Sucesso no início dos anos 1900 e depois esquecida, obra de Júlia Lopes de Almeida ganha reedições

Na edição do GLOBO de 23 de maio de 1939, noticiava-se uma iniciativa de erguer um busto no bairro da Glória em homenagem à escritora Júlia Lopes de Almeida, que morrera cinco anos antes. “Ninguém tem o direito de a esquecer”, disse a escritora Iracema Guimarães Villela na reportagem. Mas esqueceram — por boa parte do século XX e início do XXI. Agora, no entanto, ela está no centro de um movimento que não quer eternizá-la em pedra, mas naquilo que ela mais sabia fazer: livros.

Christiane F.: O que aconteceu com a mulher que inspirou livro e filme há mais de 40 anos

Mais diversidade: como a literatura brasileira mudou desde antologia de melhores autores de 2012

No 160º aniversário de seu nascimento, editoras como a Hedra, a Janela Amarela e a Vermelho Marinho estão reeditando sua obra. A família também organiza a exposição “Júlia Lopes de Almeida no Museu Histórico da Cidade: O retorno de um fenômeno literário”, na Gávea, no Rio, de 17 de setembro a 14 de janeiro, em homenagem à carioca, uma das escritoras (entre homens e mulheres) de maior sucesso de crítica e público de sua época.

Júlia escrevia sobre temas que até eram tratados por outras mulheres — mas conquistou mais espaço do que as outras. E algumas de suas ideias não são de se jogar fora: “...os casamentos deveriam ser feitos, em qualquer época da vida, por contrato temporário, de um certo número de anos: cinco, dez, doze... Quem se desse bem renovaria o contrato, tal e qual como nas firmas comerciais; e quem não tivesse encontrado o seu ideal esperaria pacientemente a terminação do primeiro prazo e serenamente, legalmente, sem escândalo nem discussão, diria adeusinho a um período da vida em que não tivesse encontrado a felicidade sonhada, e trataria de pensar em outro rumo”, escreve ela em “Nessa mesma tarde”, do livro “Eles e elas” (de 1910, relançado pela Janela Amarela).

Tesouros da ABL: De obras raras a coleções particulares de Machado de Assis e Manuel Bandeira

Nesta mesma obra, reunião de crônicas publicadas no jornal O Paiz, Júlia alterna narradores masculinos e femininos. Quando escreve com a voz deles, usa a pena do deboche, com o tom aparvalhado e amedrontado com possíveis perdas de privilégios. Na voz delas, o discurso franco é sobre vontades e insatisfações como, por exemplo, as demandas do casamento. E nos contos de “Ânsia eterna” (1903), narra com crueza diversos tipos de violência contra a mulher: de abuso sexual de menor a abandono numa gravidez indesejada, passando pelo assassinato de uma filha por um pai.

Por aí, dá para entender sua popularidade.

—Até a década de 1930, Júlia era uma das autoras mais vendidas do Brasil. Depois, foi esquecida — diz Tomaz Adour, editor da Vermelho Marinho, que lança, no site Catarse, um financiamento coletivo para o box “Julinto”, com três livros. Um deles é “Dona Júlia”, de Filinto de Almeida, um livro de poemas até inéditos, que ele presenteou os amigos depois da morte da mulher.

Mas como um dos maiores sucessos literários do Brasil, que escrevia crônicas, contos e romances, muitos deles abolicionistas e feministas, simplesmente desapareceu por tanto tempo, sem ganhar sequer uma rápida menção nos currículos de literatura das escolas de várias gerações de hoje?

Anna Faedrich, professora de literatura brasileira da UFF e organizadora dos debates da exposição no Museu Histórico da Cidade responde sucintamente: questão de gênero. A história da literatura brasileira foi escrita por homens, que deixaram mulheres como Júlia — e tantas outras — de fora.

— É um processo comum com as escritoras desse período: depois que morrem, gradativamente vão sendo esquecidas, ao ponto de hoje tentarmos reinseri-las no cânone da literatura — diz Anna, que também organiza a reedição da obra de Júlia, a partir de setembro, pela editora Hedra. — “Ânsia eterna” traz questões da violência de gênero, um tema em pauta atualmente. Fala de feminicídio quando o termo nem existia.

Nascida no Rio em 1862, filha de portugueses, Júlia passou a infância e parte da juventude em Campinas. A Gazeta de Campinas foi o jornal que a acolheu por incentivo do pai, quando tinha 19 anos. De lá até sua morte, em 1934, foram diversas crônicas e folhetins, peças de teatro, ensaios e romances, tudo muito bem aceito pela intelligentsia (leia-se homens) cariocas... até tentar um espaço na Academia Brasileira de Letras (ABL). Aí já seria um passo grande demais para a época. Júlia participou das sessões preparatórias de fundação da instituição, em 1896, mas ficou fora da lista de fundadores. Entrou seu marido, o poeta e jornalista Filinto de Almeida.

— Ela é um nome importantíssimo na literatura. Quis entrar na Academia, mas não conseguiu — diz Nélida Piñon, secretária-geral da ABL. —Havia o pretexto de que, como era uma instituição para “brasileiros”, o machismo interpretava que “brasileiros” eram só os homens.

Dividida entre a carreira, a casa e os quatro filhos

O sucesso de vendas de Júlia na sua época dá para ser medido por um dos casarões em que ela morou em Santa Teresa. O engenheiro Cláudio Lopes de Almeida, de 92 anos, neto da escritora, conta que a propriedade foi adquirida com parte dos lucros de sua obra.

— A casa foi comprada com um pouco do dinheiro do Filinto e com o que ela ganhou escrevendo “A falência” — conta Cláudio, que, juntamente com a mulher, a atriz Beth Araújo, idealizou a exposição na Gávea.

Sobreviver de literatura e, ao mesmo tempo, cuidar da casa e de quatro filhos foi a receita para a aceitação de Júlia pela sociedade carioca.

— Ela construiu uma imagem pública de mãe que consegue conciliar o tempo com a carreira de escritora. E isso a possibilitou circular — diz a historiadora e autora de “A escrita feminista de Júlia Lopes de Almeida”, Gabriela Trevisan, ressaltando as ambiguidades da história da escritora. —Foi alguém que escreveu manuais de comportamento sobre o espaço doméstico, mas também contos como “Os porcos” (em “Ânsia eterna”), com críticas a uma gravidez indesejada.

Academia Brasileira de Letras em 125 anos: os principais momentos da história da 'Casa de Machado de Assis'

Júlia entendia o funcionamento do patriarcado e sua lógica. Se ela o ameaçasse logo de cara, não ia ter o espaço que merecia. Sua estratégia de aceitação começava pelo título. Quem diz que “A família Medeiros” é um romance abolicionista só pela capa? Ou que “Ânsia eterna” tem um conto sobre um padrasto que estupra a enteada?

— Em 1924, Ercília Nogueira Cobra publicou um ensaio chamado “Virgindade anti-higiênica”. Chrysanthème também tinha títulos superprovocativos. Aí, a crítica, feita por homens, já falava mal, muitas vezes sem ler — diz Anna Faedrich. — Júlia estava consciente de como tinha que agir.

Nesse contexto, reeditar Júlia — e suas contemporâneas mais aguerridas, ainda menos prestigiadas — é uma tarefa a que muita gente tem se proposto. Carolina Engel, da editora Janela Amarela, fundada em 2021, é uma delas. Já são seis livros da carioca no catálogo, e “Silveirinha” sai em agosto.

— Como todo clássico, reler esses livros é reler a nossa história, ainda que um pequeno estrato, já que dão um foco numa determinada parte da sociedade. O que melhoramos? Ainda há chance pra gente? —diz Carolina, que também publicou “A divorciada”, de Francisca Clotilde, e lança em breve obras de Cândida Fortes Brandão.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos