SuperVia deixou de investir quase R$ 300 milhões na malha ferroviária, diz estudo de estatal do governo do estado

A cena de passageiros saindo de um trem com defeito em Quintino, na Zona Norte do Rio, e caminhando pelos trilhos — uma mulher teve que ser carregada no trajeto até a estação — engordou ontem a crônica do caos vivido pelos 350 mil clientes que recorrem aos serviços da SuperVia todos os dias. O problema, que começou às 6h30 e se estendeu por mais de seis horas, somou-se a transtornos na rede aérea da linha de Saracuruna e na sinalização do trem expresso em Campo Grande e Santa Cruz. O efeito cascata na malha ferroviária afetou os ramais de Santa Cruz e Japeri, além da extensão de Paracambi, que também sofreram com interrupções, atrasos e revolta.

— O trem começou a andar devagar até parar em Quintino. Eu estava com muita dificuldade para caminhar, as pessoas viram e me ajudaram — disse, em entrevista à TV Globo, a passageira carregada no colo, que estava a caminho do hospital para se submeter a uma cirurgia.

Em Deodoro, na Zona Oeste, passageiros atearam fogo em pedaços de madeira sobre os trilhos e tentaram depredar um trem, além da própria estação. Na mesma parada, pessoas foram vistas andando nos trilhos:

— Tive que descer e ir a pé da Vila Militar até Deodoro. Ainda quis retirar a madeira dos trilhos, mas os manifestantes não deixaram. Eu e amigos seguimos viagem por transporte de aplicativo — contou o estudante Enzo Tomaz Anselmo, de 21 anos, que ia de Campo Grande para a Uerj.

A manhã conturbada coincidiu com a saída do diretor de Operações da SuperVia, Marcelo Feitoza. Em nota, a empresa disse que a medida faz parte de “ampla reestruturação que a concessionária está realizando internamente com o objetivo de melhorar o serviço prestado aos clientes”.

Em meio a dezenas de incidentes ao longo dos últimos tempos, provocados por furtos de cabos e por outras ocorrências, faltou investimento. Laudo preliminar da estatal Central Logística, do fim de outubro, estimou em quase R$ 300 milhões o total que a concessionária deixou de injetar na melhoria dos serviços de 2010 a 2020. A concessão, originalmente, venceria em 2023. Num termo aditivo assinado em 2010 pelo ex-governador Sérgio Cabral (e revisto em 2014), a prorrogação por mais 25 anos foi acertada. Em vez de pagar pela extensão do contrato, a SuperVia deveria aportar R$ 1,2 bilhão na recuperação de estações, da rede aérea e da sinalização. Segundo a Central Logística, faltou quase um quarto do valor (exatos R$ 298,3 milhões) para a conta fechar.

Em abril, problemas no funcionamento do sistema levaram a Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transportes Aquaviários, Ferroviários, Metroviários e de Rodovias do Estado (Agetransp) a aplicar uma multa de R$ 2,2 milhões contra a concessionária, que ainda recorre.

A auditoria da Central corre em sigilo porque o documento ainda pode sofrer alterações. Suas conclusões vão orientar a fixação de uma nova tarifa para os trens: os reajustes são concedidos uma vez por ano.

A necessidade do acerto de contas para definir o novo valor da passagem aparece três meses depois de o estado ter fechado mais um acordo com a SuperVia para subsidiar a tarifa. A concessionária deve receber um reforço no caixa de R$ 251 milhões até o fim do ano para compensar perdas de passageiros durante a pandemia de Covid-19. Hoje, a passagem custa R$ 5. Nesta nova contrapartida, a empresa se comprometeu a realizar melhorias até dezembro, entre as quais instalar cabos subterrâneos de sinalização nos ramais de Japeri, Saracuruna e Santa Cruz.

explicações para a pane

A SuperVia atribuiu o incidente de ontem ao acionamento de um botão de emergência perto da estação de Quintino, mas, até o fim da tarde, não havia apresentado maiores esclarecimentos. Em nota, o governo do estado informou que a Agetransp e o Procon-RJ vão investigar os problemas na malha ferroviária, além de avaliar o atendimento aos usuários e os procedimentos para o restabelecimento da circulação do modal.

Caso o Procon não aceite as explicações, a concessionária pode ser multada em mais de R$ 12 milhões. Até o momento, a autarquia já aplicou R$ 10,9 milhões em infrações. Deste valor, R$ 1,6 milhão foi por falhas no atendimento aos usuários no ramal de Santa Cruz, do qual Quintino faz parte.

O secretário estadual de Transportes, Andre Luiz Nahas, cobrou da SuperVia a apresentação em 24 horas de um plano de contingência para situações como a de ontem. No fim do dia, passageiros chegavam à Central do Brasil apreensivos sobre como seria a viagem de volta:

— Espero que seja mais tranquila. Sem trem, tive que pegar ônibus e metrô para chegar ao Centro, me atrasei para o trabalho, e esse gasto nas passagens não será reembolsado — disse o técnico em telecomunicações João Carlos Barbosa, de 52 anos, morador de Nilópolis.

* Estagiário sob a supervisão de Giampaolo Morgado Braga