Surfe conquista mulheres com mais de 40 anos

Marcia Disitzer
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Daniela, Gabriela e Rachel: vida em ondas

O surfe é um atalho para a felicidade. A frase é da designer de joias Rachel Sabbagh, mas poderia estar na boca da advogada Daniela Oliveira ou da artista plástica Gabriela Machado. Donas de trajetórias distintas, as três descobriram o esporte na maturidade e fizeram dele um aliado do corpo e da mente.

A ligação de Rachel, de 54 anos, com o mar é antiga. “Sou carioca, mas passei a infância em Minas Gerais. Contava os dias para estar na cidade e ir ao encontro do oceano. Sempre Sou carioca, mas passei a infância em Minas Gerais. Contava os dias para estar na cidade e ir ao encontro do oceano. Sempre amei a ideia de surfar, mas achava que não era para mim, que só conseguiria em outra encarnação”, lembra a joalheira. Aos 40, com dois filhos pequenos, ela tentou se aventurar nas ondas, mas a rotina frenética a impediu. Dez anos depois, a hora finalmente chegou. “Moro em Ipanema e tinha o hábito de jogar frescobol na Praia do Diabo, diariamente. Até que uma amiga querida me presenteou com uma aula de surfe. O mar estava perfeito e fiquei em pé na prancha de primeira, senti algo indescritível. Foi amor à primeira vista”, conta. Rachel virou aluna assídua das aulas matinais do Arpoador e, dois meses depois, comprou e personalizou uma prancha. “Professores como Alexandre Pretão me ajudaram muito. Em 2015, eu e mais quatro surfistas iniciantes viajamos com ele para a Costa Rica. Alugamos dois carros e fomos atrás de ondas perfeitas em praias desertas. O surfe é mais do que um esporte, é um estilo de vida. Virei uma adolescente ‘velha’, no bom sentido”, comenta.

O envolvimento com o surfe fez a designer levar a água salgada para dentro de seu trabalho: em 2015, ela criou uma linha de pingentes em formato de prancha — de ouro, prata e esmalte vítreo — e anéis que reproduzem o movimento das ondas. Para ela, o surfe é um enfrentamento diário, que injeta confiança dentro e fora do mar. “Sou uma mulher antes e outra depois, me sinto empoderada. Além de me deixar em forma, pegar onda me coloca em contato com outra dimensão. Quando estou sentada na prancha, surgem mil ideias. Fico num estado contemplativo que me traz um bem-estar imenso”, observa ela. “Surfo quatro vezes por semana, mas evito sábado e domingo por ficar muito cheio. Só de olhar o horizonte, o meu astral melhora. Descer uma onda, então, nem se fala”, emenda Rachel.

Tamanho entusiasmo não foi abalado nem quando a joalheira passou por um revés, em 2017. “Estava voltando a surfar depois de me recuperar de uma cirurgia no joelho. Num momento de distração, a prancha se soltou e bateu no meu maxilar”, conta. Seis meses depois, ela regressou ainda mais inteira: “Tive que superar o medo e enfrentar o trauma. Mas dizem que todo surfista que se preze já sofreu acidentes”.

Se o surfe ganhou espaço na criação de Rachel, no caso de Gabriela Machado, que não revela a idade, foi a pintura que a levou para a vida sobre as pranchas. “Há dois anos, comecei a vir ao Arpoador, regularmente, para pintar o mar e acabei ficando completamente conectada com as ondas. Paralelamente, também realizei algumas residências artísticas, em que viajei para lugares de praia com telas pequenas. Fui aos Hamptons, nos Estados Unidos, a Portugal e ao Hotel Fazenda da Lagoa, da minha amiga Mucki Skowronski, na Bahia, onde acordava e dormia olhando o mar. Foi justamente ela, que também surfa, que me perguntou: ‘Gabi, por que você não entra no surfe?’. Entrei e não larguei mais”, diz a artista plástica.

A novidade provocou uma revolução na arte de Gabriela. “A propriedade que tenho na hora de pintar a água é outra”, comenta a pintora, que também tornou-se adepta das aulas de natação no mar, no Posto 6, para ficar atenta e forte. A imersão de Gabriela rendeu frutos: em março, ela inaugura uma exposição na Galeria Anita Schwartz, em que mostrará telas, grandes e pequenas, e esculturas em porcelana sobre mares e lagos; em abril, a artista segue para Portugal, onde ficará até o fim de 2020. Além de uma viagem de surfe pela costa alentejana, fará uma mostra em Lisboa, na Galeria 3+1 Arte Contemporânea, com pinturas que retratam o mar de Cascais.

Superativa, a advogada Daniela Oliveira, de 45 anos, começou a surfar há cinco, impulsionada pelo ex-namorado, adepto do esporte. “Fomos até para o Havaí”, lembra. “Comecei a fazer aulas na Barra, mas, como moro em Botafogo, decidi cair no Arpoador, que chamo de nave mãe. Toda vez que piso no local sinto que entrei numa outra dimensão. É, realmente, um lugar mágico”, elogia. Na água, ela conta ter feito amizade com pessoas de 15 a 60 anos e diz não ter enfrentado nenhum tipo de resistência. “Não me deparei com machismo, todo mundo se ajuda. A espera pela onda possibilita o entrosamento e é o momento perfeito para se conhecer pessoas interessantes”, explica Daniela. “Digo para as minhas amigas que minha rave é no mar. Troco qualquer night por manhãs de surfe, nas quais 70% dos surfistas são homens que seguem a mesma filosofia de vida”, comenta a advogada, que diz sair do mar “blindada”. “É uma limpeza na mente. Sinto-me pronta para encarar audiências e assuntos pesados ao longo do dia”, garante.

Com alunos de 5 a 80 anos na Praia do Arpoador, o surfista e instrutor de surfe Alexandre Negrão enumera os benefícios do esporte para mulheres com mais de 40 anos. “Além de desenvolver a musculatura dos braços e das pernas, atua sobre o espírito. O surfe é um ótimo remédio contra a depressão. Acompanhei diversas pessoas que superaram crises pessoais e mudaram a vida para melhor”, conclui.