Superexploração do solo ameaça a 'sobrevivência' humana, alerta ONU

A superexploração do solo ameaça degradar uma superfície do tamanho da América do Sul em menos de três décadas, razão pela qual recuperar um uso sustentável das terras é questão de "sobrevivência", alerta um relatório da ONU publicado nesta quarta-feira (27).

"Nossa forma de gerir e usar os recursos terrestres ameaça a saúde e a sobrevivência de muitas espécies da Terra, inclusive a humana", resumiu à AFP Ibrahim Thiaw, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês), a instância que pediu o informe.

"O statu quo não é uma opção viável para a nossa sobrevivência e prosperidade", emendou.

Como diz a 2ª edição da "Perspectiva Global da Terra", o setor alimentício é responsável por 80% dos desmatamento e usa 70% da água doce do mundo. Além disso, é o principal motor de extinção das espécies.

"O risco de mudanças ambientais generalizadas, repentinas ou irreversíveis vai aumentar", pondo em perigo até metade do PIB mundial, cerca de 40 trilhões de dólares.

A próxima reunião da Convenção, formada por 197 partes, será celebrada em Abidjan (Costa do Marfim) a partir de 9 de maio. Na ordem do dia está a adaptação às secas, que se multiplicam devido às mudanças climáticas, a transição para uma agricultura sustentável e, de forma geral, recuperar a boa saúde das terras cultivadas.

- Ritmo intenso -

Ao menos 70% do solo livre de gelo no mundo foram transformados para seu uso pelo ser humano (infraestruturas, alojamento, agricultura), e a maioria está degradada, o que faz diminuir seu rendimento.

"Já não resta muita terra", explicou à AFP Barron Orr, encarregado científico da UNCCD. "E, no entanto, continuamos vendo um ritmo alto de mudanças nos usos".

As mudanças vão ao encontro da concentração em poucas mãos: 1% das empresas agroalimentares controlam 70% das terras agrícolas mundiais, destacou o relatório. No lado contrário, 80% das explorações representam apenas 12% do solo agrícola.

O objetivo principal da UNCCD é chegar à "perda líquida zero" em cada país na questão da degradação dos solos até 2030 em relação ao ano de referência, 2015.

Algo que também ajudaria a manter o principal compromisso do Acordo de Paris sobre o Clima: deixar o aquecimento global abaixo dos +2 ºC, como lembra Ibrahim Thiaw.

"Os solos degradados emitem CO2 (uma das principais causas do aquecimento global)", afirmou Thiaw. "Colocá-los em seu estado natural poderia deixar esse CO2 no lugar".

O relatório avaliou diferentes cenários até 2050. Se nada for feito, seriam liberados 250 bilhões adicionais de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera, quatro vezes as emissões anuais atuais de gases do efeito estufa.

Mas se os solos forem restaurados e protegidos, estes poderiam armazenar 300 bilhões de toneladas em relação a 2015, o equivalente a cinco anos de emissões no nível atual.

- Estratégico -

Diante da ameaça de uma "sexta extinção em massa", isso permitiria preservar a biodiversidade. Além disso, a conservação de espaços naturais permite reduzir a transmissão de vírus de animais selvagens para o ser humano, como poderia ter ocorrido com a covid-19.

"Nossa reflexão deve ser mais estratégica", destacou Barron Orr.

O relatório recomendou, pela primeira vez, reforçar os direitos à terra dos povos originários como uma forma de proteger o clima e a biodiversidade.

Os representantes de alguns destes povos, frequentemente privados de suas terras ancestrais, receberam a notícia com ceticismo.

"Acolhemos com gosto nossos aliados nesta batalha, inclusive atores econômicos, mas não deixaremos que nos usem para um greenwashing (ndr: maquiagem verde)", advertiu o venezuelano José Gregorio Diaz Mirabal, representante de 511 grupos originários da bacia do Amazonas.

Por outro lado, uma convenção da ONU sobre a biodiversidade se reunirá em breve para buscar um acordo que converta 30% da superfície da Terra em áreas protegidas.

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