Sucesso em lives, intérpretes de Libras recebem até cantadas e ganham seguidores

Ricardo Rigel
1 / 4

Ana Victória Carlos e Gusttavo Lima (2).jpeg

Intérprete Ana Victória Carlos fez sucesso na live de Gusttavo Lima

Muito além dos recordes de visualizações e das milhares de toneladas de alimentos recolhidas, as lives se tornaram um grande instrumento de divulgação da profissão dos intérpretes de Libras. A solução inclusiva, que possibilita surdos sentirem a emoção das apresentações, tem ganhado a simpatia do público em geral, como já ficou provado em recentes lives feitas por estrelas como Gusttavo Lima, Marília Mendonça, Bell Marques e a dupla Marcos e Belutti. Em meio às piadas, músicas e recados aos internautas, os tradutores aparecem no cantinho do vídeo como uma atração paralela, rendendo uma chuva de memes e muitos comentários sobre eles nas páginas dos artistas.

Mas esse excesso de emoção e de caras e bocas que podem soar engraçados para os leigos é completamente natural para as pessoas com surdez. Como alguns profissionais contam nesta matéria, na falta do som, as expressões fazem parte da estrutura da língua. E o público contemplado por eles não é pequeno. Segundo o último Censo Demográfico de 2010, cerca de 10 milhões de pessoas no Brasil são surdas.

"Tive que xingar para acompanhar o Gusttavo"

Especialista em tradução e interpretação de Libras, a goianiense Ana Victória Carlos, de 26 anos, já participou de três gravações de DVD do cantor Lucas Lucco. Mas sua estreia em lives foi com Gusttavo Lima: “Foi realmente uma experiência incrível, nunca imaginei que o meu trabalho ganharia tanta repercussão. Eu me entreguei mesmo na live para que os surdos pudessem curtir. Levei cantada. Uma pessoa escreveu: ‘quero dançar com a intérprete’.

"Virei a velha da live, mas foi a luz que me traiu"

A fonoaudióloga Gessilma Dias, de 46 anos, já trabalha como intérprete de Libras há 21. Mas foi na live de Marília Mendonça que ela fez sua estreia num evento musical: “Sou fã da Marília. Recebi o convite um dia antes da live. Tive que ligar para um amigo meu que é surdo e ele estudou comigo algumas letras. Quando terminou o show, a Marília me parabenizou e disse que eu estava fazendo sucesso. Meu celular chegou a travar com tantas mensagens e seguidores. Achei graça que virei a ‘velha da live’, mas foi a luz que me traiu”.

 

"Incorporei toda a baianidade"

A live de Bell Marques, que fez os fãs relembrarem os maiores sucessos do Chiclete com Banana, também se destacou pela interpretação de Libras do especialista Roberto Carlos Silva dos Santos, de 31: “Sou pernambucano, mas para essa live tive que encarar o desafio de passar a emoção das músicas e incorporei toda a baianidade. Achei divertidos os memes. Só não gosto quando desdenham da língua de sinais. O que é bacana destacar é que geralmente trabalhamos em equipe e vamos revezando nas músicas’’.

"Novo gás na profissão"

O paulistano Ricieri Palha, de 32, já viu nas lives uma nova chance de se recolocar no mercado de trabalho: “Como os shows pararam, as lives deram um novo gás na profissão. Estou com uma agenda muito legal. Essa semana, fiz a do Marcos e Belutti. Eles ficaram felizes com a minha atuação e a dos meus amigos. Porque no palco, como tem um público, o artista acaba não reparando na gente. Mas na live, eles têm uma dimensão maior da nossa função. Os surdos estão radiantes. Espero que essa comunicação cresça ainda mais!’’.