#StopTheSteal, a ofensiva viral dos trumpistas para desacreditar a eleição

Catherine TRIOMPHE avec Julie JAMMOT à San Francisco
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Eleitores de Donald Trump protestam em frente a centro de contagem de votos em Detroit, Michigan, contra suposta fraude eleitoral da qual não há provas, em 4 de novembro de 2020
Eleitores de Donald Trump protestam em frente a centro de contagem de votos em Detroit, Michigan, contra suposta fraude eleitoral da qual não há provas, em 4 de novembro de 2020

Eles só precisavam de uma página no Facebook e de um rótulo: com o anúncio do resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos, os eleitores de Donald Trump recorreram à rede social com a hashtag #Stopthesteal (Pare o roubo), espalhando a denúncia sem provas do presidente de que os democratas estão roubando a eleição. 

Com apenas 48 horas de vida, a página rapidamente conseguiu 350.000 membros que subscreveram a teoria da conspiração que o presidente também exibe em sua conta no Twitter para seus 88 milhões de seguidores. 

Os filhos de Trump ou pessoas próximas a ele, incluindo Donald Trump Junior ou a porta-voz do Partido Republicano, Elizabeth Harrington, também desempenharam um papel fundamental na divulgação dessa informação falsa. E em pouco tempo a hashtag, já popular entre os republicanos durante as legislaturas de 2018, foi traduzido em protestos concretos. 

A página "Stop the Steal" convocou comícios em estados como Geórgia, Nevada e Pensilvânia, onde os votos ainda estão sendo computados e as disputas estão acirradas. 

Às vezes, apelos à ação incluíam incitamento à violência, com hashtags como #guerracivil, levando os apoiadores de Joe Biden a pedirem ao Facebook para fechar a página. 

Na quinta-feira ao meio-dia, não estava mais acessível. 

"Em linha com as medidas excepcionais que estamos tomando neste período de altas tensões, removemos o grupo 'Stop the Steal' que estava criando eventos no mundo real", explicou o Facebook à AFP. 

"O grupo foi organizado em torno da deslegitimação do processo eleitoral, e vimos apelos preocupantes à violência de alguns de seus membros", acrescentou.

- "Manipulação" -

As sementes, contudo, já haviam sido plantadas e seus membros rapidamente começaram a denunciar como "censura" o fechamento da página lançada pelo grupo pró-Trump "Mulheres pela América em Primeiro Lugar". 

"É o que chamamos de campanha de manipulação da mídia", afirma Emily Dreyfuss, do Harvard Media Research Center. "Pare com o roubo" é "uma frase muito fácil de memorizar que simplifica um assunto supercomplexo", explica. "Fica gravado em seu cérebro", completa. 

Essas campanhas não são de origem popular, argumentou Drefuss, mas são propagadas dos níveis mais altos da campanha Trump. Como acontece com outro bordão pró-Trump, #BidenCrimeFamily, que espalha falsidades, a hashtag oferece "uma mensagem simples que se encaixa em uma agenda específica", uma pequena forma de enganar uma nação.

- "Como QAnon" -

O fechamento da página em nada implica o fim da campanha de desinformação: grupos e hashtags semelhantes continuam brotando por toda parte. 

"Stop The Steal" ainda é amplamente utilizado no Twitter e entoado em manifestações cujas imagens posteriormente aparecem nas redes sociais, explicou Renee DiResta, pesquisadora do Stanford Internet Observatory que analisa desinformação online. 

"Isso representa desafios reais para as plataformas digitais", embora estejam lutando contra mais desinformação agora do que em 2016, observou. 

A campanha "Stop the Steal" é alimentada por várias teorias rebuscadas que inflamaram a mídia social desde a votação de terça-feira, como #Sharpiegate, em referência aos marcadores da marca americana Sharpie. 

Aqueles que propagam a hashtag afirmam que o uso desses marcadores muito populares para preencher os boletins de voto os torna ilegíveis pelas máquinas de contagem e, portanto, os invalida. 

Lançada em um condado do Arizona, a teoria foi rapidamente desmentida pelas autoridades locais, mas se espalhou tão rapidamente que culminou em manifestações na quarta-feira à noite em frente ao centro eleitoral do condado para exigir uma recontagem dos votos. 

Contra a desinformação, os fatos às vezes têm pouco peso: uma vez revelados, as ideias, mesmo as infundadas, permeiam as pessoas e enredam as pessoas ou os processos democráticos em questão. 

Essas teorias podem continuar a prosperar após a eleição, alerta Alex Stamos, diretor do Observatório da Internet de Stanford. 

E se espalhar "como as teorias da conspiração de QAnon", o movimento de extrema direita que afirma que Trump está travando uma guerra secreta contra as elites mundiais infiltradas por pedófilos satânicos.

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