Sucesso em vagões na Zona Norte, Neo BXD acumula seguidores nas redes sociais e sonha viver de música

Natália Boere
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Neo BXD faz sucesso nos vagões dos trens e nas redes sociais

RIO - O trem do ramal Deodoro para na estação do Méier. A porta se abre e, em meio ao entra e sai de passageiros, uma batida contagiante ecoa, junto com rimas improvisadas que não passam despercebidas. “Olha, colega, não quero atrapalhar sua ligação/Mas se não me der um real vai cair sua conexão/Será que o meu parceiro ajuda o mano do improviso/Meu bolso está igualzinho a seu cabelo, todo liso”. O autor é Neo BXD, rapper nascido no Maranhão, criado em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e que fez do sucesso nos trilhos da Zona Norte um trampolim para bombar nas redes sociais. Hoje, contabiliza quase 80 mil seguidores no Instagram, mas não nega as origens: segue rimando nos vagões dos trens e do metrô.

—O que me fez ser conhecido foi um vídeo meu rimando no metrô que postaram no YouTube (e tem 138 mil visualizações). Me apresentar nos vagões é uma forma de fazer uma graninha, já que não tenho renda fixa. Tiro de R$ 100 a R$ 200 por dia, consigo pagar meu aluguel. A maioria dos passageiros gosta, principalmente na Zona Norte. Sou da periferia, do sofrimento do dia a dia, a rapaziada se identifica mais — conta Neo, de 21 anos.

Apesar da humildade, ele é bicampeão estadual carioca e semifinalista do duelo nacional de MCs. E na Batalha do Coliseu, disputa de rappers que ocorre nas noites de quarta-feira na Praça Agripino Grieco, no Méier, é anunciado como “o monstro da Baixada”.

— Neo já ganhou mais de cem batalhas, todo mundo o admira dentro do freestyle. Quem acompanha rodas culturais nos últimos dois anos no Rio acredita que ele é o nosso maior representante. E ele é um espelho para muitos jovens, tanto pelo talento quanto pela conduta. Além de ser um excelente artista, é uma pessoa que tem ideais muito fortes, que prega respeito e é comprometido com o que faz —destaca o rapper Matheus Almeida, que lançou a Batalha do Coliseu junto com o também rapper Carlos Magno.

O evento, aliás, foi criado no Méier, há nove meses, porque o bairro é considerado um dos berços do hip hop no Rio e foi cenário de rodas culturais de renome e já extintas, como a Batalha do Terraço, no Imperator, e a Roda Cultural do Méier, que acontecia nas esquinas das ruas Silva Rabelo e Medina. Em cada Batalha do Coliseu, competem 16 “gladiadores”. Os vencedores costumam ser escolhidos pelo voto da plateia, que já chegou a ter 600 pessoas.

—O Rio sempre foi um estado forte de rodas culturais, que revelavam muitos MCs para a cena do rap. Mas, de dois anos para cá, o movimento estava meio parado. O Coliseu conseguiu trazer de volta essa atenção para a rapaziada que sonha viver de rap —atesta Neo, que participou de quase metade das 41 edições do evento.

Nascido Cleyson Marcelo Freire Silva, ele conta que, hoje, só a família o chama de Marcelo. Fã de “Matrix”, escolheu o nome artístico inspirado no personagem principal do filme, interpretado por Keanu Reeves. O longa de ficção, de 1999, fala sobre um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas.

— Gosto muito de “Matrix” porque mostra como as pessoas são aprisionadas no mundo que o sistema cria para elas e que, para mudar isso, é preciso sair da zona de conforto — afirma.

Neo começou a carreira aos 19 anos, meio que por acaso. Tinha concluído o ensino médio e não sabia o que queria da vida. Fã de rappers como Snoop Dogg, 50 Cent e Emicida, passava horas vendo batalhas de rima na internet e resolveu começar a rimar com um amigo, de brincadeira. Começou a frequentar duelos em São Gonçalo, Manguinhos, Vila Isabel, Botafogo. No primeiro em que competiu, em São João de Meriti, chegou à semifinal. E viu que podia levar a brincadeira a sério.

— No início, eu era muito ruim. Mas comecei a rimar muito em casa, debaixo do chuveiro, e fui melhorando. Aí passei a ganhar as batalhas, depois os campeonatos, e fui ganhando uma visibilidade maneira. Hoje, uma galera me reconhece na rua, pede para tirar foto — diz, com orgulho.

A desenvoltura do garoto chamou a atenção de Julio Cesar da Costa, coordenador da Liga das Rodas Culturais do Estado do Rio e dono da agência de hip hop Container T, que o convidou para trabalhar com ele:

— O talento do Neo salta aos olhos. Quem vive o movimento hip hop sabe disso. Sua sensibilidade e sua inteligência mostram o quão grande é seu diferencial. Neo escreve muito, tem lírica, flow... Sua calma e velocidade de raciocínio nas respostas impressionam quem assiste a seus duelos.

Desde que começaram a parceria, em janeiro do ano passado, o rapper já gravou cinco músicas, disponíveis nas plataformas de streaming, e cinco clipes. O mais recente, “Não força”, lançado há duas semanas, tem 78 mil visualizações no YouTube. O próximo single, ainda sem nome, deverá ser lançado este mês.

— Meu sonho é viver de música. Quem me inspira é minha mãe, que me criou sozinha, sem estudo. Nossa vida foi difícil, só eu e ela na correria. Minha mãe já foi doméstica, arrumadeira de hotel, fez serviços gerais em hospital. Mas sempre quis que eu estudasse para ser alguém na vida. Todo mês consigo mandar um dinheirinho para ela, e isso me deixa muito feliz — resume Neo.

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