Suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier foi um ato político, diz Paulo Markun

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A operação da Polícia Federal que investigava desvios de verba na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e que culminou no suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier, dias após sua prisão, é o retrato do Brasil, diz Paulo Markun, autor de "Recurso Final", livro recém-lançado sobre o caso.

Para o jornalista, ainda que limitado à Santa Catarina, o clima na época da operação Ouvidos Moucos, realizada em setembro de 2017, era que valia tudo se o objetivo era combater a corrupção. "Na ditadura, havia prisões ilegais, sequestros, torturas, mas tudo era feito ao arrepio da lei", afirma.

"Essas ações [como a realizada na UFSC] foram feitas com base na lei, não foi sequestro, [foi] uma prisão autorizada por uma juíza, 24 horas depois cancelada. É sinal de que essas instituições não estão funcionando como deveriam."

A fim de entender todos os meandros da operação da PF, Markun leu mais de 20 mil páginas de interrogatórios e declarações. "O principal trabalho foi o garimpo de tentar enxergar algo que tinha alguma relevância e transformar isso numa coisa minimamente palatável. Reconheço que há certos capítulos que são difíceis de avançar, são muitos nomes e informações."

No livro, que levou pouco mais de dois anos para ser produzido, ele concentra esforços em contar a trajetória de Cancellier, da infância na cidade catarinense de Tubarão à fase adulta, quando atuou como jornalista, assessor e professor universitário. E, é claro, como foi sua detenção pela polícia e os dias que se seguiram, culminando em sua morte.

A Ouvidos Moucos veio na esteira de outras investigações da PF em universidades públicas do Sul do país, na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), que também apuravam irregularidades na concessão de bolsas.

No caso de Santa Catarina, a polícia divulgou que havia um esquema de desvio de R$ 80 milhões dos cursos do programa de Educação a Distância (EaD) e, por isso, prendeu seis professores e o reitor. O que motivou a ação foi uma denúncia interna da universidade.

Taísa Dias, então coordenadora do programa de EaD de administração, citou a existência da "linha do tempo", uma prática que distribuía bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) para professores atuantes e também para quem havia prestado algum serviço, mas que ainda não havia sido remunerado –o órgão do MEC (Ministério da Educação) não permitia o pagamento de mais de uma bolsa por mês para a mesma pessoa. Era uma forma de caixinha para pagar valores atrasados.

"Há irregularidades discutíveis no ponto de vista administrativo. Para provar essa tese preliminar, que era uma quadrilha que tinha roubado milhões e milhões, ouviu-se muita gente, e diziam ‘tá aqui a documentação, recebi dinheiro, mas prestei serviço’", afirma.

"Sobram, no fim das contas, um saldo de questões que não são ortodoxas, mas que talvez pudessem ser resolvidas com outras providências administrativas, e não essas de prisão preventiva, condução coercitiva, proibição de entrar na universidade."

Também pesou na operação Ouvidos Moucos uma carta enviada pelo então corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado, sobre pressões do reitor sobre seu trabalho, o que foi entendido como obstrução da Justiça.

"É outra discussão complexa. Ao avocar [ato de trazer para a reitoria] um inquérito do corregedor, Cancellier estava agindo dentro das normas permitidas. E ele fez isso abertamente, claramente, não dá a impressão de ter sido uma manobra para abafar a investigação. Aliás, ele nem sabia naquele momento que ele mesmo estava sendo citado ali, tinha acabado de chegar na história", explica.

"O nó da questão é que a PF entrou em campo nessa investigação no momento em que coincide com a chegada da Érika Marena a Florianópolis", diz Markun, referindo-se à delegada que estava na força-tarefa da Lava Jato e que havia sido recentemente transferida para a capital catarinense para cuidar da Delegacia de Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro. Em novembro de 2018 a Justiça aceitou a denúncia.

Cancellier foi solto no dia seguinte à sua prisão, mas foi proibido pela Justiça de entrar na UFSC.

Para Markun, o suicídio do reitor, que se jogou no vão livre de um shopping em Florianópolis, não teve uma carta-testamento como a deixada por Getúlio Vargas, mas foi um ato deliberado e político. "Com a atitude radical e absoluta do reitor, de perder a própria vida, ele demonstra que a indignação era tamanha, e o desespero, que não tinha outra saída."

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