Sucesso nos palcos por décadas, 'Pluft, o fantasminha' chega aos cinemas com filme 3D cheio de efeitos

“Uma casa perdida na areia branca perto de um mar verde.” Com esta descrição simples e inspiradora começa um dos maiores clássicos já escritos para as crianças brasileiras: “Pluft, o fantasminha”, peça de Maria Clara Machado (1921-2001). Encenada pela primeira vez em 1955 no Tablado (espaço fundado no Rio pela dramaturga quatro anos antes), ao longo do tempo o sucesso dos palcos virou livro, série, disco e filme. Ou melhor, filmes: a nova versão para as telonas, dirigida por Rosane Svartman, chega hoje a 727 salas de cinema.

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Com sucessos para o público adulto (“Como ser solteiro”), juvenil (“Malhação”) e infantil (“Tainá - A origem”), Rosane conta que adaptar “Pluft” era um sonho antigo:

— É a primeira peça que eu me lembro de ter visto. Nunca esqueci essa história. A poesia permanece porque fala sobre crescer, amadurecer, sobre ter medo do que é diferente e como o afeto nos ajuda a superar este medo.

O longa segue a trama original: Maribel (Lola Belli) é sequestrada pelo pirata Perna-de-Pau (Juliano Cazarré), que busca o tesouro do avô da menina, o falecido Capitão Bonança Arco-íris. Ambos acabam na casa abandonada do capitão, hoje habitada pela Mãe Fantasma (Fabiula Nascimento), pelo Tio Gerúndio (José Lavigne) e, claro, Pluft (Nicolas Cruz), o fantasma que tem medo de gente.

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Há algumas atualizações no roteiro de José Lavigne e Cacá Mourthé, sobrinha de Maria Clara e detentora dos direitos sobre a obra. Enquanto a peça se passa quase toda em um sótão, o filme passeia por outros cenários. Além disso, a adaptação empoderou a protagonista.

— O filme traz uma Maribel mais potente, menos bobinha. É uma menina mais pros dias de hoje, mais interessante — diz Cacá.

A nova Maribel é vivida pela atriz Lola Belli, 15 anos, que tinha apenas 9 nas filmagens, realizadas entre 2016 e 2018.

— É uma Maribel diferente da criada originalmente, que enfrenta os seus medos, mas que também chora e mostra a sua sensibilidade. Acho que muitas meninas vão poder se inspirar nessa força que ela tem — destaca Lola, que lembra ter sentido medo a primeira vez que viu Juliano Cazarré como o Pirata Perna-de-Pau.

Fazendo sucesso como o peão Alcides na novela “Pantanal” (TV Globo), Juliano conta como “encontrou” seu vilão:

— Não quis fazer um pirata que ninguém nunca tinha feito, mas um pirata clássico de história infantil. Rouco, com cara de mal e um pouco atrapalhado. Na verdade, é um resumo do que já faço com os meus filhos, brincadeiras de inventar vozes e criar personagens.

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Efeito especial aquático

Em 2012, Rosane começou a estudar a ideia de adaptar a obra para os cinemas. Mas, antes, recebeu um “dever de casa” de Cacá.

— Ela me falou: “o Pluft não pode ser um menininho transparente cinza pendurado. Você tem que achar uma forma de transportar a magia do teatro para o cinema”. Eu saí de lá com a cabeça a mil, porque realmente iria fazer um menino pendurado, transparente e cinza — lembra a diretora, que a partir daí tratou de buscar uma forma diferenciada de retratar o fantasminha. — Fiquei muito tempo quebrando a cabeça para saber como poderia fazer um fantasma viável para produções brasileiras e ao mesmo tempo competitivo, porque chegamos aos cinemas lado a lado com filmes que investem muito em efeitos especiais.

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Após passar um ano tentando descobrir a melhor forma de criar um fantasma, que não exigisse altos custos, a cineasta foi apresentada pelo diretor de fotografia Duda Miranda ao clipe da música “Only you”, da banda Portishead, todo rodado debaixo d’água. Impressionada com o visual, Rosene decidiu seguir por este caminho e convocou os amigos da filha para gravar um teste improvisado na piscina em que seu sobrinho fazia natação. Gravado o teste, a diretora voltou à Cacá, que gostou do que viu.

Longa espera

Entre o nascimento da ideia e o lançamento do filme, 10 anos se passaram. O ator e cantor Arthur Aguiar, que interpreta o marinheiro Sebastião, lembra que nem conhecia a esposa, Maíra Cardi, e não era pai, quando gravou suas cenas para o filme, no final de 2016. Uma segunda etapa de filmagens ocorreu em 2018, apenas para as cenas com fantasmas, rodadas em um estúdio com um piscina com 7 metros de profundidade. Rosane atribui a demora ao processo mais artesanal de produção, que exigiu muito estudo e preparação, e à pandemia, uma vez que o longa está pronto desde 2020.

— Tínhamos que esperar pelos cinemas. O filme foi feito e pensado para ser em 3D, tem um ingrediente sensorial. No teatro, a Prima Bolha fazia bolhas de sabão de verdade. Então, fizemos bolhas que vão até a plateia, além de outros exemplos — aponta a diretora.

Nos palcos do Tablado, “Pluft” ganhou um total de oito adaptações, isso sem falar em montagens na Europa, nos EUA e na América Latina. Cacá Mourthé relembra que sempre que o teatro passava por um momento de dificuldade financeira, sua tia acionava o fantasminha para ajudar. Mais do que sobrinha, Cacá também é uma espécie de herdeira intelectual de Maria Clara. Ela interpretou Pluft em duas montagens da peça, em 1977 e 1985, e dirigiu outras duas para os palcos, em 2003 e 2013, ambas com Cláudia Abreu no papel do fantasma.

— “Pluft” sempre será uma obra-prima, para mim a maior obra dramatúrgica brasileira para crianças. Sempre será atemporal, pois fala de maneira poética e simples sobre nossos medos, preconceitos sobre o desconhecido, sonhos e sobre a coragem de crescer e ir pro mundo — destaca Cláudia Abreu.

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