente tem o objetivo de promover a aquisição de novos clientes, bancar um desconto para atrair pessoas. Ou fazer mais contratações e promover a expansão.

— A melhor maneira de driblar o balde de água fria da família e dos amigos em cima de uma ideia é com técnica, método e conhecimento. Mapear a experiência do usuário que vai usar aquele serviço ou produto é fundamental. Método é mais importante do que o palpite de qualquer pessoa.

— Conhecimento e inovação é imprescindível em qualquer empresa. As pessoas estudam muito. Isso não muda.