Supermercados da França se unem em boicote contra soja brasileira

O Globo, com agências internacionais
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PARIS - Quase todas as grandes redes de supermercados na França - Carrefour, Casino, Auchan, Lidl, Metro, Système U, Mousquetaires e Leclerc - anunciaram medidas para acabar com o uso da soja produzida em terras desmatadas atualmente.

Para marcar dois anos da Estratégia Nacional de Combate ao Desmatamento Importado (Stratégie Nationale de lutte contre la Déforestation Importée, ou SNDI, em francÊs), os grandes varejistas acabam de anunciar que incluirão cláusulas de não desmatamento para soja nas condições contratuais para seus fornecedores.

Em particular, os supermercados estão exigindo que seus fornecedores parem de usar soja de terras recentemente desmatadas no Cerrado, que é a principal região do Brasil sendo desmatada para a produção de soja.

A cada ano, a França importa mais de dois milhões de toneladas de soja do Brasil para ração animal (para aves, suínos, e também direcionada aos animais usados na indústria de laticínios).

O consumo de soja na França é responsável pelos piores impactos nas florestas e ecossistemas nativos, segundo ONGs ambientais.

O anúncio dos supermercados é significativo, mas não suficiente, explica Klervi Le Guenic, diretor de campanhas da organização Canopée, que trabalha com a indústria e fornecedores para garantir práticas sustentáveis:

- O manifesto dos supermercados envia um sinal muito forte ao mercado, mas para ir além de meras palavras, esta medida voluntária precisa ser rapidamente transformada em planos de ação consistentes.

De acordo com Etelle Higonnet, diretora sênior de campanha da Mighty Earth, outra organização ambiental, os supermercados franceses "estão finalmente ouvindo as preocupações de seus clientes e liderando um esforço de toda a indústria para limpar toda a cadeia de abastecimento da soja francesa".

Segundo a Mighty Earth, nove entre dez franceses apoiam ações de combate ao desmatamento.

Segundo o jornal francês Le Monde, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima a perda líquida de floresta no mundo em 178 milhões de hectares desde 1990. "A Uniião Eurpeia é responsável por mais de um terço (36%) do desmatamento vinculado ao comércio internacional de produtos agrícolas, em grande parte devido à soja", diz o periódico.

O movimento lembra os protestos de consumidores de outros países, como no Reino Unido. A maior rede de supermercados do país, a Tesco, está na mira do Greenpeace. Ativistas exigem que ela pare de comprar produtos de empresas ligadas ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

O protesto é um dos muitos exemplos da pressão internacional crescente contra a política ambiental brasileira, que já levou gigantes varejistas como a própria Tesco a defender legislação que garanta o rastreamento das cadeias de abastecimento. Os supermercados não querem manifestações na sua porta, e muito menos sua imagem ligada a atividades predatórias.

Não por acaso, nos últimos meses o Brasil vive uma fuga de investimentos estrangeiros, e um dos fatores é justamente a questão ambiental.

- Em função da piora concreta das taxas de desmatamento e de sinais abundantes de que prevalece hoje uma certa tolerância com a questão, o Brasil tem merecido uma imagem bastante negativa na cena internacional. O mesmo obscurantismo que nos prejudicou e nos prejudica no combate à pandemia nos afeta também nos temas ambientais — disse em entrevisa ao GLOBO o ex-presidente do BC Arminio Fraga.