Quer espalhar ódio e ganhar voto e dinheiro? Pergunte como a Steve Bannon

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Former White House Chief Strategist Steve Bannon exits the Manhattan Federal Court, following his arraignment hearing for conspiracy to commit wire fraud and conspiracy to commit money laundering, in the Manhattan borough of New York City, New York, U.S. August 20, 2020. REUTERS/Andrew Kelly
O ex-estrategista da Casa Branca Steve Bannon deixa prisão em Nova York. Andrew Kelly/Reuters

Eles precisam da sua ajuda. Com a chegada da covid-19 à região, a circulação dos trabalhadores mexicanos na fronteira com os EUA se tornou ainda mais restritiva, jogando para a extrema pobreza centenas de famílias que não têm cesta básica, equipamentos de proteção individual, água, sabão e álcool em gel para se defender da pandemia. Para contribuir, basta acessar o seguinte endereço:

Calma, esta não é uma campanha real, embora baseada em notícias verídicas sobre o impacto da covid-19 na América Latina.

Era apenas um teste para saber quantos leitores sobrariam se eu abrisse este texto apelando para o espírito de solidariedade em relação aos amigos mexicanos. O grau de engajamento (e leitura) seria próximo de zero.

Agora imagine você, que chegou até aqui, se eu abrisse este texto com um alerta: CUIDADO, OS BÁRBAROS ESTÃO CHEGANDO, ELES QUEREM SEU TRABALHO, SEU SOSSEGO E VÃO TRANSFORMAR A SUA CIDADE EM EPICENTRO DO DECLÍNIO DA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ-JUDAICA-OCIDENTAL!

Ganhei sua atenção?

Agora que tal você, que ainda está sob o impacto da palpitação, pegar a sua atenção e fazer alguma coisa? Tipo me depositar um dinheiro para uma campanha de extrema urgência: erguer um muro para evitar que nossas cidades sejam invadidas por imigrantes bárbaros dispostos a colocar em risco a nossa identidade?

Afinal, já não está fácil pra gente. Cada um com seus problemas. Eles que fiquem lá. Nosso país em primeiro lugar! Nosso país acima de tudo!

Essa campanha tem mais pegada, não?

Pois era mais ou menos isso o que fazia Steve Bannon, ex-estrategista-chefe da Casa Branca e principal arquiteto da campanha de Donald Trump à Presidência dos EUA em 2016. Ele foi indiciado e preso na quinta-feira 20 após ser acusado de desviar dinheiro de uma campanha em apoio à construção do muro na fronteira dos EUA com o México. O muro, para quem não se lembra, era uma das promessas de Donald Trump naquele ano.

Bannon foi um dos primeiros a descobrir que, na era das redes sociais, o ódio (aos imigrantes, aqui no caso) não só rendia engajamento e catapultaria as candidaturas mais excêntricas como também rendia lucros. Bannon foi preso na costa de Connecticut, estado vizinho de Nova York, em um iate do bilionário chinês Gou Wengui. Quem vê grana não vê globalismo, palavra de ordem nos círculos que ele ajudou a incendiar.

Leia também

Demitido por supostas desavenças com um filho do chefe, logo no início do governo Trump, a história ainda dirá qual era a influência do estrategista no círculo do presidente depois que se tornou uma figura tóxica nos EUA e saiu por aí replicando a estratégia de comunicação vitorioso de 2016 em vários países, inclusive o Brasil.

Bannon é líder e idealizador de um nebuloso grupo denominado O Movimento, que tem como premissas o nacionalismo econômico e o populismo de ultradireita. Um dos pontos de ignição do projeto foi a plataforma Breitbart News, do qual foi editor e que antes de 2016 já espalhava conteúdo racista e antissemita sob o selo de “direita alternativa”.

O site já chamou um comentarista conservador de “judeu renegado”, comparou aborto ao Holocausto e aconselhou mulheres vítimas de assédio online a saírem do computador e pararem de arruinar a vida dos homens na internet.

Em suas mãos, o Breitbart News se tornou uma "máquina de propaganda etno-nacionalista branca", segundo a ONG Southern Poverty Law Center, que monitora crimes de ódio nos EUA. Tornou-se também uma mina de dinheiro vendendo medo, rancor e ressentimento, moeda corrente nas últimas eleições pelo mundo.

Ex-militar, Bannon fez carreira também na Goldman Sachs e trabalhou na Cambridge Analytica, pivô de um escândalo nas eleições americanas ao coletar, sem consentimento, dados de milhões de usuários do Facebook. Ele é suspeito de estar por trás das mensagens estimulando sentimentos de raiva, rancor e medo nos eleitores. Tudo isso antes de se tornar diretor da campanha de Trump, o corpo alaranjado onde aplicou suas ideias de mundo, e estrategista-chefe da Casa Branca, sob aplausos até dos líderes da Ku-Klux-Klan.

Bannon foi um dos convidados da comitiva da viagem aos EUA do presidente Jair Bolsonaro logo após ser eleito. “Estou muito focado em transformar O Movimento em algo global, e Bolsonaro é parte disso”, disse Bannon, em entrevista à Folha, em 2018.

Não seria exagero dizer que Bannon tinha no Brasil um embaixador: o deputado federal Eduardo Bolsonaro, com quem aparece em diversas fotos postadas nas redes.

O copia-e-cola do governo brasileiro em relação a discursos e decisões de Trump como, por exemplo, a obsessão pela cloroquina, mostra o grau de influência da matriz americana por aqui.

No mesmo dia da prisão do homem que explica a conversão de um magnata abestalhado em presidente da maior potência econômica do Planeta, o candidato opositor Joe Biden discursou na convenção do Partido Democrata e prometeu: “juntos, podemos nos recuperar dessa temporada de escuridão nos EUA”.

Eu não seria otimista. Preso e liberado após pagar uma fiança milionária, Bannon e sua ideia de mundo ancorada no ódio e no rancor ainda seguem vivos e podem causar muito estrago ainda pelo mundo.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos