Subnotificação é comum em pandemias como a do novo coronavírus, dizem cientistas

Célia Costa

RIO - A subnotificação de casos que ocorre com a Covid-19 ao redor do mundo é comum em epidemias e pandemias, afirmam infectologistas. A orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que se faça testagem e massa e rastreamento de contatos, mas o Ministério da Saúde admitiu a falta de exames para todos no Brasil, como ocorre em boa parte dos países.

Por isso, o isolamento voluntário, que tem sido a orientação, é apontado como medida para conter o avanço do novo coronavírus.

— A subnotificação é comum em qualquer lugar do mundo. Os números exatos de casos são mais necessários para as autoridades entenderem a doença —, afirma o epidemiologista Roberto Medronho, professor da UFRJ.

Testagem em massa

Para o infectologista Alberto Chebabo, professor da UFRJ e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, a testagem em massa tem mais a ver com aspectos econômicos de cada lugar — Coreia do Sul e Cingapura, com centros urbanos concentrados e economia estável, recorreram à prática de teste em larga escala.

— Como podemos afirmar que os países africanos mais pobres não têm casos de coronavírus? Eles podem ter, mas com certeza não têm condições de testar — avaliou o infectologista.

Chebabo defende que apenas casos graves devem ser testados devido à incapacidade dos países em atenderem o crescimento da demanda.

Infectologistas ressaltam que a subnotificação não prejudica o tratamento dos doentes, mas atrapalha o combate à doença porque dificulta saber quem pode transmiti-la.

— A Covid-19 tem uma particularidade, que é o fato de que 80% das pessoas infectadas apresentarem quadros leves a moderados. Essas pessoas continuam transmitindo a doença —, diz Chebabo.

Segundo a estimava de um estudo publicado na revista “Science”, apesar de os pacientes que desenvolvem a doença serem duas vezes mais contagiosos, os assintomáticos são seis vezes mais numerosos, mas com propensão menor a infectar outras pessoas. Eles acabaram se tornando o motor que move a pandemia.

Para Ligia Bahia, médica sanitarista e professora da UFRJ, é preciso ter critério para teste.

— Se não podemos submeter todos a exames, é preciso ter clareza dos critérios usados pelas autoridades de saúde. A prioridade é diagnosticar, por meio de exame, todos os pacientes internados e também seus contactantes (parentes ou pessoas que tiveram contato direto). Essas pessoas precisam ficar em isolamento e seus contatos, rastreados — afirmou a médica sanitarista.

Sistema brasileiro

O Ministério da Saúde informou que atualiza diariamente os dados na plataforma IVIS, com números de casos. Secretarias estaduais de Saúde têm encontrado dificuldades para fazer as notificações, mas o ministério informou que a plataforma passou por instabilidade momentânea, o que está sendo solucionado.

A notificação é feita pela Rede Nacional de Alerta e Resposta às Emergências em Saúde Pública (Rede CIEVS), que dispõe de diferentes meios para receber os casos de coronavírus e outros eventos de saúde pública. Os casos são comunicados pelos profissionais de saúde por telefone, e-mail e pelas plataformas FormSUScap e FormSUScap 2019-nCoV.