Superliga da Europa: o que os grandes clubes têm a ganhar com o torneio

Simon Jack - Editor de Negócios da BBC News
·4 minuto de leitura
Avram Glazer, Joel Glazer e Bryan Glazer
Avram Glazer, Joel Glazer e Bryan Glazer, na foto, fazem parte da família que detém uma participação majoritária no Manchester United, embora Avram tenha vendido algumas de suas ações em março

Os torcedores de esportes adoram desafios — disputas emocionantes, imprevisíveis, que podem terminar em glória ou derrota. Mas os donos de empresas geralmente odeiam exatamente isso.

Proprietários e gerentes de negócios de clubes de futebol estão com um problema peculiar nesta pandemia.

Como me disse um ex-presidente-executivo de um clube da Premier League: "Não saberei até o último dia da temporada se meu orçamento para o próximo ano será de 170 milhões de libras (R$ 1,3 bilhão) ou 70 milhões de libras (R$ 544 milhões)".

Isso não é apenas quase impossível de gerenciar, mas tem outra consequência muito importante. Empresas com receitas estáveis valem muito mais do que aquelas com ganhos irregulares.

No jargão dos negócios, isso é conhecido como obter um "múltiplo" maior — empreendimentos com alta volatilidade valem em média cinco vezes a sua receita anual; enquanto negócios estáveis valem até 20 vezes ou mais.

Gigantes contra pequenos

É disso que se trata a Superliga Europeia — fazer com que os clubes envolvidos valham mais, eliminando o risco de serem rebaixados ou de não se classificarem para a Liga dos Campeões.

Distintivos dos clubes da Superliga Europeia
Distintivos dos clubes da Superliga Europeia

Este é o momento pelo qual muitos donos de times de futebol estavam esperando — especialmente os donos americanos de Liverpool, Manchester United e Arsenal.

Os defensores da Superliga dizem que a Liga dos Campeões existente era um produto ruim — muitos jogos sem sentido entre times pequenos e gigantes do futebol europeu, antes de a competição chegar a um estágio interessante, mais perto do final.

Eles também argumentam que um topo financeiro mais estável na pirâmide do futebol, onde fica a elite, é necessário para garantir que recursos cheguem aos clubes menores através de um efeito cascata.

Mas muitos torcedores argumentam que a perspectiva de uma derrota trágica do Real Madrid no seu estádio, o Santiago Bernabeau, ou do Manchester United, em Old Trafford, é parte essencial do jogo — e que jogos muito frequentes apenas entre os grandes clubes tornariam monótono o que hoje em dia é considerado um evento raro e especial: a disputa de um clássico entre os gigantes.

Os apoiadores da Superliga disseram à BBC que a proposta atual não é uma tática extrema de negociação para fazer a Uefa, órgão regulador do futebol europeu, ceder a demandas antigas dos grandes clubes, que querem maior controle sobre o evento de clubes mais prestigioso do mundo.

"Isso [a Superliga] está realmente acontecendo, vai acontecer, mesmo que a Uefa não apoie", disse um dos apoiadores do novo torneio.

Se a Superliga vingar, ela terá implicações profundas nas ligas existentes em toda a Europa.

Torcedores do Liverpool protestaram com cartaz que decreta a 'morte' do clube e os dizeres: 'vergonha de vocês'
Torcedores do Liverpool protestaram com cartaz que decreta a 'morte' do clube e os dizeres: 'vergonha de vocês'

Terminar entre os quatro primeiros da Premier League (a primeira divisão do campeonato inglês de futebol) é o maior prêmio do futebol inglês, porque garante vaga para a Liga dos Campeões. As seis equipes inglesas que aderiram à Superliga perceberam que seis é maior que quatro — ou seja, no formato atual, todo ano duas equipes inglesas estão perdendo ao não participarem da Liga dos Campeões.

'Cinismo'

Mas isso não vai mais ser assim. Uma fonte da Superliga admitiu que o plano diluirá consideravelmente o valor da Premier League como produto — a disputa pelas quatro vagas, que é uma de suas atrações principais, não terá mais sentido.

Já percorremos esse caminho antes e o ex-presidente-executivo da Premier League sugeriu que a pandemia proporcionou uma janela de oportunidade para essa proposta radical, que não teria chance de prosperar em tempos normais.

"Há um oportunismo cínico nisso", disse ele. "Eles perceberam que a situação está caótica agora e que qualquer coisa pode acontecer."

Mas ele acrescentou: "O futebol envolve dois grupos de pessoas. Jogadores e torcedores. Você os perturba por sua conta e risco".

"Se os torcedores decidirem boicotar os jogos, isso será um desastre financeiro, e se a Fifa ameaçar proibir os jogadores participantes de representar seu país na Copa do Mundo, eles não irão aceitar."

Para quem gosta de assistir a grandes jogos, a disputa fora de campo ainda promete muita emoção.

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