Suposta gravação de Lula criticando ex-ministro Palocci usa trechos de vídeos sem relação entre si

Uma sequência de três vídeos em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva supostamente responde a acusações do seu ex-ministro Antonio Palocci foi compartilhada centenas de vezes nas redes sociais, pelo menos, desde 24 de abril de 2022. A montagem foi feita com uma entrevista do petista a um podcast, seguido de um depoimento de Palocci em que ele faz acusações contra Lula, juntamente com uma suposta gravação do ex-mandatário dizendo que era preciso “dar um jeito” no ex-ministro. No entanto, os vídeos não estão vinculados entre si. À AFP, a assessoria de imprensa de Lula negou a veracidade do áudio exibido ao final da sequência.

“Não adiantou o TSE apagar o vídeo. Foi resgatado e será repassado aos milhões, basta cada um de nós que receber esse vídeo o repassar ao máximo. Vamos dar a nossa contribuição. Eustáquio, esse pagou uma conta cara por dizer a verdade lá atrás”, diz uma publicação no Twitter.

O conteúdo também circula no Facebook (1, 2), Instagram (1, 2, 3) e TikTok.

Captura de tela feita em 4 de junho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O vídeo que circula nas redes sociais exibe três sequências, que, de acordo com alguns usuários, teria sido “apagado” pelo Tribunal Superior Eleitoral. Contudo, não há registro de que o TSE tenha emitido alguma decisão sobre o conteúdo exibido.

“Diga o que eu roubei”, diz Lula no início do vídeo viral. Uma busca pelas entrevistas concedidas pelo ex-presidente mostra que este trecho foi retirado de uma participação sua no podcast PodPah, transmitido em 2 de dezembro de 2021.

A partir de 1h23m39s da gravação, Lula critica as sentenças proferidas pelo ex-juiz Sergio Moro contra ele. “Diga o que eu roubei”, questiona, completando: “A sentença que ele deu pra mim… sabe qual foi o crime que eu cometi? Fato indeterminado”.

Delação divulgada em 2019

Logo depois, na gravação viral, é exibido o trecho de um depoimento de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda (2002-2006) no governo Lula (2003-2010) e ex-ministro-chefe da Casa Civil (2011) no mandato de Dilma Rousseff (2011-2016). O vídeo visto na montagem é um trecho de um relato, publicado em 2019, e até então inédito, de sua delação premiada (1, 2) no âmbito da Operação Lava Jato, assinada com a Polícia Federal e homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin.

No fragmento compartilhado nas publicações, ele acusa o petista de corrupção: “No fim do seu segundo mandato, aí ele preparou a sua aposentadoria. Recebeu R$ 300 milhões da Odebrecht em uma conta corrente de disponibilidade. Recebeu o seu sítio, que foi feito combinado para seu uso… o apartamento do Guarujá foi combinado. Eu, pessoalmente, levei pacotes de R$ 50 mil reais algumas vezes”.

Nesse momento, o ex-ministro do governo petista menciona a doação de imóveis ao ex-mandatário pela Odebrecht, também investigada pela Lava Jato por esquema de propina.

Esse relato de Palocci foi divulgado em reportagem do jornal O Estado de S. Paulo em 4 de outubro de 2019 e replicado em outros veículos de comunicação (1). O Checamos não localizou a íntegra do depoimento gravado, mas, naquela data, o vídeo repercutiu na imprensa nacional (1).

Anteriormente, em abril de 2017, um outro depoimento do ex-ministro petista havia sido divulgado por Moro. Palocci afirmava que o Instituto Lula teria recebido R$ 4 milhões da Odebrecht, no que ele chamou de “pacto de sangue” entre o PT e a empreiteira. A revelação também foi divulgada pela imprensa (1, 2).

No vídeo da delação, Palocci aborda o caso do triplex no Guarujá. Em 2016, o Ministério Público Federal acusou o ex-presidente Lula de ter recebido propina da construtora OAS por meio de reformas no apartamento localizado na cobertura de um edifício na cidade litorânea de São Paulo.

Lula também foi investigado, no âmbito da Lava Jato, nos processos relativos aos casos do sítio de Atibaia e do Instituto Lula.

O caso do triplex rendeu ao petista cerca de um ano e meio na prisão em Curitiba, impedindo-o, inclusive, de disputar as presidenciais de 2018. Em março de 2021, o processo foi anulado pelo STF por considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar as ações penais. No mês seguinte, o Tribunal confirmou a anulação das condenações. A Segunda Turma da Corte também declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro por agir com parcialidade.

Sobre a delação de Palocci, o Partido dos Trabalhadores (PT) emitiu um comunicado classificando suas falas como “mentiras”: “Melhor aceitar a realidade, reconhecer os erros e corrigir as injustiças do que seguir se associando a acusações sem provas que não se tornam menos mentirosas quando passam do papel para o vídeo”.

Áudio circula desde 2017

Na terceira parte do vídeo, é atribuído a Lula um áudio que supostamente mostraria a sua reação ao depoimento de Palocci, exibido em outubro de 2019.

“Alô? Pode falar. Como é que tu queria que eu fizesse? Eu falei, inclusive pra ti, que mais dia menos dia ele ia abrir a boca e falar tudo que tinha que falar. Tá lá. Eu tô vendo ele aqui agora no Jornal Nacional. Falou tudo que tinha que falar. [...] Falou do apartamento, falou do sítio, tá falando de tudo”, ouve-se na gravação.

Sobreposta ao vídeo está a frase “Nunca se esqueça dessa gravação do ladrão inocente e Palocci”, sugerindo que a voz seria de Lula. Em 1º de outubro de 2018, o então juiz Sergio Moro quebrou o sigilo da delação premiada de Palocci. O depoimento divulgado por Moro foi tomado em abril daquele ano.

Essa não é a primeira vez que a suposta gravação de Lula circula na internet. Em 2017, dois anos antes da divulgação do relato de Palocci visto nas publicações virais, o áudio que seria de Lula foi atribuído a um grampo de conversa entre o ex-presidente e o deputado federal Rui Falcão (PT-SP).

À época, a presidente do PT, a deputada Gleisi Hoffmann, afirmou nas redes sociais que o partido estava “tomando as medidas legais cabíveis” em relação ao que ela classificou de “falsificação grosseira da voz de Lula”. Questionada pelo AFP Checamos se Lula teria judicializado o caso, a assessoria do ex-presidente informou em junho de 2022 que não entrou na Justiça.

Além disso, não há registros na imprensa informando sobre o áudio atribuído a Lula no vídeo, como ocorreu, por exemplo, com as interceptações telefônicas do líder petista, divulgadas em 2016 pela Justiça Federal do Paraná (1, 2).

A equipe do petista também negou em 2022 a veracidade da gravação: “O áudio não é verdadeiro. Infelizmente o Bolsonarismo recicla mentiras para promover o ódio, atrapalhar o debate público e esconder o desastre que é o governo Bolsonaro para o povo brasileiro”.

Esse conteúdo também foi verificado pelo Comprova, projeto de verificação colaborativa do qual o AFP Checamos faz parte.

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