Superbactérias se multiplicaram em um dos principais rios de MG depois da tragédia de Brumadinho, diz estudo

Nos meses que se seguiram ao desastre de Brumadinho, bactérias resistentes a metais e a antibióticos proliferaram nas águas do Rio Paraopeba, um dos mais importantes de Minas Gerais, revela um novo estudo. Apresentada quatro anos após o desastre, em 25 de janeiro de 2019, a pesquisa sugere que o rejeito de mineração de ferro pode causar contaminação maior do que a imaginada até agora.

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O excesso de ferro e de outros metais na água despejados pela lama de mineração mudou o microbioma, isto é, a diversidade de micro-organismos do Paraopeba. E, segundo os autores do estudo, favoreceu a proliferação das bactérias que são naturalmente resistentes, principalmente, ao ferro. O problema é que essas mesmas bactérias são também resistentes aos antibióticos mais comuns, explicam os pesquisadores.

— A principal conclusão de nosso estudo é que o rejeito de mineração não é inerte. Ele pode, sim, levar a importantes alterações biológicas, e o impacto disso para a saúde humana e o ambiente é desconhecido — afirma o microbiologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Fabiano Thompson, um dos autores do trabalho.

O desastre de Brumadinho matou 272 pessoas, três das quais permanecem desaparecidas. Até hoje, quatro anos depois da tragédia, os bombeiros ainda buscam essas pessoas e a Polícia Civil trabalha para a identificação das vítimas — a última foi em dezembro. Quando a barragem da mina de Córrego do Feijão, da Vale, se rompeu, lançou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeito no meio ambiente.

Após varrer as instalações da mina, a onda de lama chegou ao Rio Paraopeba, no segundo maior desastre ambiental do Brasil, de magnitude inferior apenas ao rompimento da barragem da mina de Fundão, da Samarco (controlada pela Vale e a BHP Billiton), em Mariana, em novembro de 2015.

Aceito para publicação na revista científica Science of the Total Environment, o estudo conta, além da UFRJ, com pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da Universidade Estadual do Norte Fluminense e da Universidade Federal Rural da Amazônia.

O Paraopeba foi arrasado pelo rejeito de mineração. Até hoje apresenta índices acima dos valores máximos pela legislação de alumínio dissolvido, manganês total, ferro total e ferro dissolvido, segundo o boletim mais recente de monitoramento da qualidade da água do rio, emitido pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), divulgado em 30 de dezembro, com coletas de novembro.

“O Igam reforça que ainda se mantém a recomendação de não utilização da água bruta do Rio Paraopeba para qualquer fim, como medida preventiva, no trecho que abrange os municípios de Brumadinho até o limite da Usina Hidrelétrica de Retiro Baixo, em Pompéu, (aproximadamente a 250 km de distância do rompimento)”, informa o boletim.

Essa análise oficial, porém, não contempla a investigação dos micro-organismos do rio. Os pesquisadores investigaram as mudanças na biodiversidade aquática após o desastre. Coletaram amostras uma semana após o acidente, em 1º de fevereiro de 2019, e quatro meses depois, de 27 a 29 de maio de 2019. Foram colhidas amostras em oito pontos do Paraopeba.

— Na coleta imediatamente após o desastre, a lama estava concentrada em Brumadinho. O restante dos pontos amostrados a jusante (rio abaixo) não tinha sido afetado em fevereiro. Esses pontos foram afetados apenas semanas ou meses depois — diz Thompson.

Ele reconhece que ainda não é possível dizer que o desastre foi a causa original da proliferação das bactérias. Mas é possível afirmar que, depois do aumento de concentração de ferro e outros minerais, a população delas explodiu.

O estudo destaca que a área impactada pelo desastre criou “pontos de proliferação de micróbios resistentes a antibióticos, que representam sérios riscos em potencial para a saúde humana”.

Foram achadas bactérias Klebsiella, Bacillus, Pseudomonas, Enterococcus, Escherichia e Enterobacter e detectado um aumento significativo da resistência a antibióticos comuns como amicacina, ampicilina, clavulanato, ceftriaxona, cefalotina e meropenema.

Vale vai analisar estudo

Procurada, a Vale disse que “desconhece o estudo e vai analisá-lo oportunamente”. A empresa lembrou que a recuperação do Paraopeba é uma das suas prioridades e faz parte de um plano de reparação iniciado em 2019, “em conjunto com a implantação de uma série de medidas emergenciais para evitar que os rejeitos continuassem sendo carreados para o rio”.

“O Acordo de Reparação Integral prevê que este plano seja custeado pela Vale, sendo acompanhado e validado pelos órgãos competentes e auditorias ambientais. Essas ações têm valor estimado de R$ 5 bilhões”, disse a empresa, em nota. “Além da recuperação ambiental, a Vale é responsável pelo pagamento e realização de ações de compensação ambiental que possuem o orçamento total de R$ 1,55 bilhão”.

A companhia informou que, a partir dos parâmetros tradicionais de qualidade da água, faz mantém o monitoramento de 70 pontos do rio, em que já foram coletadas mais de 57 mil amostras. A Vale acrescentou que também faz o “monitoramento automático” do Paraopeba, por meio de 11 estações que permitem a medição remota de hora em hora, com transmissão de dados via satélite, aumentando a eficiência das informações.

Especialistas da área reconhecem que as tragédias de Brumadinho e Mariana (que deixou 19 mortos, também em Minas Gerais) endureceram as leis de punição aos responsáveis por descasos. No entanto, de acordo com Carlos Martinez, do Instituto de Engenharia Mecânica da Universidade Federal de Itajubá, o Brasil não tem um sistema de fiscalização próprio.

— A lei determina que a empresa contrate uma empresa de vistoria e apresente o laudo garantindo a segurança. Agora, as penas ficaram mais duras e até quem assina esse laudo pode ser punido. Mas o Estado não tem fiscalização própria. E precisava ter uma equipe com equipamentos adequados para visitar uma amostragem dessas barragens — avalia Martinez.

Enquanto isso, os acidentes vão se repetindo. De acordo com o mais recente Relatório de Segurança de Barragens, de 2021, o número de acidentes registrados aumentou nos últimos anos. Até 2018, a média foi de três ao ano — o que era considerado alarmante. Entre 2019 e 2021, a média triplicou e atingiu 18 notificações por ano. Só em 2020, foram 29 registros. Esses acidentes, no entanto, incluem eventos mais brandos, em represas de água.

Enquanto isso, os casos vão se multiplicando. De acordo com o mais recente Relatório de Segurança de Barragens (RSB), de 2021, o número de acidentes registrados aumentou muito nos últimos anos. Até 2018, a média foi de três ao ano — o que era considerado alarmante. Entre 2019 e 2021, a média triplicou e atingiu 18 notificações por ano. Só em 2020 foram 29 registros.

Além de rompimentos graves, como em Brumadinho e Mariana, esses acidentes também contabilizam eventos mais brandos, especialmente em represas de água, cujo risco é bem menor do que as de mineração. Desde 2020, não foram registradas vítimas fatais.

“A maioria significativa dos acidentes e incidentes ocorreu devido a intensas precipitações, que ocasionaram cheias históricas que acabaram por transbordar muitas barragens, causando o rompimento de algumas”, informou o relatório.

O relatório de 2021 também apresenta o número mais alto de barragens que preocupam. São 187, um aumento de 57% na comparação com o ano anterior. Metade deles, por má conservação e o restante por outros motivos. “Em relação às 122 barragens citadas em 2020, 83 barragens ainda permanecem na lista, e outras 39 foram retiradas, pois seus empreendedores realizaram ações de recuperação e adequação, diminuindo, assim, sua criticidade. Por fim, 104 novas barragens foram citadas, sobretudo pela incremento nos números da ANM (30 barragens)”, diz o relatório.

Leia aqui a nota completa da Vale:

Sobre o estudo

A Vale desconhece o estudo e vai analisá-lo oportunamente.

Desde janeiro de 2019, o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento mantêm a recomendação de não utilização da água bruta do rio Paraopeba, como medida preventiva, entre Brumadinho e Pompéu, considerando os parâmetros tradicionais de qualidade da água.

Utilizando destes mesmos parâmetros, a Vale mantém o monitoramento do rio em 70 pontos. Já foram coletadas mais de 57 mil amostras, em um trabalho que envolve 250 profissionais especializados.

Há também o monitoramento automático do rio, através de 11 estações, o que permite a medição remota de hora em hora, com transmissão de dados via satélite, aumentando a eficiência das informações.

Recuperação do Rio Paraopeba

A recuperação do rio Paraopeba e da qualidade de sua água é uma das prioridades da empresa. As ações de recuperação do rio fazem parte do Plano de Reparação da Bacia do Paraopeba iniciado em 2019, em conjunto com a implantação de uma série de medidas emergenciais para evitar que os rejeitos continuassem sendo carreados para o rio Paraopeba. O Acordo de Reparação Integral prevê que este Plano seja custeado pela Vale, sendo acompanhado e validado pelos órgãos competentes e auditorias ambientais até sua conclusão, de forma a garantir a reparação ambiental nos termos do que foi previsto pelo Acordo. Essas ações têm valor estimado de R$ 5 bilhões, sendo adotadas as ações necessárias e competentes para recuperação do meio ambiente afetado pelo rompimento.

Além da recuperação ambiental, a Vale é responsável pelo pagamento e realização de ações de compensação ambiental que possuem o orçamento total de R$ 1,55 bilhão.

Novo sistema de captação do rio Paraopeba

A Vale esclarece que o novo sistema de captação do rio Paraopeba, em Brumadinho, está sendo construído em trecho à montante e não impactado do rio - a cerca de 2km da confluência com o ribeirão Ferro-Carvão. O local da captação foi previamente validado pela Copasa e auditoria técnica independente, conforme previsto no Termo de Compromisso firmado com o Ministério Público Estadual, Estado de Minas Gerais e demais compromitentes.

A empresa esclarece, ainda, que a obra passa por ajustes finais para operação assistida, seguindo o cronograma entregue às instituições de Justiça e que, quando estiver em operação, a água captada será destinada a Estação de Tratamento da Copasa.