Sucesso olímpico impulsiona projetos sociais de skate no país

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Uma das lições que o atletas do skate quiseram transmitir na estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos, em Tóquio, foi a de que o esporte é “paz e amor”, um estilo de vida que vai além da competição. E neste contexto, após protagonismo em solo japonês — com direito a duas medalhas de prata, com Rayssa Leal e Kelvin Hoefler, ambos no street —, a Confederação Brasileira da modalidade (CBSk) vem acompanhando um crescimento acelerado de projetos sociais envolvendo a modalidade em todas as regiões do Brasil.

Antes de Tóquio, 85 ONGs estavam no radar da confederação. Poco mais de três meses depois, são 104 entidades que receberão auxílio da entidade. Segundo dados do Datafolha, de 2019, há 8,5 milhões de praticantes de skate no país.

Dos projetos, somente 25 estão constituídos como entidade, com CNPJ ativo e adequado à área de atuação social e aptos a receber verba via Lei de Incentivo Fiscal.

— Nosso objetivo é ensiná-los a caminhar sozinhos, instruí-los para que possam buscar patrocínio, abrir caminhos — explica Eduardo Musa, presidente da CBSk.

Além disso, Musa disse que a CBSk fará doações de material esportivo e aportes financeiros para 30 destas entidades, durante o ano de 2022.

Dois editais estão abertos até terça-feira para a compra de equipamentos de segurança e skates. As entidades receberão R$ 12 mil (durante todo o ano que vem). Este dinheiro é oriundo do patrocínio das Loterias Caixa. A CBSk tem acordo que vai até junho de 2022 e prevê recebimento de R$ 6,43 milhões, dos quais R$ 1,2 milhão será para projetos sociais.

Distribuição

Segundo a entidade, o Sudeste concentra o maior número de projetos parceiros: 54, sendo 36 em São Paulo, 11 no Rio, seis em Minas Gerais e um no Espírito Santo. O Nordeste, região de Rayssa Leal, a atual estrela da modalidade, tem 16 projetos. Nenhum no Maranhão, onde ela nasceu. O Sul tem hoje 21 projetos, sendo 11 em Santa Catarina, seguido pelo Centro-Oeste, com nove, e o Norte, com quatro.

— A grande força do skate sempre foi a transformação social. E estas parcerias não visam desempenho esportivo ou descobrir atleta para competição. Claro que se surgir, será lapidado em outro local, com esta linha. Muitas crianças destes projetos sequer comem direito, precisam estar inseridas em atividades como esta.

O CDD Skate Art, na comunidade Cidade de Deus, no Rio, já caminha sozinho. Tem apoio, mas quer ir além. Incluído na lista da confederação, a ONG, fundada em 2017, quer tentar patrocínios via Lei de Incentivo Fiscal.

Denis Nascimento Resende, de 36 anos, formado em produção cultural, foi quem começou o processo. Ele era dono de duas lojas de skate e frequentava a pista da comunidade. Quando o negócio fechou, ele ficou perdido:

— Não sabia muito o que fazer. Foi quase como um chamado. Quis realizar uma intervenção esportiva e cultural na Cidade de Deus por causa da intervenção militar à época. Era um evento pontual que se transformou em missão, trabalho social — lembra Denis, que tem time grande de voluntários para tocar o projeto que atende cerca de 80 crianças e adolescentes, de 6 a 17 anos, durante dois dias da semana.

— Uma galera com sensibilidade chegou junto. E, para ter alguma transformação, adotamos aquela praça, aquela pista e aquelas pessoas. Porque o local é no meio de um barril de pólvora. Mas não temos medo. É amor.

Para ele, a parceria com a CBSk vai além da ajuda financeira que é bem-vinda. Coloca a ONG em uma “teia” de contatos com outras iniciativas no Brasil:

— Roemos o osso e agora, com o skate destaque na Olimpíada, podemos subir um degrau. Estamos finalizando processo para adquirir o CNPJ e tenho boas expectativas para 2022.

Crescimento feminino

Tamires Silva, de 29 anos, criou o Skate_paraelas, em Pará de Minas (MG), em junho. O projeto que atende exclusivamente meninas — o único na relação da CBSk com este perfil —, não tem patrocínio nem apoio da prefeitura local. Uma marca de tênis de skate abraçou a causa e doará pares às meninas.

Hoje são cerca de 60, entre 5 e 27 anos. Elas se encontram na pista do Parque do Bariri todas as terças e quintas para andar de skate, para rodas de conversas e palestras. A idealizadora diz que a meta é empoderar as meninas e discutir temas importantes como inclusão social, cidadania e respeito. Ela conta que sofreu preconceito por ser mulher quando atuava na área de eventos de skate e que vislumbra mudanças no esporte de Rayssa Leal.

— O skate ainda é um meio machista e vi que muitas meninas começavam no esporte e paravam. Era pura falta de incentivo. Com o projeto, quero que elas evoluam juntas, se apoiando e se incentivando — explica Tamires, que corre atrás de patrocínio. — Queria ao menos dar lanche e o vale transporte. Sei que o projeto pode fazer diferença. Não é fácil sofrer preconceito por causa do gênero, da classe social e raça.

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