Streets of Rage 4: O bem sucedido retorno de um clássico dos anos 1990

Gabriel Leão
·6 minuto de leitura
Streets of Rage (Divulgação/SEGA)
Streets of Rage (Divulgação/SEGA)

Em 30 de abril, as empresas francesas DotEmu, LizardCube e Guard Crush Games lançaram Streets of Rage 4, o último capítulo da série, considerada uma das melhores, se não a melhor, no estilo beat ‘em up (briga de rua) e trilha sonora. Um trabalho que se destaca pela qualidade, paixão empreendida e reconhecimento de fãs e críticos, disponível para PC, Xbox One, Playstation 4 e Nintendo Switch. A equipe falou com exclusividade ao Yahoo Brasil.

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A franquia conhecida no Japão como Bare Knuckle promove o retorno de Alex Stone e Blaze Fielding defendendo as ruas sob luzes neon e ao som de dance music trazendo o antigo amigo Adam Hunter e novos lutadores como Cherry Hunter, filha de Adam, e Floyd Iraia. Streets of Rage 4 é mais um acerto para a japonesa SEGA, dona dos direitos autorais, que vem tendo um bom 2020.

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“O jogo obteve considerável sucesso, mas não queríamos apenas apelar para nostalgia”, explica o diretor de arte da LizardCube Ben Fiquet. “Pode ser dito que é mais fácil capitalizar em uma marca já existente ao invés de desenvolver sua própria, mas Streets of Rage 4 só existe por causa de fãs como nós que queríamos trazer a franquia de volta e com um bom capítulo” para os dias atuais.

Streets of Rage 4 ressurge em um período no qual se vê remakes e reboots em games, cinema, séries e outras mídias, como vem ocorrendo há duas décadas; porém diferente de alguns produtos o retorno do game após mais de 25 anos é relevante.

O jogo desde seu primeiro capítulo, em 1991, já tinha um elenco com diversidade, mesmo antes dos relevantes discursos tão presentes hoje, e com personagens que não estavam ali para apenas preencher uma cota. O trio inicial consistia dos policiais Axel, Blaze e Adam, no segundo capítulo Adam virou um coadjuvante, e se uniram ao grupo seu irmão, o adolescente de patins, Skate e o pro-wrestler Max, este substituído pelo ciborgue Dr. Gilbert Zan no terceiro capítulo; que ainda contava com os personagens secretos: o canguru Roo (Victy para os japoneses) e os antagonistas Shiva e Ash, este presente apenas na versão nipônica.

“Axel e Blaze, obviamente retornam por ser a dupla icônica. Entretanto, sentíamos, e creio que muitos dos fãs também, que Adam tinha seu retorno há muito aguardado. Cherry e Floyd entram pela jogabilidade que trazem”. Floyd Iraia um homem musculoso com braços cibernéticos apesar de lento se sobressai pela força física e longo alcance de seus golpes, enquanto Cherry é rápida e com forte ofensiva aérea.

Como a história se passa após 10 anos do terceiro jogo, lançado em 1994, Fiquet e equipe não conseguiram “imaginar um Skate adulto voltando com seus patins, logo Cherry preenche o espaço de personagem ágil. Eu queria destaca-la e amo a sensação grunge que traz com sua guitarra; houve uma resistência da equipe, mas insisti muito para que usasse o instrumento nos golpes”.

Pancadaria e trabalho em grupo

Para o programador da Guard Crush Games Cyrille Imbert, o gênero beat ‘em up, que teve seu auge nas décadas de 1980 e 1990, porém pode ser visto incorporado em grandes sucessos como God of War, “portanto sabíamos que havia pessoas como nós que queriam o retorno de um clássico beat ‘em up, mas que ao menos seja moderno e jogável”. A jogabilidade traz elementos antigos, porém adiciona nova mecânica para combos, armas e golpes especiais.

É possível jogar com um parceiro online, porém o trunfo da jogabilidade é a nova opção de quatro jogadores no local, lembrando os antigos arcades e algo impossível para os consoles caseiros daqueles anos. Imbert crê que Ancient e Sega não o fizeram antes por limitações técnicas, porém a ideia de jogar com mais três amigos permeou a mente dos criadores desta edição.

Uma das grandes mudanças foi a arte, os gráficos em pixels foram substituídos por uma bela arte manual - os personagens secretos ainda preservam o estilo antigo -. “Eu queria ver o jogo que eu imaginava quando garoto, queria ver personagens bem definidos com belas animações lutando em belos cenários”, comenta Fiquet que trabalhou com o artista de cenários Julian Nguyen-You.

Os cenários fazem parte da narrativa com suas luzes de neon junto à ambientes sombrios equilibrando decadência e sofisticação da fictícia metrópole americana Wood Oak City. “Lizardcube é conhecida por seus desenhos, é o que fazemos de melhor e não seriamos bem sucedidos se nos distanciássemos disto. Creio que há um potencial infinito para games 2D, e, estava certo de que seria abraçado pelos jogadores”, define Fiquet.

Trilha sonora que tem vida própria

Um dos destaques da série é a trilha sonora composta por Yuzo Koshiro, ao lado do parceiro Motohiro Kawashi, tendo alcançado o ápice em Streets of Rage 2 (1992). O veterano francês Olivier Derivière é o responsável por esta edição, que tem como convidados a dupla original junto de outros nomes respeitados dos games além de artistas contemporâneos.

Com fortes batidas da cena club daqueles tempos, a trilha influenciou até a cultura mainstream, por exemplo o produtor de hip-hop estadunidense Just Blaze, 42, que adotou o nome artístico baseado no jogo e é conhecido por ter trabalhado com os renomados rappers Jay-Z e Eminem.

“Não seria possível concluir esta trilha sonora sem as verdadeiras lendas Koshiro e Kawashi, os quais serão sempre lembrados como os compositores da franquia. Foi uma enorme honra seguir a visão deles e um enorme prazer ser um dos primeiros a escutar seu trabalho para SoR4”, recorda Derivière e aponta que há no game uma gama maior de club musica com tons de “rap, R&B, techno, dubstep, IDM (Intelligent Dance Music) e EDM (Electronic Dance Music). Muitas combinações bem diferentes que dão um toque diferenciado, o que faz parte de seu DNA”.

Também assinam as melodias nomes contemporâneos como XL Middleton e Groundislava. “Trabalhamos duro com (o selo) Mutant Ninja Records para ter uma lista de artistas modernos que melhor coubessem em SoR4. Buscamos talentos que nunca trabalharam com games antes e com arte inspirada pelo período inicial do electro e aquela sensação de anos 1990, para trazer algo diferente e novo”, aponta Imbert.

Antes rejeitada, a inovadora e interativa trilha de Streets of Rage 3 influenciou também o atual trabalho. “Em SoR3 já tentaram processos diferentes e a música era ‘composta’ conforme seu progresso. Sempre estiveram na vanguarda e busquei o máximo que pude esta direção para dar uma experiência única aos jogadores”, relata Derivière.

O game foi indicado na categoria trilha sonora da premiação Golden Joystick Awards 2020 e a mesma foi disponibilizada pela Mutant Ninja Records em plataformas digitais, enquanto a Brave Wave Productions ficou responsável pela versão vinil.

A comunidade de fãs pede versões atualizadas dos personagens antigos e rivais como personagens jogáveis. Para o futuro foi anunciado um material de DLC (downloable content, conteúdo para download), no qual a equipe vem trabalhando. “Eu realmente gostaria de contar mais sobre o conteúdo adicional de SoR4, mas ainda trabalhamos ‘no que’ e ‘como’ com o time e preferimos anunciar quando tivermos 100% garantido do que será lançado”, aponta Imbert. Até o momento saiu em setembro um patch com mais de 150 mudanças e melhorias.

O game com sua trama com corrupção de agentes da lei, falência de autoridades é visto por alguns críticos como um reflexo dos tempos atuais; acima de tudo é um meio divertido – e sem grandes pretensões – para se atravessar o triste 2020, atraindo tanto jogadores do passado como também atuais. Enfim, um jogo bastante divertido e que faz jus ao nome que carrega.

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