Superávit no balanço de pagamentos russo bate recorde por exportações de energia

A Rússia registrou, no segundo trimestre de 2022, um superávit recorde no balanço de pagamentos, resultado direto da alta nos preços — e das vendas — de produtos do setor de energia, um fator que vem ajudando o governo de Vladimir Putin a superar os efeitos dos pacotes de sanções internacionais ligadas à guerra na Ucrânia.

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Segundo os números do Banco Central da Rússia, o superávit no segundo trimestre foi de US$ 70,1 bilhões, o maior número para o período desde 1994. Nos seis primeiros meses do ano, o superávit chegou a US$ 138,5 bilhões.

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O volume de importações, como destaca o Banco Central russo, despencou no primeiro semestre: entre janeiro e março, ele foi de US$ 88,7 bilhões, contra US$ 72,3 bilhões entre abril e junho. Apesar de manter um patamar elevado, as exportações registraram queda no segundo trimestre, US$ 153,1 bilhões, menos do que os US$ 166,4 bilhões do primeiro trimestre, com o setor de energia respondendo por boa parte desses números.

— Um grande superávit comercial diz muito sobre o que está dando certo para a Rússia, com altos preços de commodities e uma demanda consistente de muitos parceiros de exportações — afirmou, à Bloomberg, Scott Johnson, economista especialista em Rússia. — Mas também é um sintoma de problemas, com a queda nas importações causando problemas ao redor da economia.

Além do fornecimento de armas, equipamentos não letais e dinheiro para a Ucrânia, uma outra linha de ação dos governos ocidentais tem sido atacar a economia russa, como forma de barrar o acesso de Putin aos meios para sustentar o conflito. Empresas locais perderam espaço nos principais mercados, como Europa e EUA, e instituições financeiras encontram dificuldades para realizar transações internacionais.

Mas a ausência de ações mais ousadas contra as exportações de produtos como gás e petróleo, bases da economia russa, limitou os impactos: poucos países, mesmo entre os aliados da Ucrânia, concordaram em suspender as importações de commodities do setor de energia russo.

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Além disso, as vendas para Rússia e China seguem em patamar elevado, embora venham registrando quedas recentes. Nesta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “está quase certa” a compra de diesel russo, que poderia chegar ao Brasil “em até dois meses” a um preço mais baixo.

Neste cenário, o Banco Central russo tem obtido sucesso na tarefa de manter o rublo em níveis estáveis — no mês passado, a moeda atingiu seu maior nível em sete anos em relação ao dólar, e nesta segunda-feira operou abaixo do patamar de 60 rublos para cada dólar americano. Sob o comando de Elvira Nabiullina, o BC também adotou controles estritos de capital, como forma de limitar a demanda por moeda estrangeira.

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Contudo, como a própria Nabiullina reconhece, a continuidade das pressões externas pode fazer com que a economia russa jamais retorne ao cenário anterior à guerra na Ucrânia.

— Me parece que é óbvio a todo mundo que não será como era antes — afirmou a presidente do BC russo, durante intervenção no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, no mês passado. — As condições externas mudaram a longo prazo, se não de forma permanente.

Segundo o Banco Central, a expectativa é de queda de 7,8% no PIB do país em 2022, um número razoavelmente melhor do que as primeiras previsões, e que pode mudar em caso de melhoras (ou pioras) no cenário local.

Arma política

Nesta segunda-feira, a Gazprom, gigante do setor de gás da Rússia, anunciou o início de uma manutenção de 10 dias do gasoduto Nord Stream 1, que liga os poços russos à Alemanha através do Mar Báltico. Por ano, passam por ali cerca de 55 bilhões de m³ de gás natural, e embora as operações estejam previstas para serem retomadas no dia 21, quinta-feira da semana que vem, há o temor de uma suspensão prolongada.

No final de junho, quando a manutenção já estava confirmada, o ministro da Economia alemão, Robert Habeck, sinalizou que Berlim deveria fazer planos para possíveis surpresas.

— Com base no que vimos, não seria surpreendente se algum pequeno detalhe técnico for encontrado e eles [Gazprom] digam que “agora não podemos mais ligar de volta” — disse o ministro, em um evento oficial.

Em anos anteriores, a manutenção foi concluída no prazo previsto, e o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que a suspensão já estava programada, e rejeitou a ideia de que seu governo estava “inventando” reparos a serem feitos.

Integrantes do governo russo também argumentam que tais temores poderiam ter sido evitados caso a segunda perna do gasoduto, o Nord Stream 2, tivesse sido inaugurada: tecnicamente, a obra foi concluída, mas a pressão dos EUA e o início do conflito puseram seu futuro em xeque. Segundo o projeto, o novo gasoduto dobraria a capacidade de envio de gás pelo Mar Báltico.

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Antes do conflito, 40% de todo o gás consumido pela Europa vinha da Rússia, e diante da pressão política e econômica do continente sobre Moscou, a possibilidade de seu uso como uma arma por Vladimir Putin sempre foi considerada.

Em março, Moscou anunciou que todos os pagamentos pelo produto deveriam ser feitos em rublos, através de um sistema desenvolvido localmente. Desde então, vem sendo registrada uma queda no fluxo, ou mesmo um corte no fornecimento, para países que não concordaram com a mudança.

Nesta segunda-feira, a Gazprom anunciou um corte de um terço nos envios de gás para a Itália, uma das principais compradoras do produto no continente. Ao invés dos 32 milhões de m³ diários, agora serão apenas 21 milhões de m³ por dia. Desde junho, o fornecimento já foi cortado pela metade, em relação aos níveis anteriores à guerra — a Eni, gigante do setor energético italiano, afirmou em maio que abriria uma conta especial para realizar pagamentos em rublos, mas os russos creditam, neste caso, a queda no suprimento a problemas técnicos.

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Hoje, os reservatórios italianos de gás natural estão com cerca de 60% de sua capacidade, no momento em que o país enfrenta uma série de problemas climáticos, como uma seca prolongada e ondas de calor que afetam a produção de energia — o gás natural desempenha papel importante na matriz energética local.

Na semana passada, o presidente do BC italiano, Ignazio Visco, afirmou que o país deverá entrar em recessão caso a Rússia corte todo o suprimento de gás.

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