No subúrbio de Salvador, pandemia sepultou amigos e a cultura de Rildo do Amor Divino

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por Glória Maria

No carnaval de 2020, nos bairros que compõem o subúrbio ferroviário de Salvador (BA), o mestre de capoeira, comerciante, e produtor cultural em seu território, Rildo do Amor Divino Santos, 48, vestia uma calça legging, um óculos de gatinho e um chapéu. 

Parado em um ponto de ônibus, onde ao microfone falava: "Água mineral é um real. Água de coco, dois reais!"

Rildo, que tinha visto a notícia sobre a Covid-19, acreditava que o vírus estaria somente na China. E no movimento do vai e vem das festas carnavalescas foi trabalhar vendendo seus produtos. Com a chegada da pandemia no Brasil, preocupado, começou a perder suas noites de sono. Noites mal dormidas. E se lembrou que no tempo do carnaval achava que tinha pego uma insolação que o deixou mal. 

"Eu senti alguns sintomas, como perda de paladar, olfato e ainda não tinha chegado aqui. Hoje, eu me pergunto será que eu tive Covid antes da Covid chegar", comenta. E daí em diante as preocupações só se intensificaram.

Segunda onda foi definitiva para que Rildo suspendesse as atividades em seu comércio no subúrbio de Salvador. (Imagem: Uendel Galter)
Segunda onda foi definitiva para que Rildo suspendesse as atividades em seu comércio no subúrbio de Salvador. (Imagem: Uendel Galter)

'Morar na quebrada era difícil ficou mais difícil ainda depois da pandemia'

A Covid veio afetando a comunidade de Rildo, e ele compartilha que houve perdas de queridos amigos. 

"Já imaginou...'Pô', eu estava conversando com o Andrade na semana passada e do nada recebo a notícia da morte dele, ele tinha pressão alta e do nada pegou Covid e morreu", comenta.

De acordo com o Boletim Epidemiológico Covid-19 da Bahia, até o dia 2 de julho, o total de casos já registrado no estado é de 1.132.050. Já os óbitos pela doença desde o início da pandemia somam 24.187, refletindo uma letalidade de 2,14%. 

As mortes por Covid-19 na Bahia:

  • 55,76% do sexo masculino; 

  • 44,24% no sexo feminino;

  • 54,98% de pardos;

  • 22,28% de brancos;

  • 15,39% de negros;

  • 0,42% de amarelos;

  • 0,14% de indígenas; ;

  • 6,78% não há informações de raça.

O percentual de casos com comorbidade foi de 60,51%, com maior percentual de doenças cardíacas e crônicas, correspondendo a 72,83%.

As mortes ficaram evidentes em seu território, reforça Rildo, e no meio de todas essas perdas, ele compartilha a saudades do seu trabalho social como mestre de capoeira. O trabalho que traz expectativa de vida, e de futuro para crianças, jovens e adultos, teve que ser fechado

No Carnaval de 2020, sentiu alguns sintomas e até hoje não tem certeza sde contraiu a Covid e não ficou sabendo. (Imagem: Uendel Galter)
No Carnaval de 2020, sentiu alguns sintomas e até hoje não tem certeza se contraiu a Covid e não ficou sabendo. (Imagem: Uendel Galter)

O mestre traz a lembrança de Kekeu, um dos jovens que foi morar no Egito através da ação social e, de lá, foi chamado à Alemanha para levar sua arte. Infelizmente por conta do vírus, não pôde ir. 

"O coração fica apertado porque quando eu fico olhando os vídeos me dá um aperto no coração, ainda bem que tem dois aluno ainda que estão fora do país, mesmo com a pandemia estão tentando a vida, a arte", compartilha.

A beleza natural das regiões do subúrbio era visitada por turistas. Antes, Rildo fazia shows com apresentação das danças dos orixás, venda de refeições, maculelê. Agora, todas as atividades voltadas ao turismo foram interrompidas

Muitos moradores vivem do trabalho de pesca, no Porto das Sardinhas, mas as vendas também diminuíram. E para Rildo a população não teve renda nem estadual e nem federal que pudesse cobrir a perda desse período.

O comerciante relata que outros companheiros nas vendas desistiram e tiveram que entregar seus pontos, já que não podiam arcar com o estabelecimento. "Fico aliviado de não ter que pagar aluguel, e triste porque muitos companheiros não tiveram condições de manter seus estabelecimentos e fecharam", relata.

A principal perda de Rildo é de seu trabalho social como mestre de capoeira. O projeto, para ele, traz expectativa de vida, e de futuro para crianças, jovens e adultos da periferia. (Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)
A principal perda de Rildo é de seu trabalho social como mestre de capoeira. O projeto, para ele, traz expectativa de vida, e de futuro para crianças, jovens e adultos da periferia. (Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)

O desemprego e a Covid-19 na Bahia

A pandemia do novo coronavírus levou a taxa de desemprego a recordes em 20 estados brasileiros em 2020, informou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em março deste ano.

Em termos absolutos, a população desocupada — que não trabalha mas busca uma vaga — em 2020 atingiu a média de 13,4 milhões de brasileiros, 840 mil a mais do que o observado em 2019 e a maior marca da série histórica da Pnad. 

Segundo o IBGE, essas foram as maiores taxas de desocupação em 2020: 

  • Bahia - 19,8%

  • Alagoas - 18,6%

  • Sergipe - 18,4% e

  • Rio de Janeiro - 17,4%

O número supera a média nacional e é o maior índice do país.

O comerciante, teve que acabar com os sambas, serestas, e feijoadas que aos domingos aconteciam em seu bar. Iniciou o isolamento social e medidas de distanciamento, uso de máscaras e álcool em gel. 

Os impactos da primeira onda e da segunda onda foram grandes, diz ele, e que por causa da queda de vendas começou a fazer bicos como pedreiro para sustentar sua família. 

Rildo relata que companheiros desistiram e tiveram que entregar seus comércios, já que não podiam arcar com os custos do ponto. (Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)
Rildo relata que companheiros desistiram e tiveram que entregar seus comércios, já que não podiam arcar com os custos do ponto. (Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)

De acordo com Fabrício Freire, doutor em Ciências Biológicas e Microbiologia, a segunda onda no estado da Bahia foi caracterizada no final do ano passado e que foi observado um aumento obviamente do número de óbitos, impactando o sistema de saúde tendo necessidades de criação e de abertura de novos leitos e também de novas medidas restritivas para a tentativa de contenção da circulação do vírus.

E ele ressalta que alguns especialistas questionam as ondas no Brasil.

"Em todo esse tempo de pandemia não conseguimos visualizar um ritmo de uma diminuição significativa da circulação desse vírus e queda também do número de mortes, então é um assunto que é mais complexo", comenta.

Fabricio acrescenta que a intensidade da pandemia e os dados acentuam problemas ligados à saúde pública no nosso país e para controlar a pandemia é necessário acelerar o plano de vacinação.

"Todas as vacinas que estão presentes no Brasil, estudos demonstram a eficiência então é importante também que as pessoas tenham essa consciência", finaliza.

De acordo com o Acompanhamento da Cobertura Vacinal da Covid-19 do estado da Bahia foram aplicadas 4.988.993 vacinas da primeira dose, e 1.897.013 da segunda dose.

Para o mestre de capoeira, a pandemia só será controlada com a vacinação.(Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)
Para o mestre de capoeira, a pandemia só será controlada com a vacinação.(Imagem: Uendel Galter/Yahoo Notícias)
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