Stepan Nercessian se afasta de Chacrinha em livro que reúne angústias pessoais

NAIEF HADDAD
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*ARQUIVO* Rio de Janeiro, 11.02.2018 - Camarote Grande RIO. Na foto Stepan Nercessian (Foto: Marlene Bergamo/FolhaPress)
*ARQUIVO* Rio de Janeiro, 11.02.2018 - Camarote Grande RIO. Na foto Stepan Nercessian (Foto: Marlene Bergamo/FolhaPress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mais conhecido como ator, hábil no trânsito entre o cinema, a TV e o teatro, Stepan Nercessian já esteve em outros palcos.

Nascido em Cristalina, em Goiás, há 67 anos, foi vereador em dois mandatos no Rio de Janeiro, cidade adotada por ele na juventude. Atuou como presidente da Funarte, deputado federal e presidente do sindicato dos artistas também no Rio. Virou até presidente de honra da escola de samba Difícil É o Nome.

Mas ainda não tinha se tornado escritor, embora ensaiasse há pelo menos duas décadas. Vinte e cinco anos atrás, veio um "aluvião", como conta, que rendeu uma série de contos, poesias, artigos. Alguns anos depois, uma nova torrente criativa impulsionou mais uma penca de escritos.

Nercessian, porém, deixou que a maior parte dos textos se perdessem em trapalhadas dele no computador. Cogitou voltar a escrever, mas acabava se contendo diante do "pudor e do pavor", diz. "Sentia necessidade de me entregar à arte de escrever, mas não me achava pronto nem capacitado."

Há cerca de dois anos, conseguiu domar tantos receios. Reescreveu o que tinha restado daquelas primeiras criações e preparou novos textos. Surgia "Garimpo das Almas", o primeiro livro de Nercessian.

É uma reunião de contos em que prevalece um tom de desilusão, às vezes angústia, às vezes indignação. Aqui e ali, um toque de humor amargo. Num dos textos, um homem doente, com rins que se "mostram enojados de filtrar impurezas e aflições", admite sua falência física. Em outro, uma mulher idosa se confunde com mistérios da sua casa e do seu passado.

"Melancolia que não é só tristeza", como, no prefácio, descreve Cacá Diegues, que dirigiu Nercessian em filmes como "Xica da Silva", de 1976, e "Deus É Brasileiro", de 2003.

Não é, a rigor, uma autobiografia, mas passagens da vida dele, especialmente da infância e da adolescência em Goiânia, aparecem ao longo das histórias. Como na lembrança do parque de diversões, sem tíquetes para entrar nos brinquedos. "Tudo é pago em dinheiro vivo. Um dinheiro sujo, amassado, vindo das mãos de feirantes, sapateiros, engraxates", escreve.

Esse desalento, uma dor sem alarde, presente em mulheres e homens de "Garimpo das Almas" se distancia de Chacrinha, provavelmente seu personagem mais célebre e premiado. Não que o protagonista do filme dirigido por Andrucha Waddington e lançado em 2018 esteja enredado numa alegria permanente, mas é um artista de sentimentos explosivos.

Os personagens do livro destoam, inclusive, do modo descontraído com que Nercessian se apresenta em entrevistas para a TV.

"Eu não costumava demonstrar para os outros minha angústia, mas sempre convivi com esse aspecto mais doloroso", diz. "Muitas vezes, a gente disfarça a tragédia da vida para não ficar insuportável viver."

Como ator, ele se queixa quando o engavetam dentro de um estilo. Não gosta quando é rotulado como comediante e se lembra de papéis com outros matizes feitos ao longo de 51 anos de carreira, como Queró, o jovem criminoso carioca em "Barra Pesada", de 1977, filme dirigido por Reginaldo Faria.

Agora, como autor, também quer distância de formatos predefinidos. Um outro livro seu, quase pronto, é "Guia Prático para Inadimplentes e Negativados", em que um personagem comenta, com graça, como escapar das encrencas financeiras.

A julgar pelo entusiasmo de Nercessian, outras obras virão. Como se ele próprio fosse um personagem, o novo escritor fala de si na terceira pessoa para demonstrar o encantamento pelo ofício. "Quero deixar minha herança por meio da literatura. Você quer conhecer o Stepan? Veja os filmes, as novelas, as peças de teatro. Quer conhecer profundamente? Leia o que ele escreveu."

GARIMPO DAS ALMAS

Preço R$ 27

Autor Stepan Nercessian

Editora Tordesilhas (216 págs.)