Substituto de Caboclo na CBF é aliado de Teixeira e se perpetuou na Bahia

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**ARQUIVO**BRASILIA, DF, 10.04.2019: O novo presidente da CBF Rogério Caboclo chega ao Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
**ARQUIVO**BRASILIA, DF, 10.04.2019: O novo presidente da CBF Rogério Caboclo chega ao Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Quem conhece o baiano Ednaldo Rodrigues, 67, atual presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o compara a um centroavante oportunista, que sabe onde a bola vai cair e conta com uma pitada de sorte para o arremate.

Em janeiro de 2002, um ano depois de ter sido alçado à presidência da Federação Bahiana de Futebol (FBF), Rodrigues ainda buscava entrosamento com seus pares de outros estados quando, num almoço oferecido por Emídio Perondi –mandatário da federação gaúcha, morto em setembro de 2020–, foi sorteado para o "voo da alegria" rumo à Copa do Mundo do Japão e da Coreia do Sul, na qual a seleção conquistaria o pentacampeonato.

Ricardo Teixeira, chefe da CBF na ocasião, cultivava o hábito de contemplar personalidades e autoridades, inclusive do poder judiciário, com um pacote completo para o Mundial, o que incluía passagens áreas, hospedagem, ingressos e as despesas pessoais pagas pela entidade.

Formado em ciências contábeis, Rodrigues foi jogador de futebol amador em Vitória da Conquista (515 km de Salvador) na década de 1980 e debutou na cartolagem como presidente da Liga Conquistense de Desportos Terrestres, o que ajudou a assumir o departamento do interior da FBF em 1992.

Figura pacata e de sorriso fácil, Rodrigues sempre esteve de prontidão para ouvir e anotar as queixas da cartolagem baiana, uma postura da qual o então mandatário da federação, Virgílio Elísio, não fazia questão de ter.

Convidado por Ricardo Teixeira para tomar posse do departamento técnico da CBF, em 2001, Elísio preparava o seu vice Sinval Vieira para assumir o comando da entidade na Bahia. Mas foi surpreendido pela quantidade de apoios declarados [dezenas de clubes e quase 200 ligas regionais] a Rodrigues.

Em seu primeiro mandato, Rodrigues modificou o estatuto da FBF permitindo sucessivas reeleições, além de garantir poderes a si próprio para nomear assessores, diretores e coordenadores. Assim, o cartola convidou duas cunhadas –irmãs de sua esposa, Rita– para ocupar cargos, respectivamente, de diretora técnica e secretária da presidência.

Taíse, uma delas, casou-se com Ricardo Nonato Macedo de Lima, que havia entrado na FBF como funcionário do departamento de registro de atletas e passou a ser vice-presidente de Rodrigues.

Em janeiro de 2019, após quatro mandatos, o cartola passou o bastão para Ricardo e, três meses depois, assumiu uma das oito cadeiras de vice da CBF.

Enquanto chefiou o futebol baiano, Rodrigues investiu na sua promoção pessoal. Em seu segundo ano à frente da FBF, mandou colocar 11 fotos suas em um jornal editado pela entidade.

Também recebeu a Comenda 2 de Julho, uma condecoração que a Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) confere às personalidades notáveis por serviços prestados ao estado.

Habilidoso, Rodrigues soube lidar com políticos tradicionais enquanto estava na federação baiana.

Em 2016, ele doou R$ 1.000 para a campanha eleitoral dos três principais candidatos à prefeitura de Salvador: ACM Neto (DEM), reeleito com 73,9% dos votos, a segunda colocada (14,6%), deputada federal Alice Portugal (PC do B), que contava com o apoio do governador Rui Costa e do ex-governador Jaques Wagner (ambos do PT), e o Pastor Sargento Isidório (PDT), terceiro com 8,6%.

Ao contrário dos seus antecessores, Rodrigues não leva uma vida de ostentação. Por outro lado, possui cinco títulos protestados em cartórios de Salvador no valor total de R$ 339 mil, registrados entre outubro de 2018 e maio de 2019.

A Folha tentou, sem sucesso, entrevistar o dirigente. Após a publicação do texto, a assessoria de imprensa da CBF afirmou em nota que os títulos protestados são contestados por Rodrigues em uma ação movida contra a Prefeitura de Salvador em razão de cobranças de IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). O comunicado também trouxe que o presidente em exercício modificou o estatuto da FBF em 2017, o que estabeleceu o limite de dois mandatos ao presidente.

Aliado de Teixeira, Rodrigues ensaiou resistência à efetivação de José Maria Marin no poder da CBF após o primeiro ter deixado, em março de 2012, o cargo que ocupava desde 1989.

O baiano defendia uma nova eleição e criticava a influência dos paulistas sobre o futebol brasileiro. Pois, além de Marin, já era evidente o poder de Marco Polo Del Nero, então chefe da Federação Paulista, no prédio da CBF no Rio de Janeiro.

Rodrigues, porém, não conseguiu unir forças e deu o braço a torcer. Logo no mês seguinte, como publicou o Painel FC, levantou bandeira branca para Marin. Curiosamente, o título daquela coluna, em abril de 2012, o apresentava como "pacificador".

Rodrigues havia dito que, após refletir sobre os desafios de Marin até a Copa do Mundo de 2014, passou a telefonar para os demais dirigentes de federações pedindo para que eles não dificultassem o trabalho do paulista.

Integrado à dobradinha de Marin e Del Nero, o baiano passou a ser elogiado publicamente pelo novo responsável pelo futebol brasileiro. Em 2013, foi o escolhido para chefiar a delegação em amistoso contra a Inglaterra. Uma posição que voltaria a exercer em 2017, em confronto contra o Japão e, novamente, diante da equipe nacional inglesa.

Com o afastamento de Rogério Caboclo da CBF desde junho deste ano, sob acusações de ter cometido assédio moral e sexual contra a sua secretaria, o vice mais velho, o paraense Antônio Carlos Nunes, 82, foi quem assumiu a presidência de imediato, conforme determina o estatuto da entidade.

Desgastado, Nunes teve de deixar o cargo provisório após consenso entre os vices para que Rodrigues assumisse a cadeira do cartola afastado.

Também não se sabe ao certo se o cartola conseguirá se firmar no cargo. Caboclo ficará longe da entidade até março de 2023, em razão das acusações feitas por sua ex-secretária.

Del Nero, mesmo banido do futebol pela Fifa, mantém forte influência nas decisões tomadas na CBF. É preciso saber se ele terá se esquecido da rebeldia de Rodrigues ao domínio dos paulistas no passado e se o atual mandatário estará disposto a fazer papel de fantoche.

Além disso, Rodrigues terá ao menos outros dois grandes desafios no cargo, ambos relacionados à Copa do Mundo. Ele irá, em 2022, ser o responsável por negociar um novo contrato com a Fifa de direitos de transmissão da seleção brasileira e o chefe de um time que tentará o hexa no Qatar.

Desde então, o baiano tem dito que só aceitou a "missão" na busca de pacificar a entidade, de imagem bem desgastada e que vive uma de suas piores crises políticas.

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