Sucessão de erros leva Brasil a mais de 50 mil mortos pela Covid-19

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A woman walks amid symbolic graves on Copacabana beach, dug by activists from NGO Rio de Paz protesting the government's handling of the COVID-19 pandemic in Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, June 11, 2020. A Brazilian Supreme Court justice ordered the government of President Jair Bolsonaro to resume publication of full COVID-19 data, including the cumulative death toll, following allegations the government was trying to hide the severity of the pandemic in Latin America’s biggest country. (AP Photo/Leo Correa)
A woman walks amid symbolic graves on Copacabana beach, dug by activists from NGO Rio de Paz protesting the government's handling of the COVID-19 pandemic in Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, June 11, 2020. A Brazilian Supreme Court justice ordered the government of President Jair Bolsonaro to resume publication of full COVID-19 data, including the cumulative death toll, following allegations the government was trying to hide the severity of the pandemic in Latin America’s biggest country. (AP Photo/Leo Correa)

Fronteiras abertas, falta de testes, apagão de dados públicos, quarentenas descumpridas e brigas de autoridades. Uma sucessão de erros levou o Brasil à vexaminosa marca de 50 mil óbitos pela Covid-19. Afinal, a doença já havia deixado um rastro de tragédias bem antes de aterrissar aqui — segundo estudos da Unicamp, o país foi o último entre as 15 maiores nações do mundo acometidas pelo novo coronavírus.

Não faltaram exemplos internacionais sobre como evitar — ou, ao menos, amenizar — a onda de óbitos no Brasil. Hoje estável em diversas regiões do país, o índice de mortes pode voltar a subir nas próximas semanas, diante da abertura precoce de serviços em grandes centros urbanos, como Rio e São Paulo.

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— A Argentina fechou suas fronteiras e registrou menos de mil mortes. O Brasil é um país muito maior e esta operação seria mais complicada, mas poderia ter sido feita, ao menos, nos aeroportos de Rio e São Paulo, com um centro de controle para testagem de passageiros — diz o pesquisador de imunologia Alessandro Farias, coordenador da força-tarefa da Unicamp contra a Covid-19.

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A falta de testes impediu um panorama sobre o alastramento da doença no país.

— O Brasil optou por concentrar os exames em pacientes suspeitos ou em estado grave. Assim, temos uma taxa de testes positivos superior a 30%. Em muitos países, este índice é de 5%, porque há testes para examinar mais pessoas — explica. — A subnotificação é fenomenal. Estima-se que a taxa de óbitos seja pelo menos cinco vezes maior do que a notificada.

Farias adverte que mesmo os casos bem sucedidos de quarentena podem sofrer revezes, o que implicaria em restringir novamente a circulação de pessoas:

— Muitos governos sucumbiram ao lobby econômico e a pressão da população e permitiram a reabertura dos serviços antes da hora. O aumento do número de infecções pode pressionar a necessidade de leitos de UTI. O ideal é que menos de 80% deles estejam desocupados, e esta não é a realidade em diversos locais do país — alerta o pesquisador.

Farias ressalta que a comunidade científica mundial conhece muito pouco sobre o Sars-COV-2. Entre suas características preocupantes está o alto tempo em que fica no organismo — até 21 dias — e o fato de que não precisa passar por muitas mudanças até atingir o sistema imunológico. É, como define, um vírus “muito bem sucedido”. A ocorrência de uma “segunda onda” é provável — sua duração e gravidade, desconhecidas.

Descontrole do governo

Doutor em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Paulo Petry sublinha a alta taxa de contágio do Sars-COV-2. No Brasil, cada infectado transmite o vírus para três pessoas, segundo estudo do Imperial College de Londres.

— O distanciamento das pessoas é fundamental para o achatamento da curva epidemiológica. Mas enfrentamos problemas como a aglomeração nas periferias — lamenta.

O “descontrole governamental”, segundo Petry, também impulsionou a curva de óbitos. A população assistiu a declarações que comparavam a Covid-19 a uma “gripezinha”, como fez o presidente Jair Bolsonaro, além de embates com prefeitos, governadores e os próprios ministros.

As discórdias com Bolsonaro despejaram Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich do comando do Ministério da Saúde. A pasta é agora ocupada pelo interino Eduardo Pazuello, que não tem experiência na área. Uma das marcas do início de sua gestão foi o “apagão” de dados do portal do governo sobre o coronavírus. Pesquisadores protestaram contra o sumiço de dados sobre o histórico da pandemia no país.

— Houve uma tentativa de apagar os dados, que são fundamentais para gerar informações científicas e, depois, políticas públicas — explica Petry. — Um ministro que não é da área da Saúde não fornece uma diretriz para o combate à pandemia. Estamos pagando com vidas o baixo investimento em pesquisas, o equipamento precário do SUS. Se houvesse investimentos, dependeríamos menos do insumo e da tecnologia estrangeiras para atender os pacientes. Poderíamos produzir os nossos respiradores.

O epidemiologista estima que, com o início do inverno, a taxa de mortalidade provocada por doenças respiratórias, entre elas o coronavírus, pode até quadruplicar, mostrando como a pandemia ainda está longe do fim.

Na casa da professora Márcia de Paiva, de 58 anos, em Petrópolis, o coronavírus provocou um estrago avassalador. Ela, o marido, o irmão e a mãe contraíram a Covid-19 — a mãe, Maria Lucia Cabral, de 85 anos, faleceu.

— No começo, pensávamos que só era gripe ou dor de garganta. Mas depois senti falta de ar, perdi o apetite, quase desmaiei porque não comia. Meu irmão queria me levar ao hospital para tomar soro, mas eu não quis, tinha medo de me contaminar — lembra Márcia.

Ao fazer o diagnóstico, o médico recomendou que a professora tomasse cloroquina. Márcia recusou, por temer os efeitos colaterais.

— É muito triste ver a dimensão que uma doença pode ter. Vejo algumas pessoas andando sem máscara na rua. Só vão sentir a dor quando a doença chegar a suas famílias.

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