Suécia é modelo de política ambiental, mas enfrenta desafio 'de ricos': reduzir o consumo

AP - Fredrik Sandberg

A Suécia é apontada como um país de vanguarda na política ambiental: tem alguns dos objetivos mais ambiciosos do mundo de redução de emissões de gases de efeito estufa e é modelo em aspectos como energias renováveis, reciclagem e bairros sustentáveis. Entretanto, diminuir o impacto do consumo elevado é um desafio – um problema “de ricos” que o governo tenta enfrentar com mais impostos e medidas pioneiras para forçar a sociedade a aprofundar suas mudanças.

Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Estocolmo

Os suecos querem se tornar um dos primeiros do mundo desenvolvido a serem neutros em emissões de carbono até 2045, graças à eliminação dos combustíveis fósseis da sua matriz energética. A capital, Estocolmo, assumiu a missão de chegar a esse objetivo ainda mais cedo, em 2040.

Já faz mais de 50 anos que os suecos, tradicionalmente apegados à natureza, acordaram para a crise ambiental, mas foi nas últimas três décadas que o país passou a implementar transformações profundas para fazer a sua parte contra as mudanças do clima. Em poucos anos, a Suécia se tornou um dos campeões mundiais da reciclagem e da valorização energética, num círculo virtuoso que fez o país o país cortar 35% das suas emissões desde a década de 1990.

Transformação do calor e do lixo

Como parte desta dinâmica, o setor digital entra neste ciclo. Por ser um país frio próximo do Ártico, a Suécia se tornou um hub para gigantes da tecnologia do mundo todo instalarem seus data centers regionais. Se, por um lado, os centros de armazenamento de dados consomem quantidades colossais de energia, por outro, também geram muito calor que, na Suécia, é reaproveitado na rede de calefação urbana.

Tornar sustentáveis essas imensas infraestruturas significa não só evitar emissões de CO2, como representa uma fonte de economia para empresas como Microsoft, Google e outras. O país já tem alguns “green data centers” com balanço ambiental positivo.

"Os data centers precisam ser altamente refrigerados, para esfriar os processadores e os sistema elétrico. Mas um resfriador é basicamente uma bomba de calor. Nós chegamos a um desenho ideal de resfriador, de forma a captar o calor e encaminhá-lo para a rede de calefação”, explica Fabien Levihn, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Stockholm Exergi, a companhia municipal de energia. "Hoje temos data centers em muitas cidades que recuperam o calor.”

Outra fonte para abastecer a rede de calefação é o lixo. Os lixões de material orgânico foram banidos da Suécia há 20 anos: os dejetos alimentares são transformados em adubo agrícola ou biocombustível, depois utilizado para aquecer os imóveis.

"As cidades organizaram projetos para o biogás, começaram a coletar o lixo alimentar separadamente, a construir plantas de transformação em biocombustível”, aponta Caroline Steinwig, especialista em tratamento biológico e biocombustíveis do Avfall Sverige, a agência sueca de tratamento de lixo. "E melhoramos o produto final: passamos a remover o CO2 para obtermos a mesma qualidade do gás natural e transformá-lo em combustível para o transporte. Iniciamos essa solução circular, e os ônibus locais passaram a rodar com este biogás.”

Entretanto, apesar de 87% das cidades do país terem sistema de coleta subterrânea e reciclagem dos vários tipos de lixo, persistem lacunas na separação dos dejetos nas residências, empresas e outros organismos.

“Não somos perfeitamente circulares. Cerca de 50% do lixo alimentar vai parar no lixo residual, infelizmente, e isso acaba sendo incinerado. Ainda podemos melhorar muito”, indica Steinwig. "Temos muito orgulho do que construímos, uma aprendizagem sobre a importância da separação correta do lixo que vem desde a creche para educarmos os nossos futuros cidadãos a fazer as coisas direito. Globalmente, estamos bem, mas ainda temos muita coisa para fazer”, constata.

Aumento das renováveis

Uma das metas é atingir uma matriz energética com apenas fontes renováveis até 2040 – o que seria inédito num país desenvolvido. Com 54,6% de sua produção energética assim, sobretudo via hidrelétricas, Estocolmo já é exemplar na União Europeia, onde a média é de apenas 18,9% de energia limpa.

Entretanto, o país ainda não encontrou uma solução definitiva para os dias frios, quando é obrigado a completar a demanda com importação de eletricidade dos vizinhos alemães e poloneses – onde é produzida por fontes fósseis.

Essas e outras incongruências ajudam a explicar a indignação da jovem militante Greta Thumberg – diante da emergência climática, a estudante prefere chamar a atenção para as falhas, em vez dos avanços no país.

A especialista em cidades sustentáveis Sofie Pandis Iveroth, referência sobre o tema, também segue nesta linha crítica. Para a autora, a Suécia só poderá afirmar que está no caminho certo da transição ecológica quando abandonar definitivamente a combustão de petróleo, gás ou lixo.

"Não, ainda não estamos vendo um verdadeiro movimento transformador na Suécia. Talvez a guerra na Ucrânia ou outra coisa horrível como essa nos empurre a adiar ainda mais a transição. Mas enquanto nós formos dependentes da combustão e dos combustíveis fósseis, não será suficiente”, ressalta a consultora sênior do grupo Anthesis. "Precisamos encontrar novas formas para facilitar a introdução de ainda mais energia solar, mais eólicas, estocagem de eletricidade, o uso de hidrogênio verde”, diz Iveroth, autora de uma tese de doutorado sobre o primeiro bairro ecológico da capital, Hammarby Sjostad.

Suecos consomem demais

Na comparação com os vizinhos europeus e outras economias avançadas, o grande calcanhar de Aquiles sueco é o consumo. Segundo a Agência Pública Nacional de Proteção do Meio Ambiente, as emissões ligadas ao consumo chegam a 9 bilhões de toneladas de CO2 por pessoa – ou seja, nove vezes mais do que o máximo para que limitar o aquecimento do planeta em menos de 2°C seja uma meta possível.

Um relatório de 2019 da ONG Global Footprint Network apontou que se a humanidade consumisse como os suecos, os recursos naturais que a Terra consegue renovar a cada ano se esgotariam já no dia 9 de abril – e não em 29 de julho, conforme a média mundial. A tomada de consciência sobre o problema, ainda lenta, deu origem a movimentos como o “köpskam”, “vergonha de comprar”, e o “flygskam”, “vergonha de andar de avião”, o meio de transporte mais nocivo ao planeta.

"Muitos suecos se sentem conectados com a natureza, se importam e têm um forte interesse nos temas ambientais. Mas aqui nós temos um alto padrão de vida e o modo como as pessoas consomem acaba indo no sentido contrário”, explica Katarina Axelsson, pesquisadora em consumo sustentável do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI, na sigla em inglês). "O impacto ambiental do consumo é alto, mas ainda não estamos totalmente dispostos a agir com responsabilidade quanto a isso, porque hoje esses hábitos estão absorvidos no nosso estilo de vida. É um grande desafio: nós nos acostumamos a ter acesso aos produtos de lojas como H&M e outras marcas de fast fashion, com todas as adversidades que elas representam”, nota a pesquisadora.

Objetos de segunda mão

Desde 2018, com a nova lei de transição ecológica no país, as empresas são obrigadas a adotar planos de redução do seu impacto ambiental. A comercialização de objetos de segunda mão se acelerou – o primeiro shopping exclusivamente para objetos usados foi aberto a cerca de 120 quilômetros da capital, em Eskilstuna. Mas a imensa quantidade de produtos que ficam encalhados à venda mostram o longo o caminho que ainda existe pela frente.

A redução do consumo se tornou o foco de organizações ambientais, mas também do próprio governo, que promove campanhas para sensibilizar a população sobre o combate ao desperdício e o reaproveitamento dos produtos. Em Estocolmo, há dezenas de pontos onde os habitantes podem depositar os objetos, móveis ou roupas que não usam mais, e tudo fica à disposição para qualquer um levar para casa, gratuitamente.

Este ano, o projeto ganhou financiamento da União Europeia para experimentar uma versão marítima do Pop up Aterbruk: um barco leva e traz os objetos de bairros mais distantes.

"A maioria das pessoas quer fazer direito, mas precisamos oferecer soluções, inclusive logísticas, para que elas possam fazê-lo”, comenta Lena Youhanan, uma das responsáveis pela campanha. "Quando as pessoas vêm aqui, é uma oportunidade ideal para nós informarmos sobre o que acontece com os objetos que elas deixam. É um momento de aprendizagem, para mostrar que aquilo seria lixo se não estivéssemos tomando conta de uma maneira melhor”, esclarece.

Forçar mudanças de hábitos pelo bolso

Uma pesquisa do Banco Europeu de Investimentos indicou que três quartos da população sueca acredita que a crise climática e as suas consequências são o maior desafio da humanidade no século 21 – e concorda com que o governo aplique “medidas rígidas para impor mudanças no comportamento das pessoas”.

Neste sentido, Axelsson ressalta que uma alternativa mais radical seria coagir pelo bolso, com impostos ainda mais altos sobre o consumo. Já é o caso sobre o gasto de energia: desde os anos 2000, o país adota uma das taxas por emissões de CO2 mais elevadas do mundo, atualmente cotada a € 117 (R$ 650) por tonelada. Na França e Alemanha, o imposto é de € 44,6 (R$ 244) e € 25 (R$ 138), respectivamente, por tonelada emitida.

O próximo objetivo é adicionar as emissões oriundas do consumo, inclusive via importações, nas metas nacionais de redução de gases de efeito estufa. Novamente, a Suécia deve ser o primeiro país do mundo a implementar tal medida.

“Eu acho que isso é ótimo. É fantástico que tenhamos conseguido dar esse passo, porque as pesquisas mostram que é importante não só estabelecer objetivos, mas definir como vamos desenvolver um plano de ação para conseguir atingi-los”, sublinha Axelsson. "Temos que determinar que as pessoas, as empresas e organizações terão responsabilidades e trabalharão para chegarmos, todos, nesse objetivo."

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