Superman bissexual incomoda conservadores ao afirmar representatividade

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Beijo gay em
Beijo gay em "Superman: Filho de Kal-El". Foto: Divulgação/DC Comics

Resumo da notícia:

  • Anúncio de Superman bissexual gera críticas de conservadores

  • Criador do quadrinho explica importância da pauta LGBTIA+

  • Entrevistados refletem sobre discussão de sexualidade e representatividade nas produções

A revelação de que o novo Superman, Jon Kent, filho de Clark Kent com a jornalista Lois Lane, é bissexual causou revolta - regada de preconceito - da ala conservadora da sociedade brasileira. O objetivo do cartunista Tom Taylor de exaltar a representatividade pela trama do quadrinho "Superman: Filho de Kal-El" esbarrou na ideia arcaica de que a heteronormatividade (imposição social para ser e se comportar conforme o estereótipo heterossexual) deve imperar entre nós. 

Dentre as manifestações negativas nas redes sociais, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) fez questão de criticar a produção ao chamar a trama bissexual de "pedágio do establishment midiático". "Chegou o dia em que é obrigatório! Para ser aprovado pelo establishment midiático é preciso pagar um pedágio, eles querem decidir por você e ditar o monopólio das virtudes. Vários desses super-heróis inspiram adolescentes e crianças. Mas o problema é o garoto de policial, né?", escreveu no Twitter.

Só que o policial não sumiu, assim como o homem branco heterossexual nunca esteve fora do plano, mas estão surgindo novas formas de narrativa, que representem a todos e sejam igualitárias na reprodução da realidade em que vivemos.

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Em contrapartida, Taylor deixa claro que sua criação não é um truque midiático. "Quando me ofereceram o trabalho, eu pensei 'Bem, se vamos ter um novo Superman para o universo da DC, me parece uma oportunidade perdida ter um outro salvador branco e hétero", contou em uma entrevista a partir de Melbourne, na Austrália. 

"Nós não queríamos que isso fosse 'DC Comics cria novo Superman queer. Queremos que isso seja 'Superman se encontra, se torna o Superman e depois se revela bissexual' e eu acho que há uma distinção importante aqui", explicou. Mas, afinal, qual a diferença entre discutir gênero e ensinar sexualidade? Por que o assunto incomoda? Qual a importância de abordar pautas desse tipo nos quadrinhos?

De acordo com o levantamento “Visual GPS 2021 da Getty Images”, apenas 20% dos entrevistados globais afirmaram ver pessoas LGBTQIA+ representadas regularmente em imagens e, quando o fazem, as representações são estereotipadas

Para Marina Ganzarolli, advogada e presidente da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP, a sexualidade não se é ensinada, mas tem que ser discutida assim como a identidade de gênero. "Não existe ensinar sexualidade. O desenvolvimento se dá de forma diferente para cada pessoa. Em especial, a partir de todas as referências que a gente, enquanto ser humano, formou a nossa compreensão de afeto e sexualidade”, declara. “Discutir gênero, falar sobre consentimento, falar sobre respeito, afeto e cuidado, em qualquer faixa etária é super importante”, completa.

"Não tem como educar crianças para a equidade, para o respeito, para humanidade, sem falar de perspectivas que atravessam a vida dessas crianças também. Como as desigualdades de gênero, raça, identidade de gênero e orientação sexual e classe", reflete.

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Thiago Costa, professor da FAAP e editor do Armazém Pop, destaca que, apesar de grande parte do público dos quadrinhos ainda se apresentar conservador, a maior parte dos produtores se apresenta de forma oposta. "Historicamente, sempre tiveram visões mais liberais em relação a abertura de assuntos que a sociedade, naquele momento, ainda era muito restrita ou combativa", afirma sobre os quadrinistas.

“É engraçado que isso incomode tanto, porque se a gente pensar, grande parte dos personagens falam sobre o oposto. X-Men, por exemplo, é sobre liberdade, sobre preconceito. Mesmo o Superman, quando nasce, é um personagem que combate as injustiças de toda forma”, completa o aficionado por cultura geek.

Na visão de Pedro Martinez, advogado criminalista, coordenador da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP e bissexual, o anúncio da DC sobre a bissexualidade de Jon Kent é um importante passo para a representatividade. "Medidas do tipo têm impacto extremamente positivo na luta contra a discriminação", afirma.

"Isso pode ajudar, por exemplo, um rapaz que esteja descobrindo na adolescência a sua bissexualidade a não pensar que há algo errado com ele, que ele é inferior aos colegas heterossexuais - pode, inclusive evitar suicídios. Mostrar que o Super-homem é bissexual significa dizer que LGBTQIA+ podem ocupar qualquer espaço, podem ser qualquer coisa e não tem absolutamente nada de errado nisso", acrescenta.

A ascensão da representatividade e frequente discussão sobre o assunto podem evitar trágicas mortes como a de Lucas Santos, de apenas 16 anos, que nos deixou em agosto deste ano. O filho da cantora de forró Walkyria Santos foi encontrado morto na casa onde morava com a família em Natal, no Rio Grande do Norte, após uma série de ataques de cunho homofóbicos em um vídeo publicado no Tiktok.

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