Súbita morte de Chris Cornell revela que nem sempre controlamos as angústias

Regis Tadeu

Ninguém esperava a morte dele. Foi repentina, surpreendente e, segundo as primeiras análises da polícia que investiga o caso, um provável suicídio. Se isso for confirmado, aí sim não seria uma surpresa tão grande para mim. Chris Cornell sempre exalou uma inegável angústia em tudo o que fez e cantou.

Ele parecia ter uma fórmula para as diferentes abordagens de interpretação ao longo de sua carreira: usar da tristeza o combustível para cantar qualquer canção. Não lembro de ouvir uma única música em que ele estivesse envolvido que exalasse algum tipo de alegria, fosse no Soundgarden, no Audioslave, no projeto Temple of the Dog ou em sua carreira solo. Quando o sucesso chegou no auge do grunge,  Cornell assumiu desde então uma postura que sempre dava muitas pistas a respeito dos tormentos que sua alma devia sofrer com a repentina exposição. Exilado em si mesmo, ele parecia olhar o mundo ao seu redor com uma eterna desconfiança.

Apresentou ao mundo uma maneira de cantar urgente, delicada, angustiante e quase histérica, tudo ao mesmo tempo. Gravou bons discos, teve performances ora brilhantes – como esquecer a maneira como cantou na linda “Black Hole Sun”? -, ora constrangedoras, como a grande maioria dos artistas. Morreu aos 52 anos, com o corpo estatelado em um frio chão de banheiro de um hotel em Detroit. Acidental ou não, sua partida é mais um clássico exemplo de gente que, para nós, parece ser bem sucedida, mas que traz dentro de si angústias que talvez nunca entenderemos…