Sur, BNDES e BB: entenda tudo que foi acertado entre Lula e Fernández

Lula e Alberto Fernandez, presidente argentino, se cumprimentam após discurso - Foto: REUTERS/Agustin Marcarian
Lula e Alberto Fernandez, presidente argentino, se cumprimentam após discurso - Foto: REUTERS/Agustin Marcarian

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a Buenos Aires, em sua primeira viagem ao exterior do terceiro mandato, com um pacote econômico para o país vizinho. Ao lado do mandatário argentino, Alberto Fernández, Lula ofereceu crédito do BNDES, inclusive para a construção de um gasoduto, e seu governo anunciou uma linha de crédito do Banco do Brasil.

Além disso, o petista defendeu a criação de uma moeda comum com o país vizinho — que pode ser chamada de “sur”, sul em espanhol —, uma iniciativa voltada para o comércio exterior que, segundo especialistas, beneficia mais a Argentina e pode levar até três anos para sair do papel.

A defesa da moeda comum gerou ruído no mercado, após autoridades argentinas terem defendido uma moeda única, nos moldes do euro, algo que foi afastado do documento oficial do encontro bilateral e das falas do titular da Fazenda, Fernando Haddad, que acompanhou Lula na viagem. O ministro chegou a dizer que quem defendia uma moeda única era seu antecessor, Paulo Guedes. E assegurou que os bancos públicos não vão “correr riscos” nas operações com o país vizinho.

Operações sem riscos

Sem avanços concretos do sur, o dia ontem foi marcado por promessas de crédito brasileiro aos hermanos:

— O BNDES vai voltar a financiar as relações do Brasil, a engenharia, projetos do Brasil no exterior, e ajudar os países vizinhos a crescer — afirmou Lula, em encontro com empresários dos dois países. — O Brasil não pode ficar distante. O Brasil não pode se apequenar.

A primeira fase do gasoduto está concluída, e o governo argentino busca recursos para continuar a obra, com 500 quilômetros, ligando os campos de óleo e gás da região de Vaca Muerta até San Jerónimo, na província de Santa Fé, o que possibilitaria a exportação para o Brasil.

— De vez em quando ouvimos críticas no Brasil por ignorância de pessoas que acham que não pode haver financiamento de engenharia para outros países. Eu acho que não só que pode, como é necessário o Brasil ajudar todos os seus parceiros. E é isso que vamos fazer dentro das possibilidades econômicas do nosso país — afirmou Lula.

Haddad, por sua vez, disse que o BB vai financiar exportações para a Argentina, com garantias soberanas dos dois países. Para isso, explicou o ministro, a Fazenda desenvolve um fundo garantidor.

O objetivo é evitar o uso do dólar, especialmente devido aos problemas que a Argentina enfrenta, com queda de suas reservas estrangeiras.

— O Banco do Brasil não vai tomar risco nenhum dessa operação de crédito para exportação. Nós vamos ter um fundo garantidor soberano, que vai garantir as cartas de crédito emitidas pelo Banco do Brasil para exportadores brasileiros. Nem o banco argentino que estiver financiando o importador, nem o Banco do Brasil que estiver garantindo exportador, estão envolvidos no risco — afirmou Haddad ao lado do ministro da Economia argentino, Sergio Massa.

O argentino completou:

— O Banco do Brasil assume compromisso com empresas brasileiras, o Banco de La Nación assume compromisso com empresas argentinas.

Segundo Haddad, o fundo garantidor vai assumir o risco de convertibilidade de peso em real. Ele ressaltou ainda que o sur não será uma moeda única, como o euro.

O documento assinado ontem pelos dois ministros sequer fala em moeda comum, e sim em “expandir o uso de moedas locais, com a intensificação das negociações entre os bancos centrais e outros órgãos responsáveis por aperfeiçoar o Sistema de Pagamento de Moedas Locais (SML), e ampliar seu uso e escopo, com vistas a um comércio sem obstáculos e com a inclusão do comércio de serviços.”

— Recebemos de nossos presidentes uma incumbência: não adotar, e deixo isso muito claro, uma ideia que era do governo anterior, que não foi levada a cabo, da moeda única. O meu antecessor, o Paulo Guedes, defendia muito uma moeda única entre Brasil e Argentina. Não é disso que estamos falando. Trata-se de avançarmos nos instrumentos previstos e que não funcionaram a contento — afirmou Haddad.

Mais cedo, contudo, Lula defendeu a criação da moeda comum no Mercosul e até no Brics, grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Ao ser questionado sobre detalhes da proposta, desconversou:

— Se eu soubesse tudo o que o jornalista perguntou, eu seria ministro da Fazenda e não presidente da República.

Melhor para a Argentina

No Brasil, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, afirmou que a discussão sobre uma unidade financeira comum não visa substituir as moedas nacionais nem ser como o euro.

Mesmo incipiente, a proposta foi criticada por especialistas, que lembram que o sur levaria entre dois e três anos para sair do papel.

— O impacto para o comércio bilateral não é tão grande. Talvez o resultado seja importante neste momento porque a Argentina tem um problema com crédito, por não ter reservas internacionais — disse o ex-secretário de Comércio Exterior e consultor Welber Barral.

Ele aponta, porém, que uma moeda comum poderia “ajudar os médios exportadores brasileiros”.

— Essa moeda teria de ter uma paridade fixa com o dólar, e o Banco Central do Brasil teria de se comprometer a entregar dólares para quem estivesse com esse crédito e precisasse trocar — disse o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman. — O que o exportador brasileiro quer é uma moeda forte. Por que ele vai aceitar sur se pode receber em dólar?

Já Rubens Barbosa, embaixador e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, considera a proposta positiva:

— Isso convém ao Brasil para aumentar as exportações industrializadas para a Argentina, que não tem reservas para pagar.

O país vizinho, aliás, seria o mais beneficiado, avalia o ex-secretário do Tesouro Carlos Kawall, sócio-fundador da Oriz Partners. Ele lembra que o comércio bilateral tem involuído devido à crise econômica da Argentina, com baixo crescimento e inflação de quase 100%.

***Colaboraram Fernanda Trisotto e Manoel Ventura